“A boca que devora é a mesma que se cala quando quer gritar” [lições de Renata]

A leitora Renata está se recuperando de um transtorno alimentar e enviou um texto muito belo, sincero e forte sobre coisas que ela aprendeu durante sua trajetória.

Quis publicar aqui no NSE porque tenho certeza que essas lições podem ajudar muitas pessoas que estão passando pelas mesmas dificuldades:


“Se você tem um transtorno alimentar, vai entender o que eu quero dizer.

Você já teve vergonha de sair de casa porque engordou muito em pouco tempo e ficava com medo da reação de conhecidos? Você ouve que é preciso se amar independentemente  do peso, das mesmas pessoas que falam que ‘você engordou muito e logo indicam um remédio, dieta ou médico ‘fantástico’? Você se pune por ter ‘derrapado’ na dieta e daí come até não aguentar mais? Você fica se comparando com todo mundo e achando que é a mais infeliz? Você já sentiu o que é ser bem tratada por estar com o corpo ‘padrão’ e em pouco tempo percebeu que o tratamento muda quando está acima do peso?

Pois é, eu também.

Mas estou aprendendo muito no processo de reeducação alimentar que estou passando.

Aprendi que nossa mente pode até nos confundir de vez em quando, mas o corpo não. Aprendi que ambientes e pessoas legais não vão mudar a forma de me tratar por causa dos quilos a mais ou a menos.
Aprendi que desligar a crítica impiedosa que vive em mim é fundamental para eu poder me aceitar.
Aprendi que pessoas que realmente se importam comigo não vão me criticar pelo momento pelo qual estou passando.
Aprendi que ninguém, nem mesmo minha família, pode ter poder sobre o meu humor. Aprendi que “derrapar” na reeducação alimentar faz parte do processo, nenhum caminho é sempre em linha reta, há desvios e recuo.
Aprendi que comer consciente e sem culpa diminui minhas compulsões.
Aprendi que a aceitação interna, tão falada por todos, é difícil mas me deixa mais forte, mesmo num mundo gordofóbico.
Aprendi que não preciso comer minhas emoções.
Aprendi que  minhas emoções não são erradas, não precisam ser soterradas por quilos de comida.
Aprendi que lidar com as emoções é duro mas me deixa mais forte.
Aprendi que me criticar nunca vai me fazer melhor, só me deixa mais agressiva.
Aprendi que viver pensando em alimentação e exercícios é uma fuga para não olhar para o que realmente me incomoda.
Aprendi que ficar gorda não me protege do medo que tenho dos relacionamentos. Aprendi que posso ser bonita com qualquer peso.
Aprendi que ser magra não é um convite para sexo nem ameaça a mim, eu posso escolher com quem e quando quero me relacionar.
Aprendi que estar magra não traz a felicidade plena, nem o amor perfeito, nem as amizades mais legais.
Aprendi que a insatisfação corporal faz parte de um sistema que quer meu dinheiro e quer tirar meu poder.
Aprendi que ser humilde não é aceitar qualquer coisa que venha do outro.
Aprendi que me impor não é ser grossa, é saúde.
Aprendi que focar em mim me faz parar de me comparar com outros.
Aprendi que as mulheres precisam se unir e não entrar nessa competição que é tão estimulada (tchau machismo!).
Aprendi que quando me aceito, páro de procurar a aceitação externa.
Aprendi que as pessoas falam muita besteira porque também estão confusas, portanto não preciso agredir para me fazer ouvir.
Aprendi que me proteger com palavras e atitudes é mais eficiente do que engolir as emoções. 
Aprendi que se eu tiver um episodio de compulsão não estarei automaticamente mais gorda no dia seguinte, mesmo que eu tenha comido muito na noite anterior.
 Aprendi que a boca que devora é a mesma que se cala quando quer gritar.
Aprendi que chorar, chorar muito, quando estiver triste não vai me matar.
Aprendi que meu corpo não é maquina e eu não posso controlá-lo com dietas e exercícios. Aprendi que meu corpo é inteligente.
Aprendi que meu corpo quer me ajudar e me avisa quando algo não vai bem.
 Aprendi que machucar meu corpo me deixa mais distante de mim mesma.
Aprendi que quando me ouço e me respeito, até minhas intuições ficam mais aguçadas. Aprendi que errar é legal e me ensina.
Aprendi que posso errar e não preciso ser perfeita (juro!).
 Aprendi a me olhar no espelho e ver graça e beleza num corpo (MEU corpo) que eu queria esconder.
Aprendi que o que fica para as pessoas que conheço é o meu jeito, minha companhia, e não meus quilos.
 Aprendi que se, em vez de fazer dieta, eu ouvir meu corpo, não vou ficar sem controle como eu imaginava.
Aprendi que ninguém sabe mais sobre o que devo comer do que meu corpo.
Aprendi que, apesar de tudo o que fiz com meu corpo, ele continua me ajudando e me avisando quando devo parar de comer ou quando devo comer mais.
Aprendi que fazer exercícios não é punição, é prazer.
 Aprendi que querer dormir mais e não ir à ginástica não vai fazer de mim uma fracassada que não tem ‘foco, força e fé’. É o meu corpo pedindo descanso.
 Aprendi que tratar meu corpo com carinho, aceitação e amor, traz felicidade e me reconecta com minha alma, meu organismo e minha mente.
Aprendi que meu corpo sou eu, e eu mereço o meu amor. 

(“Ame-se primeiro e o restante irá se encaixar”)

Quanta sabedoria, quantas coisas importantes a Renata aprendeu! Que leitura bonita, não?

Existem muitas pessoas precisando desta mensagem. Compartilhe! ❤

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2 ideias sobre ““A boca que devora é a mesma que se cala quando quer gritar” [lições de Renata]

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