Fiscais de prato e invasoras de geladeira

Hoje eu fiz a minha primeira participação em um programa de rádio (na verdade eu já concedi uma entrevista para o programa Caminhos Alternativos na CBN, mas naquela ocasião eu não fui no estúdio)

Hoje eu visitei um estúdio de rádio de verdade, coloquei fones, falei no microfone e tudo!

(uau…)

Por causa disso eu cheguei no meu trabalho uma hora mais tarde. Eu atualmente trabalho como nutricionista em uma escola e supervisiono o almoço das crianças. Contei que eu estava chegando atrasada porque havia participado de um programa de rádio:

– Gente, eu demorei uma hora para chegar porque eu estava dando uma entrevista no rádio!

Minhas colegas se surpreenderam:

– No rádio? Que chique! Sobre o que?

– Ah, eu tenho um Blog na internet que faz algum sucesso, o nome dele é “Não Sou Exposição” eu discuto sobre padrões de beleza, alimentação, saúde…

NOVO

Assim as pessoas ficam sabendo da minha postura como nutricionista e como pessoa:

Eu não conto calorias.
Não acredito em dietas restritivas.
Acredito que a alimentação é muito mais do que sustento corpóreo, é prazer, alegria e identidade cultural.
Acredito em alimentação consciente e sem culpa.
Acredito que cada caso é único e não adianta generalizar.
Defendo que o processo saúde-doença é multifatorial e não é tão simples como “ter vergonha na cara” ou “fazer escolhas”.
Não sou a favor de terrorismo alimentar.
Questiono padrões de beleza.

Enfim… todas as coisinhas que eu falo aqui no Blog e nas redes sociais, eu tento explicar em um minuto.

Uma das auxiliares de cozinha gostou bastante da minha fanpage e conversou um pouco comigo no horário do intervalo.

Ela me disse que quando ficou sabendo que ia trabalhar em um local com nutricionista, ficou morrendo de vergonha de mim (porque ela é gorda – eu falo GORDA, mesmo. Não preciso de eufemismos como ~acima do peso~ ou ~gordinha~ porque GORDA é uma característa física e não deveria ser interpretado como uma coisa ruim)

Ela também me disse que comentou na casa dela que tinha ficado desconfortável em fazer um prato de almoço na minha frente, já que eu sou “magra e nutricionista”

Conversei com ela, expliquei que não cabe a mim fazer julgamentos sobre as pessoas, seus corpos ou sobre o que elas colocam no prato. Eu tenho noções sobre como montar um prato saudável (embora eu ache que um prato de lasanha à bolonhesa no restaurante no domingo é uma coisa muito salutar…), mas jamais darei palpites não solicitados.

Ela ficou contente por eu não ser uma “fiscal de pratos enjoadinha.”

Não pude deixar de lembrar deste vídeo que uma amigona minha me passou ontem, que mostra a frustração de um garotinho que teve a casa invadida por uma fiscal de geladeira que confiscou todas as suas comidas favoritas (ele inclusive partiu para o quintal para nunca mais voltar…)

O vídeo está em inglês, mas pode-se perceber qual é a situação.

 

A obesidade é um problema de saúde pública, eu sei.

 

A obesidade é um problema de saúde pública, eu sei.

 

A obesidade é um problema de saúde pública, eu sei.

 

[Eu não estou louca. Falei três vezes para ver se diminui a incidência de comentários me acusando de glorificar a obesidade, coisa que não faço.]

Mas será que as coisas precisam ser invasivas, incisivas, traumáticas, “na marra”?

SERÁ que não dava para conversar com a família, fazer concessões, propor trocas, buscar uma solução viável para todos sem BANIR o bacon?

Será que invadir o lar e enfiar mudanças goela abaixo da família é uma medida educativa? Ou duradoura?

Enfim, coisas que eu ouvi hoje: “nossa, você é a primeira nutricionista que eu vejo que entende o que é um ser humano” e “nossa, mas como você é diferente dos outros nutricionistas” e “pensei que você fosse tipo carrasca”

Será que eu sou assim tão diferente? Será que estou falhando na missão de arrombar geladeiras?

Como fica o papel dos nutricionistas no imaginário popular? Carrascos e fiscais de prato?

E como fica a autonomia das pessoas? Como promover saúde sem macular a intimidade e invadir espaços?

Enfim, termino o texto com perguntas. Só sei que foi muito bacana falar no rádio.

 

 

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10 ideias sobre “Fiscais de prato e invasoras de geladeira

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  2. isabelarissio

    Quando eu era criança, estudava em período semi-integral em uma escola tradicional de Curitiba. Botaram uma nutricionista no refeitório durante um tempo. Era fiscal de prato. Ela olhava se a gente pegava e o que a gente comi, e mandava voltar caso achasse que não estava bom. Nunca aprendemos nada sobre alimentação com ela. E eu, como criança magricela que comia pouco, fugia da moça para poder ir pro recreio sem me empanturrar de comida não desejada.

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