Aquela lancheira.

lancheiraEsta é a lancheira que eu levava para a escola quando criança. Ela era uma casa, e dentro dela moravam dois coelhos. Eu não era exatamente uma campeã de amigos (não era, não sou, dificilmente serei…), então eu achava o máximo ir para a escola na companhia de dois mini-coelhos.

O que a minha mãe colocava na lancheira? Suco natural (malditas garrafas que vazavam!), fruta, biscoitos, um sanduichinho. Trivial. Acessível. Básico.

Ficava muito grata aos coelhos por não terem comido todo o meu lanche quando chegava a hora do recreio.

Porque eu estou falando sobre isso? Oras, por causa daquela lancheira.

Muitas pessoas me escreveram me perguntando a minha opinião e eu respondi (muitas vezes!) que não queria me envolver nessa polêmica. Pode parecer incrível, mas eu não gosto de polêmica e procuro me manter afastada dos assuntos que viralizam.

– Pausa pra dizer que eu gosto do Dinofauro sem mandíbula. É um viral inocente e ninguém briga por causa dele. –

fessoal

-Fim da pausa para o Dinofauro Aful-

…Enfim, dando uma circulada pela internet percebi que aquela lancheira está gerando um desconforto generalizado e suscitando opiniões das mais sensatas às mais obscuras.

JÁ QUE quase todos os blogs, sites, jornais, instagrams e etc. deram um parecer sobre aquela lancheira, falar sobre isso já não vai fazer diferença e não adianta mais querer preservar a dona da lancheira.

Muito bem.

O que eu acho sobre aquela lancheira? Desnecessariamente sofisticada.

Pode parecer uma questão individual (a mãe envia para a filha o que bem entender), mas na verdade esta é uma questão de coletividade.

– Levanta a mão quem tem plenas condições de se alimentar diariamente de arroz asteca orgânico e leite de gergelim preto!

– Levanta a mão quem mantém uma horta caseira!

– Levanta a mão quem tem tempo de preparar granola em casa!

– Levanta a mão quem tá podendo se beneficiar de um jejum ayurvédico de três dias!

… Pois é.

A vida de quem montou aquela lancheira é uma utopia da saúde perfeita. É para quem pode, e quem pode são poucos.

 

Você sabe o que significa Segurança Alimentar e Nutricional?

É o acesso permanente ao alimento em quantidade e qualidade, sem comprometer outras necessidades essenciais, que tenha como base práticas promotoras de saúde e que levem em consideração aspectos econômicos, sociais, regionais e culturais.

Vamos pensar naquela lancheira.

Aspectos econômicos: alimentos caros, orgânicos e de difícil acesso para a maioria da população.

Aspectos sociais: o conteúdo da lancheira só reforça o privilégio social da sua dona, em contraste com as famílias que não podem fornecer mais do que biscoito recheado para seus filhos.

Aspectos regionais e culturais: aqui no Brasil temos tradição e um patrimônio alimentar muito rico, por isso não precisamos celebrar alimentos e combinações estranhas à nossa cultura (coisa que sempre acontece num certo programa de TV…)

Muitos dirão “Ah, bom para ela, que pode dar o melhor para a sua filha”

Mas não. O questionamento que deve ser feito aqui não é “que bom para ela” e, sim, “que ruim para a população” que não tem acesso ao alimento bom, de qualidade e livre de agrotóxicos.

Por isso, aquela lancheira é uma questão de saúde pública.

Porque no Brasil temos: mães que podem preparar a melhor lancheira do mundo e mães que não sabem se terão alimento em casa no dia seguinte.

E alimentação adequada não é questão de sorte, de destino, de depender de caridade ou da capacidade individual de consegui-la (ou seja, enaltecemos aquela lancheira e culpabilizamos as mães que fornecem alimentos não saudáveis – ou alimento nenhum – aos seus filhos)

Alimentação adequada é um DIREITO de todo cidadão, inerente à dignidade da pessoa humana e que está contemplado na nossa constituição desde 2010:

constituição

ESTA é a razão do desconforto. Por isso aquela lancheira é também uma questão de saúde pública. Porque ela passa um grande marca-texto amarelo no abismo social que existe no nosso país. E a culpa cai na nossa cabeça porque, supostamente, não montamos lancheiras como aquela lancheira porque temos má vontade, somos comodistas e não queremos o melhor para a saúde das nossas crianças.

marca texto

Este argumento é, no mínimo, desleal com as mães brasileiras que fazem das tripas coração para criar seus filhos da melhor maneira possível com os recursos (muitas vezes escassos) que têm.

Você é mãe? Pois saiba que você não precisa SOFISTICAR a alimentação dos seus filhos. Você pode SIM incentivar o consumo de frutas, legumes e verduras com o que é nosso, acessível e barato sem que isso se transforme em ferramenta de status, privilégio e diferenciação social.

E cá entre nós, de vez em quando podemos ofertar biscoito recheado, salgadinho de pacotinho e achocolatado para os pimpolhos e ninguém vai morrer de câncer por causa disso. Faz parte da infância.

Novamente, citação de Oscar Wilde: “Convém ser moderado em tudo, até na moderação.”

Dei a minha opinião porque a alimentação É ferramenta política, econômica, social, ambiental e de saúde.

E tá lançado o forninho.

Só não vale responder que eu tenho RECALQUE porque quando eu era criança eu ia para a escola na companhia de dois mini-coelhos. Superem ESSA.

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9 ideias sobre “Aquela lancheira.

  1. marisanta

    Eu ainda não tenho opinião formada (mesmo) sobre a tal lancheira, mas, embore achasse a proposta do programa legal, com o tempo fui percebendo que, na busca de uma alimentação dita “natural”, acessível e “regional”, ela usa ingredientes de dificílimo acesso. Sempre tem alguma raiz ou farinha supostamente “muito comum” na Bahia, por exemplo, que eu, que nasci no interior e moro na capital baiana, nunca sequer vi mais gordo… O fato é que os ingredientes que ela usa depois acaba aparecendo nos mercados custando pequenas fortunas… No mesmo canal, gosto muito do Cozinha Prática, que traz, sim, muitas ideias caseiras e simples, com ingredientes de fato acessíveis e, ainda assim, saudáveis, na medida do possível…

  2. Jessica

    Amei o bom senso trazido pelo texto, no meio de um mar de “ah, mas então o que é bom é encher a criança de porcaria” ou “ta certo, tem que ser só orgânico e natural”. Abordou o lance social que é comida, e como que a midia tece essa teia de alimentação complicada, cara e exótica pra ser considerada adequada. E não é nada disso….basta ver que o que se serve nas escolas como merenda é simples e muitas vezes bastante nutritivo, nada apelativo. Arroz, feijão, macarrão, frutas, salada…claro que infelizmente tem escolas que por diversos problemas não oferecem o melhor tipo de alimento, mas isso tem mudado. Numa sociedade onde o valor é medido pelo dinheiro que as coisas custam, temos que abrir o olho até quando falamos de algo tão simples como comida.

  3. Camila

    Mais uma vez arrasou no texto! Muito bem escrito e dizendo tudo q achamos! Parabéns! Vc vai longeee! Bjs

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