Um caso de vigorexia

“Investir nos sonhos de quem amamos é uma lei fundamental das relações saudáveis. O poder do elogio e o investimento em sonhos aumentam intensamente nosso saldo emocional. Devemos ter coragem para analisar nossa conta. Muitas vezes pensamos que ela está positiva, mas, na realidade está negativa. Como está seu saldo?

L.T. se achava belíssima, atraente, sedutora. Mas era uma mulher inquieta, obsessiva e que focalizou sua beleza nas curvas do seu corpo. Preocupava-se em malhar, se maquiar, se produzir. Conheceu um jovem interessante na academia. Dois corpos malhando, prazeres semelhantes, estilos de vida igual, logo viveram uma explosiva paixão. Começaram com um saldo emocional altíssimo.

Ela era disputadíssima, ele estava fora dos padrões ditatoriais de beleza. Estava um pouco cheinho, mas procurava a academia para perder alguns quilos. Era bem-sucedido profissionalmente, executivo de uma multinacional. Ela, recém-formada em administração, tinha desejo de ter um bom emprego, comprar um apartamento, financiar um carro. Mas, como veremos, desejos não são sonhos, não são projetos.

A academia tornou-se pouco a pouco seu mundo. Ficava uma hora por dia vendo cada curva do corpo, o que deveria perder e o que deveria realçar. Saiu dos limites do cuidado saudável com o corpo para entrar pouco a pouco na armadilha da vigorexia. Esse transtorno psíquico acomete mais homens jovens, mas tem ocupado espaço também entre as mulheres. É mais do que uma prática regular e saudável de exercícios físicos, é uma obsessão pelo corpo.

Homens e mulheres portadores de vigorexia passam horas nas academias malhando exaustivamente. Na maioria das vezes são pessoas encantadoras que se perdem numa ansiedade incontrolável em busca de um corpo ideal, musculoso, robusto. Não poucas vezes tomam anabolizantes para acelerar esse processo. Uma bomba para o corpo. Em muitos casos, o culto ao corpo  esconde uma rejeição ao estado natural do próprio corpo, que se considera frágil, desproporcional, destituído de beleza.

L. T. pensava dia e noite no que ia comer e como perderia as calorias que ingeria. Tomava escondido substâncias para ganhar massa muscular e eliminar o excesso de gordura. Começou a malhar duas, três e depois quatro horas ou mais por dia. Adiava compromissos, deixava de ir a festas, não saía com os amigos. Não se desligava do seu corpo. Valorizava mais a estética do que o conteúdo.

Como seu corpo estava escultural, concluiu que com isso elevava o saldo emocional da sua relação, quando na realidade ele diminuía a olhos vistos. Só ela não enxergava. O namorado achava que ela exagerava em seus exercícios. Sugeria que ela tivesse outros valores, vivesse novas aventuras  se dedicasse mais aos seus sonhos. Ela dizia que já fazia isso e negava que se fixava em seu corpo. Ele queria fazer mestrado, estudar novas línguas, conhecer outros povos. O sonho dela era malhar e frequentar a academia, pois havia uma grande causa.

Quando jovem, havia sofrido o fenômeno bullying, os meninos a chamavam de “Olívia Palito”. Formou-se uma ‘janela killer‘ que foi lida e relida e arquivada no córtex cerebral e se tornou um fantasma que a assombrava. Ela vivia fugindo desse fantasma, mas não sabia. Um dia seu trauma abriu as portas para o desenvolvimento da vigorexia.

Para L.T., bastava estar fisicamente junto, para seu companheiro, era indispensável penetrar no mundo dela. Para ela, ir ao restaurante, cinema, shopping e manter diálogos superficiais era suficiente, para ele, conhecer e investir nos sonhos um do outro era fundamental. A paixão ardente foi aos poucos cedendo espaço aos conflitos. Se ele aprendesse a usar o poder do elogio, talvez a cativasse, criaria pontes para dialogar, mas desconhecia essa lei. Ele tentava dialogar, ela não sabia ouvir. Ela era uma ‘mulher-casulo‘.

Ele angustiou-se, perdeu o encanto, ficou insone, mas ela não percebeu nem jamais imaginou que ele, ‘cheinho’, terminaria com a mulher mais linda, escultural e cortejada do seu espaço social. Mas terminou. Partiu para nunca mais voltar. Foi sem dar grandes explicações. Achou que já havia falado o suficiente.

Ela ficou abalada e deprimida. Não aceitava a perda. Em crise, procurou ajuda. Mapeou sua história, seus traumas e seu drama. Seu Eu teve de sair da plateia e entrar numa nova academia, não de musculação, mas da sua mente, e aprender a fazer exercícios para deixar de ser vítima e se tornar autor da sua história. Ganhou ‘musculatura’ intelectual, belas curvas emocionais e reviu seus valores. Não deixou de malhar, mas recliclou o culto ao corpo e o substituiu pelo culto à vida.”

(trecho do livro “Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis“, de Augusto Cury)

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Uma ideia sobre “Um caso de vigorexia

  1. Ju

    Oi, Paola!!! Amo o seu blog, vejo todos os dias a sua página no face e já indiquei para as minhas amigas 😉 Queria muito muito que você falasse da lancheira que a Bela Gil faz pra filha dela, fiquei tão confusa… Achei que ela foi extrema demais com a alimentação da filha dela, mas depois eu li que ela é formada em nutrição… O que você acha disso? 🙂
    Beijos!!

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