“Tem que escovar”

A nossa memória é engraçada. Esquecemos do que almoçamos ontem, mas somos capazes de resgatar lembranças surpreendentemente remotas.

Eu tenho algumas lembranças remotas. Uma delas é de quando eu tinha sete anos, na biblioteca da minha escola. Lembro que a professora nos levou para emprestar livros pela primeira vez, uma vez que já conseguíamos fazer leitura de frases completas… E eu escolhi um livro novinho em folha chamado “Menina Bonita do Laço de Fita”, de Ana Maria Machado. Lembro-me que eu mal alcançava o balcão para realizar o meu primeiro empréstimo… E lembro que eu li a primeira página do meu lindo livro emprestado bem devagar:

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Eu moro no sul do Brasil e na minha sala de trinta e poucas crianças não tinha nenhuma criança negra. Nenhuma. Fiquei espantada, imaginando uma criança com azeitonas no lugar dos olhos, mas o mais importante é que eu aprendi que a Menina Bonita do Laço de Fita… era bonita.

Ontem eu vi uma criança negra linda, linda. Ela tinha um cabelo cheio, volumoso, viçoso, com vida própria. Seus cachinhos balançavam enquanto ela corria pra lá e pra cá com os amiguinhos.

Fiquei olhando por uns momentos e deixei escapar um “que querida…”

A pessoa que estava ao meu lado não se conteve:

– Querida? AQUILO? Vou te falar… isso daí não é feio. É MEDONHO.

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Foi suficientemente impactante ela ter se referido a uma menina como “isso daí”, mas me contive e perguntei: – Por que?

Porque tem que escovar. Ou prender. Ou cortar. Sei lá.

Para convidar minha colega (branca) à uma reflexão, perguntei de novo: – Por que?

Mas ela não quis agarrar o anzol do meu questionamento. Não quis pensar nas próprias palavras. Não quis encarar de frente o próprio racismo introjetado. Limitou-se a responder:

– Ah, é cabelo ruim.

Fiquei em silêncio porque percebi que a conversa não iria dar frutos. Na concepção da minha colega, é cabelo ruim e pronto.

Eu normalmente respondo que não existe cabelo ruim, ruim é quem fala isso. Mas não era momento para isso.

Eu tenho um Blog, é sempre bom me lembrar disso. Pois então:

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Quando afirmamos que os cachos da menina negra devem ser contidos, domados, controlados de alguma maneira, é porque alguma parte de nós acredita que os cachos incomodam. E se os cachos incomodam, é porque temos o cabelo liso (caucasiano) como referencial de normalidade.

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Tem muita gente que não tolera os cachos que dançam sem pedir licença ao nosso privilégio branco.

Exagero?  Ditadura do ‘politicamente correto’? Creio que não.

Sugiro a leitura da carta aberta à nega do cabelo duro, publicada no Blog Afrodelia.

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E se você chegou a esta altura da vida acreditando que ~racismo não existe~ (famoso mito brasileiro perpetuado por pessoas brancas como eu)… Fica a dica: repense.

Se precisar começar do be-a-bá, a obra “Menina Bonita do Laço de Fita” pode ser encontrada online aqui.

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7 ideias sobre ““Tem que escovar”

  1. Veronica

    Faço parte de uma família colorida: sou branca mãe de negras (pensem numa pessoa raivosa na luta contra o racismo!), e achei teu texto excelente. Questiono a bandeira do mov negro de que negros TEM QUE deixar seus cachos naturais. Ninguém TEM QUE nada. Cabelo, segundo pesquisas, é o item que mais interfere na auto estima, cada um use como se sentir melhor. A mulher negra que alisa o cabelo tem os mais variados motivos para fazê-lo, pode estar cansada de receber olhares tortos, pode querer variar, pode ter cansado de cuidar dos cachos etc. Ninguém deveria dar pitaco no cabelo dos outros. Pitaquear na aparência de pessoas negras me cheira a racismo enrustido. Valorizar não deve ser sinônimo de ditar regras.

  2. Jane

    Cresci lutando contra o volume do meu cabelo. Cheguei a alisar duas vezes, mas não mantive-não tinha paciência pra ficar esticando cabelo com prancha-e até meus 25 anos, só andava de cabelo preso. Depois, comecei a relaxar, e foi um passo importante para eu me relacionar melhor com o cabelo: passei a soltar e usar o meu direto de gostar deles sem violentar minha natureza. Há um ano parei de relaxar (sob os olhares de estranheza alheios) e estou tentando aprender a gostar do meu cabelo natural. É um longo processo de auto-aceitação, mas está valendo a pena. Difícil é conscientizar meus colegas de trabalho (sou professora na educação infantil) do quanto eles são preconceituosos, comentando sobre o cabelo de alguns alunos da mesma forma que comentavam sobre o meu…

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