O dia que eu escolhi o elevador

Eu moro em um edifício. Significa que quando eu chego em casa, tenho a opção de subir pelas escadas OU pelo elevador. Todo mundo sabe que a recomendação para fazermos mais atividade física e termos uma vida ativa é, entre outras pequenas escolhas cotidianas, usar as escadas.

Eu sempre subo pelas escadas. Quando eu estava finalizando o curso de nutrição eu fiz estágio no Hospital das Clínicas e eu fiquei no oitavo andar… E eu subia pelas escadas (de dois em dois degraus!) diariamente, enquanto as minhas colegas preferiam aguardar o elevador (até porque muitas delas estavam alocadas no décimo primeiro).

Estou falando disso porque ontem, como eu estava com as pernas doloridas, de mau humor e cansada… eu chamei o elevador.

Durante o pouco tempo que passei lá dentro, tive sentimentos de: culpa, ilegalidade e rebeldia.

— COMO ASSIM uma profissional da saúde que não pratica hábitos saudáveis? —

…gritava o julgamento invisível.

seja

Naquela hora lembrei da minha amiga do ballet (sim: ballet) que nos confessou que matou aula para comer Mc Donalds, sentada na cama assistindo “O Rei do Gado”. Daí ela pediu para a gente não contar pra ninguém.

Amiga, minha boca é um túmulo. Só estou falando sobre isso num Blog com 16.000 seguidores.

O que eu achei da atitude subversiva dela? Achei ótima.

Quem sou eu para julgá-la, se naquele dia, ela não estava com vontade de ensaiar?

Quem sou eu para dar pitaco no que ela come ou deixa de comer?

Quem sou eu para avaliar as condições físicas/emocionais dela pra dançar ballet?

Quem sou eu para discutir ONDE e O QUE ela deveria estar fazendo?

Naquele dia, ela não queria ensaiar. E tá ótimo.

Estatística inventada do dia: A cada dez aulas de ballet que eu tenho, faço oito. Sobram duas. Uma eu uso para ficar dormindo e a outra para tomar capuccino com meu namorado.

Pega eu.

Eu não sou uma máquina de treinar, que nem o Exterminador do Futuro é uma máquina de matar. Eu sou apenas uma pessoa com comportamentos que, às vezes, fogem da norma.

Tudo isso me passou na cabeça durante os segundos que fiquei dentro do elevador.

Me lembrei desse Meme-Fitness que me deixa irritada pelo seu reducionismo e desesperismo (acho que inventei uma palavra…)

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Então, por favor, zerem a contagem:

eu hoje

Me lembro de quando eu treinava mais pesado e fazia aula de ballet TODOS OS DIAS, às vezes me perguntavam: – quem você acha que aproveitou mais? Quem está aqui ralando ou quem não veio?

Na época eu era mais imatura e sentia que era o meu DEVER estar ali e que faltar aula era uma coisa horrível.

Hoje, em 2015, a minha resposta é:

… Depende. Sei lá.

Talvez a pessoa que faltou tivesse uma dor, um cansaço, um compromisso importante, talvez ela quisesse dormir, ir ao cinema, passear no shopping, dar pão para os patos no parque, comprar uma bicicleta, plantar uma árvore..………. Quem determina o grau de “aproveitamento” das coisas? Aliás, existe “aproveitamento das coisas”?

Meu nome é Paola, então vocês podem fazer as contas de quantas vezes me fizeram a piadinha de me chamar de Paola Bracho

Ok. Às vezes eu sou Paulina e subo pelas escadas. Às vezes eu sou Paola e vou pelo elevador. Por motivo nenhum. Só porque deu vontade (apreciadores de novela mexicana entenderão)

Não existe um jeito CERTO de viver a vida e ninguém vai morrer porque um dia mandou tudo às favas e foi comer Big Mac assistindo Vale a Pena Ver de Novo.

Não vou explicar de novo que não estou fazendo apologia à obesidade e ao consumo de fast food e blablabla:

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(Favor ler ESCLARECIMENTO na coluna ao lado direito do Blog)

Bom feriado, aproveitem como julgarem conveniente.

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14 ideias sobre “O dia que eu escolhi o elevador

  1. Karen Carolina

    Paola (Bracho <3), seus textos são demais! Que Deus continue a abençoar essa dádiva de escrever tão bem e nos fazer refletir sobre coisas tão importantes!

  2. Helen Almeida

    Ô Karol, fala que as inimigas das mulheres somos nós mesmas, não.
    Tem muito preconceito, tem. Mas acho que é mais por falta de conhecimento aplicado e repetição de hábitos do que por ser algo intrínseco às mulheres. Se não, a gente cai naquele papinho de que mulher não pode ser amiga de outra e blá blá blá whiskas sachê. Sororidade ❤

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