Dentinho! (ou impressões sobre assédio)

Sempre conheci como “dentinho” o rapaz na internet que (nas palavras dele) foi babaca, tropeçou na calçada e quebrou o dentinho da frente

Também sei que existe o desenho do “Alceu e Dentinho”
Mas recentemente chegou até mim um certo burburinho de dentinho, que confesso que, num primeiro momento, não sabia do que se tratava. Depois eu entendi o que estava acontecendo.
O furação que chacoalhou a internet foi a história dessa moça, que conseguiu se defender do assédio nas ruas usando o recurso da “careta de dentinho”

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Algumas pessoas agradeceram, outras aplaudiram, outras problematizaram. Pelos seguintes motivos:
1) O “enfeiamento”: discutiu-se que a questão do assédio precisa ir muito além das concepções de feio/bonito. De alguma maneira, a atitude da moça reforça a ideia de que “mulher feia ninguém quer” e dá carta branca para que as moças consideradas ~bonitas~ sejam assediadas. Também levanta a famosa máxima machista de que passar cantada em mulher feia é caridade.
2) Capacitismo/bullying: também foi discutido que a moça estaria desrespeitando as pessoas com dentição imperfeita, má formação dentária ou falta de recursos para tratamento ortodôntico.
O debate foi grande e eu acho que assédio é um tema de discussão válido.
Não sei se esse texto meu vai chegar na Débora, mas a primeira coisa que eu queria dizer é que a careta do dentinho é um talento ímpar. Eu tentei reproduzir algumas vezes na frente do espelho, dei risada de mim mesma, mas não consegui. Enfim, não que seja particularmente relevante, mas eu achei bem engraçado. Eu sei mexer as orelhas sem as mãos. Mas essa habilidade ainda não me trouxe benefícios de nenhuma natureza. Quem sabe? A vida sempre nos reserva muitas surpresas.
(sei fazer!)
Apesar de toda a polêmica, dos debates e das problematizações, eu fiquei feliz porque a Débora encontrou uma maneira de se defender do assédio nas ruas que tanto nos incomoda, ou pelo menos desconcertar os homens que lhe estavam importunando.
Mas vejo como uma solução paliativa. Outros diriam que é como “tirar o sofá da sala“… Lembrei de uma experiência que aconteceu comigo e fico triste de saber que A MULHER precisa tomar algum tipo de atitude para se preservar, sendo que os homens continuam sendo impertinentes e nos constrangendo.
No meu caso foi assim: eu estava no transporte público numa tarde de terça-feira e um homem começou a mexer comigo. MEXER. No sentido pleno da palavra: tocar, manusear, bulir.
O que aconteceu comigo foi contravenção de Importunação Ofensiva ao Pudor (Lei das Contravenções Penais – Art. 61)
Quando isso me aconteceu (e não foi a primeira vez...) eu não conhecia a história do dentinho e reagi como a maioria das mulheres: fiquei envergonhada, amedrontada, constrangida… E mudei de posição dentro do ônibus. O sacripanta veio atrás de mim. Quando isso acontece, tudo o que nos resta é descer do ônibus (às vezes num ponto que nem te corresponde) ou se encolher, olhar para o chão e torcer para que o pilantra te deixe em paz.
Eu poderia ter tido mais presença de espírito e feito uma careta para ele (a do dentinho não, porque essa eu não sei fazer)
Ou eu poderia ter dito alguma coisa MUITO ESTRANHA para confundir a mente dele
(“Me ajude, eu sou pobre.”)
Ou quem sabe eu poderia vestir uma máscara de cavalo… Isso seria legal.

Mas eu me peguei pensando… Será que a situação justa é que nós, mulheres, tenhamos que: abaixar o olhar, trocar de calçada, espetar a pessoa com um alfinete, descer do ônibus antes do nosso ponto, fazer careta de dentinho ou usar máscara de cavalo para que possamos nos preservar desse desrespeito diário que vivemos?

Será que a abordagem correta não deveria ser: “caras, não façam isso”?
Lembrei do infame ônibus cor-de-rosa, que no meu entender, problematiza a presença das mulheres dentro do transporte coletivo: “as mulheres dentro do vagão estão causando problema, então vamos tirá-las daqui e guardá-las numa grande caixa pink.”
Eu não quero ser transportada num vagão pink! Eu quero ter direito de ir e vir com segurança e sem ser incomodada por atos e palavras.
Aqui na minha cidade tem uma campanha chamada Eu Não Tolero Abuso
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abuso

A proposta é interessante, mas eu fiquei pensando nisso também. Se eu tivesse parado para reclamar do homem que estava me incomodando (avisando o motorista ou o cobrador), posso apostar que sofreria represália do ônibus inteiro (pois cada qual está com pressa e precisa cuidar dos seus afazeres)
Que tipo de represálias?
– Largue mão de frescura
– Isso é ~cultural~
– Feminazi enchendo o saco
– O que você fez para provocar essa situação??
– Isso faz parte do instinto do homem (adoro essa)
(Também acho que as dezenas de passageiros do biarticulado não ficariam nada contentes em parar o ônibus por causa de UMA pessoa. Se alguma curitibana já se valeu do direito de parar um ônibus, conta aí)
(Este é o ônibus biarticulado que tem aqui em Curitiba)
Enfim, contudo… se incomodar mulheres é oh tão cultural, oh tão instintivo e oh tão natural, significa que o homem é um ser completamente selvagem e incapaz de dominar seus desejos e impulsos?
(…Dá licença que eu vou ali catar piolhos na cabecinha do meu colega Raaawrr..)

Eu sei que o homem que mexeu comigo no transporte público nem lembra mais de mim. Mas eu lembro dele. Porque ele me constrangeu e me assustou. Sei que eu nunca vou poder dizer nada para ele, mas este é o meu Blog e é meu mundo de fantasia. Então, se eu pudesse dizer algo para esse cidadão, seria:

Caro colega de transporte coletivo,
Você não lembra de mim. Mas eu lembro de você. O que você fez comigo me fez sentir constrangida, inferiorizada, irritada e com medo. Eu sei que isso não te importa. Porque atitudes machistas como a sua fazem parte da sua criação e tratar mulheres como menos do que gente é uma coisa que, no seu universo, conta pontos. Por influências familiares, culturais e midiáticas, você aprendeu que é BACANA inferiorizar mulheres. Além das típicas conversas de bar, você muito provavelmente tem até um grupo no whatsapp só dos parceiros e lá vocês ficam trocando conteúdo sexista e todos riem porque, né, nada mais natural.
machista
(coisas que você, provavelmente, acha super divertidas)
Mas eu queria te falar que eu fiquei triste. Eu sou um ser humano, eu tenho sentimentos. E eu não existo para a sua apreciação. Eu não estava no ônibus por SUA causa. Eu estava cansada, eu estudo, eu trabalho e se você se desse o trabalho de me enxergar como uma PESSOA, você poderia até constatar que eu sou uma pessoa legal e quem sabe a gente até poderia conversar com decoro e respeito como dois seres humanos dignos? Ser apalpada por uma pessoa desconhecida é uma invasão de privacidade, um desrespeito, um fator de aflição muito grande. Embora enxergar as moças por essa perspectiva seja estranho para você, pense no assunto: O MEU CORPO NÃO É DOMÍNIO PÚBLICO. Você não tem permissão para me tocar e me falar impropérios só porque eu sou uma mulher.
Esse recado NUNCA chegará em você. E se chegasse, você me chamaria de fresca e chata e arremataria com alguma piadinha machista.
Mas não me importa. É meu Blog e não me custa fantasiar que você, meu agressor, leu, pensou, percebeu que cometeu um vacilo e agora vai mudar de atitude.
Um exercício de imaginação não faz mal nenhum, não?
Enquanto isso, vamos nos defendendo como podemos. Desviando o olhar, trocando de calçada, respondendo ou mesmo fazendo careta de dentinho.
Também sofreu assédio? Clica aqui: http://chegadefiufiu.com.br/
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3 ideias sobre “Dentinho! (ou impressões sobre assédio)

  1. Priscila

    Gente,fiquei super emocionada só de ler isso tudo. Não aguento mais também esse assédio diário!

  2. elisabete tavares

    Eu não acredito que o homem um dia , vá respeitar a mulher,homens são naturalmente machistas e prepotentes ,mas acredito que as mulheres,precisam,sim,andar armadas,com spray de pimenta,que seja,e aprender defesa pessoal,depois,a gente conversa…ah…se conversa!

  3. Sandra

    Eu não ia tolerar não, bateria neste indivíduo dentro do busão… Ah não ser que eu ficasse com muito, mas muito medo. Esse indivíduo ia ficar, no mínimo, com vergonha.

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