O Adônis do presunto

Passando para um breve lamento.

Meu lamento é sobre o comercial do presunto sadia, do qual eu não gostei nada, nada.

Então. Na trama, um bando de mulheres está na fila para comprar presunto (quanto misto quente vocês têm para fazer, moças...) e se mostram muito satisfeitas porque o vendedor apresenta todas as características que nós, ocidentais contemporâneos, interpretamos como beleza.

Estão na fila para comprar presunto ou estão na fila só por causa do vendedor? Não sei. Não entendo de nuances de personalidade de mulher de propaganda.

Aí o presunto acaba de repente e o bonitão é substituído por um homem fora dos padrões (ou seja, feio)… E todas se decepcionam. Se decepcionam porque terão de comprar outra marca de presunto ou porque o deus dos produtos frios foi trocado por um baixinho? Também não sei.

feio

Sei que muitos (muitos!) dirão “ai é só uma brincadeira” ou “isso aí não tem nada demais”. Mas para mim tem. Tem porque quando eu assisti a peça publicitária eu me senti desconfortável.

Me senti desconfortável porque os dois homens estão expostos da mesma maneira que presuntos. A lógica da propaganda é mais ou menos assim:

presunto

Então “presunto &  homem” sofrem uma simbiose e terminam na mesma categoria: objeto de consumo.

Não me surpreenderia se algumas mulheres celebrassem a propaganda com um certo sentimento de revanchismo, porque, se fizeram isso conosco tantas vezes, então vamos fazer com eles.

Mas eu não. Eu não achei legal e eu fiquei triste. Eu não acho que seres humanos devam ser comparados com presuntos expostos num balcão e vale lembrar também que a criatura que está diante de nós no mercado nos vendendo fatiados não está ali para nosso deleite ocular e que virar o foco do holofote para a APARÊNCIA das pessoas em todos os momentos é uma prática que se transformou num verdadeiro problema de saúde mental coletiva. A obsessão pela aparência faz mal. Faz mal para o corpo, a mente e as relações humanas.

Não tem outro jeito de vender produtos (sejam carros, bebidas, sapatos, roupas ou presuntos) sem desumanizar, despersonificar, denegrir, desrespeitar seres humanos?

Quanto mais propagandas desse tipo assistimos, mais solidifica na nossa cabeça a ideia de que pessoas também são objetos de consumo, moeda de troca e espaço para anúncio.

É por isso que vivemos num mundo de relações humanas líquidas, efêmeras, instantâneas e vazias. “Enjoamos” do outro e o descartamos com a mesma facilidade com que amassamos uma latinha de alumínio e jogamos fora para depois comprarmos outra.

Aceito a fama de exagerada, mas não enxergo a peça como uma simples propaganda de presunto, mas sim o retrato de uma sociedade em aguda crise de valores.

Quando nós, mulheres, pedimos por igualdade, não estamos dizendo que OS HOMENS devem ser objetificados do mesmo modo que fazem conosco, mas sim que todos devem ser tratados e representados com respeito e dignidade.

Eu Não Sou Exposição. E os homens não são presunto.

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