Vamos rebobinar?

Hoje eu estava visitando uma escola e testemunhei, na cantina, uma cena de partir o coração. Uma mãe puxava a filha pelo braço até o balcão e dizia para as funcionárias:

A Marcela (nome fictício) só pode comer frutas e suco natural. NÃO VENDAM salgados, achocolatado, barrinhas e outras porcarias para ela. Entendido?

Olhou feio para a pequena e continuou:

Estamos trabalhando duro para ela perder peso, mas ela não me obedece. Ela não tem jeito. Engordou dois quilos só nesse fim de ano! Vou colocar na natação. Anotem aí por favor que a Marcela está PROIBIDA de comer lanches da cantina.

Foi constrangedor. Foi desnecessário. Todo mundo ouviu. E eu pude perceber que a pequena (devia ter uns 7 anos) ficou triste e envergonhada.

Ela se afastou puxando a mochilinha de rodinhas pulando entre as diferentes pedras do pátio, numa brincadeira silenciosa enquanto seguia a mãe.

Era gordinha. Nada anormal para uma criança daquela idade. Me pareceu saudável. Mas a magreza urge. E não há gordinha nenhuma no mundo que possa vencer a potência cultural da adoração da esbeltez.

Fiquei olhando ela se afastar e imaginei uma história.

Na minha história a criança foi levada ao endocrinologista para receber sua primeira dieta aos sete anos. Meio pedaço de carne magra. Uma colher de arroz. Na sala de aula, recebeu os primeiros apelidos…”hipopótama”… pudim de banha. Marginalizada pelos colegas e por que? Por uma característica física. A dieta, previsivelmente, não surtiu efeito. A mãe então apela para chás amargos, água de berinjela, suco de couve (“diz que derrete gordura”) . Quando mais dieta faz, mais gorda fica. Sempre imersa até o pescoço nos palpites, conselhos e dicas bem intencionados da vizinha, da amiga da comadre… Sempre um comentário. Sempre o corpo. Sempre o peso. Já adolescente, ao olhar no espelho, sente asco. Repulsa. Abominação. Resolve que vai emagrecer, e dessa vez é para valer.

“Já almocei, mãe!”

“Estou sem fome, mãe!”

“Tô meio enjoada, não vou jantar hoje, mãe!”

E eis o truque do desaparecimento. Todos viram, ninguém enxergou. E a menina se transformou numa carcaça do que um dia fora aquela criança cheia de vida, alegria, sonhos e saúde.

Então começa a contradição. Todos os que lhe diziam “não coma, não coma”, agora lhe imploravam “coma, por favor”… E ah, sim, ela comeu!

Ela comeu a angústia, ela comeu a raiva, ela comeu a tristeza, ela comeu a vergonha, ela comeu o amor e a aceitação que solicitou e nunca recebeu.

Sentiu que não devia ter feito aquilo. Vomitou. E assim nasceu seu ciclo particular de automutilação, solidão e melancolia que ninguém adentra…e que ninguém conhece… só ela.

***PÁRA TUDO***

Eu imaginei essa história durante os segundos que passei olhando a pequena brincar. Saudável. Feliz. Marcelinha está bem.

A mãe, é claro, não fez por mal. Pois desesperada de amor pelo seu rebento, desespera-se também para vê-la mais longilínea, portanto bonita e, por que não, saudável? Hoje em dia isso está tudo misturado mesmo.

Mas só por um exercício de criatividade… Vamos rebobinar?

Ao invés de chamar a criança de gorda e recriminá-la por causa disso, façamo-as sentir que ela é querida e amada independentemente da sua aparência.

– Vamos separar o que é beleza, o que é magreza e o que é saúde (SIM, são coisas diferentes.)

– Vamos ensinar aos pequenos que existem muitos tipos de corpos do mundo e que a beleza está na diversidade.

– Vamos focar na qualidade da alimentação e não no peso.

– Vamos dissipar o tabu em torno das guloseimas… de vez em quando pode, é gostoso e não é proibido para ninguém.

– Eduque, incentive e converse com sua filha (ou filho) de forma POSITIVA e enaltecendo suas conquistas e qualidades.

Vamos rebobinar?

Imaginem quantas vidas poderíamos salvar?

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