A Liberdade de um sorriso.

Como comentei no post anterior, estou passando por um momento pessoal delicado e preciso pegar mais leve na administração do NSE. Mas fiquei muito contente com o texto que eu recebi do Arthur Barbosa, falando sobre a sua experiência com uma questão que é pouco discutida, mas que causa sofrimento e estigma: lábio leporino.

O depoimento é muito sensível e humano e representa tudo o que o NSE defende e acredita. Confesso que sucumbi por causa de mensagens maldosas e mal intencionadas que recebi. Fiquei triste. Quis me render. Quis parar.

** Aproveito para agradecer todas as manifestações de apoio e carinho que recebi! Fiquei muito contente e surpresa **

Mas a história do Arthur faz a gente lembrar que as exigências sociais podem gerar muito sofrimento e precisamos falar sobre o assunto. Precisamos nos esforçar. Não podemos desistir. Precisamos viver além do status, além da imagem, além da superficialidade.

Muito obrigada, Arthur, por dividir o seu relato com a gente!

Arthur2

“Quando você acorda e se olha no espelho, o que você vê?

Por muito tempo, eu só conseguia enxergar o que definia minha identidade: uma cicatriz. Nasci com uma má formação congênita, o lábio leporino (e/ou fissura lábio palatina), gerando grande impacto visual e diversas reações aos que me esperavam. Era como se eu tivesse sido colocado em uma arena cheia de leões, uns rugiam tão alto que não conseguia ouvir o som da minha própria voz. Sou caracterizado como irregular, ou condição do que é anômalo. É como me ‘classificam’. Durante todo o meu crescimento pude vivenciar experiências cirúrgicas reparadoras e tratamentos clínicos no que diz respeito à fala, face e funções alimentares; de recuperação estética e adequação psicossocial. Por isso, quero conversar com você a respeito de alguns conceitos que somos desafiados todos os dias. Os conflitos começaram desde pequeno, com minha aparência e minha voz; não entendia o porquê de todos terem rostos simétricos, narizes pontudos, sorrisos alinhados e uma dicção daquelas que dava pra entender tudo o que diziam.

“Os olhos só veem o que a mente está pronta para compreender.” Henri Bergson

A discussão sobre beleza sempre esteve em pauta. O que é belo pra você? A natureza é bela, o amor é belo, aquela música também, mas e o ser humano? Sei que é uma pergunta capaz de abrir um leque quase infinito, afinal, o que é belo pra mim pode não ser pra você. As interpretações não têm fim, os argumentos são construídos todos os dias. Alguns inconstantes, outros consistentes em suas colocações filosóficas das mais diversas. Talvez seja a pergunta mais indagada por você mesmo que inconsciente, uma vez que a mídia impõe um padrão, a cultura outro, suas ideologias um caminho diferente do que sua família diz. A religião conversa de um jeito, a ciência se explica de outro. Ser belo é ser aceitável? Existe um padrão? Por muito tempo, este circo não me fez bem.

Arthur

Vergonha do que sou ou de quem sou? Como o outro me vê? Usamos roupas que “favorecem” o nosso corpo, ouvimos as músicas que fazem sucesso, comemos o que a maioria come, assistimos o que foi aclamado por alguém, escondemos nossa opinião. Vivemos pelo capitalismo e não pela humanização. Você nunca está satisfeito, mas é uma satisfação imposta, e não adquirida, entende? Preferem se esquivar de um olhar sincero e se permitem ser vistos por olhares fúteis. Será um público exigente ou apenas acomodado? As cobranças não têm fim. Por isso, escolhi me expor, pois acredito que esta causa vale a pena. Talvez se sentíssemos o que o outro sente, seríamos mais compreensivos.
Eu sou incompleto, eu sou feliz assim. A perfeição, cansa. A cada dia tenho encontrado a essencialidade da vida através de gestos simples, como o sorriso. O lábio leporino não me define, assim como suas dificuldades não te definem. O meu convite à você é este: ser livre para sorrir. Por aqui, pude ser objetivo, compartilhando alguns trechos do livro, mas há uma beleza avassaladora em sorrisos, e você pode continuar descobrindo comigo através da página www.facebook.com.br/sorriaolivro
Arthur Barbosa”

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