Carrascos da saúde

Situação 1: profissional de educação física coordena um centro esportivo da prefeitura. É “sarado”, maníaco por dietas e enche as redes sociais de selfies e mensagens machistas, preconceituosas e gordofóbicas. A turma para adultos do CE fechou porque muitas pessoas se sentiram intimidadas pelo professor, que menospreza gordos e humilha os alunos em público. As pessoas não têm dinheiro para procurar uma academia particular, receberam orientação médica para que fizessem atividade física mas se sentem envergonhadas por causa do comportamento histriônico do professor.

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(perfil profissional cheio de anedotinhas sobre dieta e anabolismo, e sobre como os sarados merecem as mulheres “mais gostosas”: a população da região se sente intimidada e prefere não treinar no centro esportivo)

Situação 2: moça sofre episódios de compulsão alimentar severa. Procura uma nutricionista para pedir ajuda e narra seu caso. A profissional mal escuta o relato e diz que se a moça “fechasse a boca para parar de fazer drama, também emagreceria”. A paciente perde a confiança, prefere lidar com o problema sozinha e o problema de compulsão piora.

Situação 3: pessoa recebe orientação médica para perder peso. Procura uma nutricionista, que é  “estrela” nas redes sociais. Recebe uma dieta rígida e estranha ao seu estilo de vida, que corta alimentos que gosta e acrescenta outros que não tolera. Se esforça muito para seguir as orientações ao longo de uma semana, mas na consulta seguinte o peso permanece inalterado. A nutricionista ri, chama a paciente de “lasanha” e diz que desse jeito não vai poder publicar um antes & depois na sua página no Facebook. A profissional diz que é rígida com os pacientes para ‘motivar’ e os pacientes se referem a ela como “nutri carrasca”. Mas a paciente não se sente motivada, pelo contrário, sente-se triste, incompreendida e violada na sua privacidade.

Pois é, Brasil. As três situações são relatos que recebi de pessoas que tiveram experiências negativas com profissionais da saúde que não demonstraram um pingo de empatia na sua conduta:

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Seria legal a gente lembrar que o nosso trabalho deve ser feito pelo outro, e o outro pode não ter o mesmo repertório de soluções que a gente, então precisamos prestar atenção no relato do paciente. Pessoas muito rígidas consigo mesmas também são rígidas com os demais, porque enxergam as coisas dentro da sua justíssima medida. Mas se colocar como uma figura dura, rígida e superior diante do paciente não motiva ninguém.

Tá faltando entender que nem tudo é do nosso jeito, pois vamos trabalhar com o público e o público é composto de diferentes perfis e histórias de vida então nem todas as pessoas irão se portar do mesmo jeito se forem coagidas e pressionadas.

Para alguns, funciona. (“Ah, é? Vou mostrar quem é a lasanha!”)

Mas não é o caminho para todos os casos, porque tem gente que não consegue trabalhar nem produzir e nem progredir sob pressão ou quando se sentem inferiorizadas.

Falta respeito, falta procurar alternativas diante dos problemas que são propostos, falta a noção de diversidade de pensamentos, falta humildade, falta flexibilidade.

É por causa de nutricionistas fundamentalistas com mínima noção de alteridade que no imaginário popular, ficamos com a fama de neuróticas chatas que cortam tudo da vida do paciente.

“Ah, mas comigo é assim e não tem outro jeito”… Acontece que o teu jeito, para o outro, não serve.

Ou deixamos de ser carrascos e passamos a perceber as nuances da realidade do outro ou seguiremos traumatizando os pacientes que solicitam nossa ajuda.

Aí por causa de um mau exemplo dado por um profissional, sentem vergonha de fazer atividade física, pioram a alimentação e a qualidade de vida de modo geral.

Nosso compromisso é a saúde, e não marginalizar quem nos procura.

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3 ideias sobre “Carrascos da saúde

  1. Olivia Alves

    Falando nisso, será que você teria uma nutricionista bacana ou um local que pudesse oferecer um acompanhamento completo (psico, nutri, etc.) para indicar em SP?

    Obrigada!

  2. Thays Pereira Neves

    Perfeito! O difícil é quando você vai falar sobre isso numa sala de pós graduação e todos os nutricionistas te julgam como um Nutri ruim, pois você procura pensar no paciente. O foco tem que ser a saúde física e emocional e não apenas resultados em números.

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