História de Ana Paula

Este é um trabalho lindo da fotógrafa Karla Vizone, do Coletivo Yellow aqui de Curitiba.

Achei o ensaio muito bonito, e mais ainda as palavras da modelo Ana Paula.

Relato digno de estar aqui no NSE ❤

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“Aviso importante! Se por quaisquer motivos (principalmente por parentesco) minha nudez for desconfortável para você, não clique. 

Segue meu relato sobre o ocorrido:

Pois bem, conversando com uma amiga comentei minha vontade de fazer um ensaio fotográfico, e em forma de escambo, o Universo me presenteou com este. 

Assim, pá pum. Da noite pro dia. Não contente, ele (o Universo) ainda me permitiu ser fotografada em casa, já que assim eu me sentiria mais a vontade. E depois na casa da tal amiga, que tem um banheiro simplesmente sensacional. A fotógrafa nunca havia fotografado um nu e eu, nunca posado, de roupa ou sem. Abrindo exceção pras fotografias do colégio que tinha produção e figurino, serviam de presente pros pais. 

Decidi que, mais que compartilhar o ensaio, seria um bom momento pra compartilhar algo bem mais intenso e só meu. 

Fui uma criança magrela. Passei a engordar com uns 8/9, com 12 já era uma bolota. Passei a ir a nutricionistas. Fiz e desfiz dietas. Comi latas de ervilha e milho vendo sessão da tarde. Comi até sentir dor várias vezes na infância e adolescência. Não consegui comer direito e pior, era totalmente descontrolada com comida. Arroz, feijão, chocolate, trakinas, coca-cola, carne, enlatados, cachorro-quente, pizza. Gostava de inverno porque as roupas cobriam meu corpo gordo e feio. Ah, esqueci. Tive minhas primeiras estrias aos 10 anos. Chorei sozinha no banheiro quando vi minhas coxas cheias de marcas roxas (estrias “novas” são roxas).. e eu não sabia direito o que me entristecia.

Emagreci, engordei. Emagreci de novo, tive uma decepção amorosa, engordei. Larguei as dietas, passei a fazer terapia, comecei a andar nua em casa. Comecei a perceber o tamanho da minha barriga e quanto ela era ruim de carregar. Via-me cansada, por vezes. Sentia-me sem condicionamento. Contava calorias, mesmo sem fazer dieta, de tudo quanto era coisa que eu colocasse na boca. Aprendi a ler rótulos dos alimentos. Passei a me olhar todo tempo que podia nua no espelho. Adquiri o hábito de passar creme hidratante bem devagarzinho, olhando cada pedacinho meu. O dedão gordo, os seios de tamanho nitidamente diferentes; as estrias que hoje são brancas, mas além das coxas deram marcas a minha barriga, quadril e seios.

Sentia vergonha na academia, por ficar muito ruborizada, meus cabelos cacheados ficavam muito arrepiados com o excesso de suor. Abandonei a academia, mesmo perdendo peso. 
Demorei quase que toda minha existência, e dou graças que o florescimento me ocorreu ainda jovem, pra me sentir bela. E isso sim não foi da noite pro dia. E não foi sem dor.

Achava que meu amor da vida não vinha por causa disso. Final de ano era sinônimo de terror, porque não há biquíni que fizesse eu me sentir uma pessoa apenas normal, na praia. Eu via em mim uma imagem esquisita, barriguda, toda estranha. Uma imagem distorcida do meu eu real. 

Porém não julgo essa minha maior conquista. E olha, foram muitas. Aprendi o que é comer bem, fui altamente instruída, lia mil coisas sobre o assunto. Desse jeito, aprendi a não ter culpa, a discernir… aceitar e amar tudo que eu como, cozinho, escolho. 

A maior das conquistas mesmo, é olhar meu corpo e ver amor, não mais marcas ou imperfeições. Estes são naturais, me fazem viva, cheia de história, e não por isso, menos bela. E sim, um ser transformando-se no tempo. Num templo sagrado materializado em corpo físico.

Minha tatuagem de chicletes na cintura, minha forma não tão violão, meu cabelo disforme, meu lábio meio torto, meu nariz indicando para a esquerda… por quanto tempo eu não os amei. Por quanto tempo meus olhos não se sentiam agradecidos por vê-los. 

Não foi tão natural assim posar sem roupa, uma coisa é ficar pelada sozinha, com amigas, com um companheiro. Em contrapartida, terminado o trabalho, a experiência de olhar meu corpo e suas variáveis, minhas marcas, meus traumas, minha sensualidade e poder mostrar livremente como sou real e linda através dos olhos de um outro ser… tremendamente sensacional. Meu coração vibrou pela consciência do amor próprio, eu, mestre, deusa. 

E pela glória de, mesmo sendo criada e vivenciando os frutos de um coletivo elitista, segregador, destrutivo e machista, eu poder desabrochar meu feminino sagrado e ser eu mesma, feliz.

Ao Universo, gratidão por esse compartilhar. E por quem dividiu ele comigo! 

‘Sagrada presença feminina que me ama e faz amar. Curvo-me diante de ti para minha vida lhe ofertar. Assim como o fizestes por mim através de minha mãe quando nasci. Renasço agora em teu seio, do sagrado feminino, onipresente e onisciente, para o amor multiplicar. Pois teus são os meus dias, teu és o meu sangue e o meu suor. Sei que estás em tudo e a ti prometo o meu amor amando a tudo que criastes.’ “

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São duras as marcas das dificuldades que vivemos, mas podemos criar uma nova história, acolher cada marca e cada transformação…e sentir verdadeiramente que o nosso corpo é bom, bonito e válido.Temos todo o direito de estar no mundo e aproveitar  as experiências que a vida oferece.

Bravo, Ana Paula!

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