Vai vendo.

Recebi esta contribuição da leitora Aline Xavier.

“Vai vendo”, de Lucas Lucco

Dei o play e … SOFRI T.T

Você achou que eu ia sofrer
Mas eu tinha meu plano B, sabe de nada
A minha agenda tava disfarçada
Lugar de Homem era Mulher
Restaurante era cabaré, sabe de nada, foi enganada

Comprou essa ilusão
Achou que eu ia me afundar na solidão

Esse arrocha é pra você
Que achou que eu tava aqui sofrendo
Uh! Vai vendo uh

Eu tô solto na balada
Aqui o coro tá comendo
Uh! Vai vendo uh

Enquanto você tá em casa
Eu to aqui no bar bebendo
Uh! Vai vendo uh!

Postando foto com as gatas
Pra você ficar sabendo
Vai vendo, Vai vendo!

 

Machismo, gordofobia, objetificação de seres humanos: é um combo!

Eu sou jovem como os participantes do videoclipe e confesso que me senti insultada. Não tanto na minha inteligência, mas sim na minha humanidade. Será possível que eu deveria achar legal desprezar pretendentes gordos, agredi-los verbalmente e até fisicamente, lançando-os os chocolates e flores que me trouxerem? Não sei aonde essas pessoas foram criadas, mas a atitude das moças do vídeo se chama crueldade.

Ninguém tem obrigação de corresponder a paixão de ninguém, mas recusar uma investida de maneira agressiva e ferindo os sentimentos do outro é, no mínimo, desnecessário.

(Qual a necessidade de pisotear corações?)

Primeiramente, por ser mulher e jovem, não gostei de ser representada como uma interesseira sem coração que só dá abertura para caras sarados… Não gostaria que as coisas fossem assim. Será que são? Será que a arte imita a vida e eu tenho saído muito pouco de casa? Será que estou errada em ter um pingo de fé na boa índole das pessoas?

Também não gosto do gênero ser chamado de ‘Sertanejo Universitário’, sendo que a universidade é um ambiente para cultivar os mais nobres frutos do saber humano e formar cidadãos críticos e questionadores. E a indústria cultural nos afoga com peças musicais machistas e objetificantes onde tudo acontece na balada, onde todo mundo só quer beber e provocar recalque nos outros (bom se estivéssemos dispostos a discutir o conceito de “recalque” dentro do campo da psicanálise. Mas não. É ‘recalque’ como neologismo bobo para “inveja”, mesmo)

(Hum… parece muito acadêmico)

Então o clipe continua e o rapaz toma uma estranha poção milagrosa (Ah! A mística contemporânea dos resultados imediatos...) e emagrece de um momento para o outro e então… ele vira alguém.

Porque claro, antes ele não era ninguém. Porque os gordos são criaturas assexuadas e indesejáveis que só existem para a gente dar risada da miséria deles.

Só que… ele vira alguém que passa a agir 100% voltado para uma outra pessoa, que é o alvo da canção. Aparentemente uma ex-namorada ou uma ex-alguma coisa (os relacionamentos interpessoais andam muito moderninhos eu não entendo disso direito).

Ele não traça as minas porque quer. Ele não está no bar bebendo porque quer. Ele está fazendo tudo isso porque quer ser visto por alguém que, supostamente, não importa nada para ele.

“Este arrocha é para você, que significa tão pouco para mim que tudo o que eu faço é com base na sua reação.”

Então vai vendo!

Como medimos o valor das pessoas pela aparência delas.

Como espetacularizamos nossas falsas rotinas nas redes sociais.

Como enaltecemos e aplaudimos comportamentos como enganar so outros e transformar pessoas em objetos de consumo.

Como achamos que é OK maltratar gordos.

Como a apreciação do outro importa mais do que o nosso bem estar ou a nossa autenticidade.

Como na sociedade do espetáculo transformamos o outro numa mera imagem que passa, assim como nós. E por isso ninguém significa nada para ninguém.

Como os relacionamentos humanos estão superficiais e efêmeros.

Como comportamentos autodestrutivos são interpretados como diversão.

Como não há um único fator positivo, educativo ou edificante no jogo de situações apresentado pelo clipe.

 

 

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4 ideias sobre “Vai vendo.

  1. Gustavo

    Ninguém merece isso… Acabei de sair de um relacionamento que gostava muito e nem por isso acho que devo sair esnobando ela como esse pessoal aí faz. Nojo desse cara…

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