Um filhote de passarinho

Quero comentar sobre uma experiência pessoal que me pareceu interessante.

Há pouco tempo eu estou praticando pugilismo, isto é, boxe. Eu estou achando super legal porque é uma experiência verdadeiramente quebradora de paradigmas e que promove o autodescobrimento.

kawaii boxe

(Garotinha sentada no playground, cansada de ser provocada por todos e ser empurrada. Desejando ser invisível para eles. Ela correu para casa chorando “por que me odeiam?”. E a mamãe limpou suas lágrimas e disse: – Baby você é valente e bonita. Então levante a cabeça e não deixe que eles apaguem a luz dos teus olhos. AME-SE e infernize-os. Você pode conquistar o mundo. Então fique firme e forte e lute como uma garota)

Como eu sou mulher, sempre me ensinaram a ser gentil, cordata, ceder a vez, ser delicada, ser humilde. Ao fato de ser mulher somem-se 20 anos de ballet clássico (que eu não parei, mas é sempre bom descobrir coisas novas)… Então eu aprendi a fazer atividade física de uma maneira sempre muito controlada, porque cada movimento deve evocar a perfeição. Não é incomum nos ensinarem que cada momento é uma fotografia. Não são permitidos defeitos nem na transição entre um passo e outro, e essa é, na verdade, a parte mais difícil da dança clássica.

(A parte difícil é o processo)

A educação do meu corpo para o ballet me desencadeou um processo de auto-objetificação muito intenso, ou seja, quando eu faço atividade física eu tenho dificuldade de viver o momento em primeira pessoa e eu me sinto observada de fora. É como se o olhar dos professores, dos jurados ou da plateia se convertesse no meu olhar. E ao invés de focar no movimento, você passa a pensar no aspecto do corpo fazendo o movimento. Pois é. Isso é complicado.

É mais ou menos como quando estamos andando na rua e nos sentimos observadas o tempo todo por um grande olhar que vem de fora então ao invés de apreciar a paisagem e sorrir para as pessoas, ficamos pensando no nosso cabelo, na nossa roupa e em como será que nós ficamos quando estamos de costasTem até gente por aí treinando maneiras de ficar bem na foto de acordo com o tipo físico.

Sempre recomendo que as pessoas façam atividade física, e o façam por prazer… Mas como lidar quando sentimos vergonha de movimentar o nosso corpo em público, porque nos preocupamos em não fazer feio?

E se além de ter vergonha do corpo, temos vergonha de fazer esse corpo mexer? Você já se sentiu “engessad@” na hora de realizar atividade física?

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(Você já se sentiu observad@?)

Estamos vivendo numa sociedade obcecada pelo “selfie”, pela boa aparência, pelo belo e pela imagem acima de tudo. Mas e o que acontece quando o movimento “estraga” a nossa imagem?

Eu não tenho vergonha do meu corpinho e sou bem resolvida com a minha aparência, mas sou obcecada por movimentos “limpos” e bem controlados. Pensando bem, uma bailarina lutando boxe é um tema engraçado.

Pois então: lutar não é bonito, lutar não é delicado, lutar não é ensaiado, lutar não valoriza as linhas do corpo, lutar não é impecavelmente estético.

AULA(6~1

(euzinha, quando não estou lutando boxe)

O professor passou uma sequência de polichinelos seguida de flexões e lá estava eu tentando fazer o meu atropelo ficar harmônico. Senti vergonha.

Então o reloginho na parede deu um apito de descanso até o próximo round, eu olhei no espelho…e uma versão minha vermelha, suada e descabelada me contemplou de volta. Voilá! Um filhote de passarinho.

Fotos-filhotes-Calopsita

Temos um intervalo de 1 minuto e eu fiquei olhando para a minha imagem. Não era glorioso. Não era bonito.

Mas ei! Eu não preciso ficar com vergonha porque corpos suam, quando a gente sua, ficamos vermelhos e quando nos movimentamos os cabelos ficam bagunçados. E qual o mal em ser um filhote de passarinho? Eu não estava lá para ser atraente, nem para agradar os olhos de ninguém.

Então o apito soou novamente para mais um round e eu decidi deixar o espelho de lado. E o ballet também. Tentei tirar o olhar de fora de mim e viver em primeira pessoa as sequências de movimentos que o professor estava pedindo.

Eu sou iniciante, então eu sou uma droga.

Mas quer saber? Não tem problema.

Precisamos resgatar nossos corpos dessa areia movediça. Precisamos respirar, movimentar, suar, esculhambar sem pedir licença e sem medo de ser feliz!

E foi o que eu fiz.

Se você tem planos de começar uma nova atividade física mas acha que não vai ficar bonit@ nela, seja um filhote de passarinho e mande a insegurança pros diabos. Ninguém pagou ingresso para te ver nadar, correr, lutar, jogar…

Por um mundo com mais espontaneidade e menos pau de selfie!

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9 ideias sobre “Um filhote de passarinho

  1. Amanda Marques

    Eu também fiz m-u-i-t-o-s anos de ballet e sou descoordenada para atividades que exigem um certo “molejo”. Fora que você se acostuma com aquele coque sempre perfeito e soltar o cabelo e deixa-lo ser bagunçado pelo vento/movimento é meio desesperador.
    Mas pra 2015 o que eu mais quero é aprender/internalizar é que: tudo bem errar as vezes, tudo bem não ser perfeita. Não pode é se preocupar tanto com que os outros pensam ou vão pensar e deixar de tentar, de viver.

  2. A.

    Quando eu fazia muay thai (sdds, treino) teve uma vez que o professor nos colocou pra lutar contra ele e sabe como ele “atacava” a gente? Bagunçava nossos cabelos. Eu, como sou muito normal, nem conseguia me mexer de tanto que ria. Teve gente que levou a sério e lembro de uma que gritou “estou parecendo uma louca!” e continuou lutando. 😀

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