Botijões e Pamonhas

Sou a autora desta página chamada “Não Sou Exposição”, isso significa que eu tenho a audácia de acreditar que eu não sou um objeto decorativo para o planeta, mas sim uma pessoa com qualidades e potencialidades.

Então, claro, fiquei abismada diante de uma população de adultos bem informados e vacinados comparando figuras públicas com botijões e pamonhas… e se deleitando com isso.

Dilma Rousseff tem 67 anos e é presidente do Brasil, Marcela Temer é mulher do vice e Kátia Abreu é ministra da agricultura.

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“Dilma feia, Marcela bonita”, “Dilma Gorda”, “Dilma vovozinha” (ela é avó, de fato), “Marcela vestida de Frozen”, “Kátia Pamonha”… Este frenesi sobre como as mulheres são ou deveriam ser no cenário político brasileiro me levou à aurora da minha vida, ao Jardim de Infância e eu pude escutar novamente os vívidos coros infantis:

Exibida, colorida, come casca de ferida!

Gorda, baleia, saco de areia!

Nós tínhamos quatro anos. Comparar coleguinhas com sacos de areia era o máximo.

Pois então eu afirmei no Facebook que criticar a aparência da chefe de estado é criancice e eis que recebo um “dá um tempo”

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da um tempo

(Alguém avisa que a Dilma é presidente do Brasil e a Madonna é artista Pop)

Dá um tempo. Até gostamos do seu trabalho, mas também queremos o prazer de xingar algumas mulheres de feias, principalmente aquelas que achamos incompetentes. Porque por alguma razão relacionamos competência com desejabilidade. Talvez a razão seja machismo.

Fico observando a foto abaixo e me pergunto se ALGUÉM tem ALGO a dizer sobre os 17 nobres cidadãos que circundam as mulheres (que são minoria) na foto, ou a imagem não nos diz nada sobre como a sociedade funciona e vamos apenas escancarar nossas bocas cheias de dentes pra gargalhar e dizer “quá quá quá, um botijão e uma pamonha!!”

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Eu acabei de terminar a graduação e estou me encaminhando para mestrado, pois sonho com a vida acadêmica. Mais do que isso, sonho com o dia em que poderei dar palestras, aulas ou participar de congressos sem que a minha aparência seja uma barreira. Porque funciona assim: primeiro todo mundo repara nas minhas roupas, no meu cabelo, nos meus sapatos, se eu sou gorda ou se eu sou magra… DEPOIS decide se dará um pingo de atenção para o que eu tenho a dizer. E isso faz parte de ter nascido mulher. Então “dá um tempo”, porque escrutínio em cima da aparência das pessoas é muito legal, certo?

Sinceramente? Dá um tempo, Brasil! Como nação, estamos nos comportando como crianças e, para completar o combo, estamos sendo machistas. Aqui na minha cidade se diz que isso é coisa de piá de prédio (“piá” significa menino, garoto.)

Então que você acha oh tão importante discutir sobre os trajes e os corpos das mulheres da posse, largue mão de ser piá de prédio, preste atenção no marmanjão que você é e na responsabilidade social que você tem. Mesmo que você seja mulher. Tá fazendo um papelão do mesmo jeito!

Não é culpa de ninguém se você não teve a chance de chamar um amiguinho de “saco de areia” na pré-escola. O prezinho acabou. Esta é a vida real.

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6 ideias sobre “Botijões e Pamonhas

  1. Sandra Tieppo

    Estou atrasada na leitura dos seus posts (estava de férias), mas quero dizer que adorei o texto. Também fiquei chocada com a quantidade de mulheres falando da roupa da presidente. Concorde eu ou não com as atitudes e resoluções tomadas por ela, não é sua vestimenta que define isso. O mais irritante, como você mencionou, é que nada falaram dos homens… Belo texto!

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