Viking ou vítima!

Sei que prometi analisar alguns Memes Fitness aqui no Blog, mas antes, pausa na programação:

Ontem aconteceu uma discussão acalorada na minha Fanpage entre um rapaz e várias leitoras.

Tudo começou quando eu postei essa imagem, porque eu achei a colocação muito desnecessária e desagradável:

gravida

Diante do meu questionamento, um rapaz fez um comentário dizendo que

“se isso é suficiente pra abalar sua auto-estima, tá na hora de se mancar, deixar de mimimi e procurar o que fazer.”

A discussão foi longe porque várias pessoas tentaram explicar para o moço que não é legal tratar os sentimentos alheios como MIMIMI.

Até eu tentei. Comentei uma ou duas vezes, mas eventualmente desisti porque aquela mente estava fortemente fechada na questão.

O rapaz disse que acredita que no mundo existem vencedores e perdedores e que “não passar a mão na cabeça” nos perdedores é um ato misericordioso que eventualmente os transformará em vencedores. Portanto, nada de compaixão!

Eu não gosto de infindáveis discussões no Facebook e muito rapidamente desisto por motivos de ser um nada que leva ao nada.

Mas quero falar sobre isso aqui no Blog porque TALVEZ alguém se dê o trabalho de LER e refletir sobre a tristeza que é não ter empatia. Não se colocar no lugar do outro. Não tentar entender os sentimentos alheios… Não entender que existe vida além da nossa percepção e do nosso umbigo.

(existe VIDA além do “é minha opinião”…)

A pluralidade de histórias de vida que existe é muito grande. Por essa razão, existem inúmeras percepções e diferentes pontos de vista a partir de um mesmo episódio. Se o fato não te provoca reações da mesma maneira que provocou no vizinho… Não significa que o outro está mentindo. Ou de frescura. Significa que você possui um repertório de interpretação diferente do do coleguinha.

Pois bem. Pode parecer inacreditável para um homem que mulheres se sintam inadequadas e tristes por um comentário bobo num site ou numa revista (exemplo: “tal celebridade é mais magra e mais elegante do que você”)… mas acontece. E eu conheço, inclusive, garotas que se sentiriam tristes por causa disso.

Porque quando você é uma mulher, te ensinam que o seu valor como pessoa está diretamente atrelado à aparência. Não há outras chances. Não podemos apostar no intelecto, irreverência, criatividade… Nada disso. Seja magra e linda. Ou morra tentando.

Por isso a questão é séria e, nem de longe, pode ser encarada como simples “mimimi”.

A dicotomia ganhar ou perder é triste porque fornece possibilidades muito reduzidas de papéis a serem vividos na sociedade. Você é FORTE ou FRACO. E nada mais pode ocorrer além disso.

Essa é uma das máscaras que usamos como proteção contra a vulnerabilidade: não admitir fragilidade.

A autora Brené Brown explica o mecanismo muito bem seu livro “A Coragem de Ser Imperfeito”, em trecho que transcrevo aqui:

O escudo viking ou vítima

Reconheci esta peça da armadura quando um grupo significativo de participantes da pesquisa sinalizou que não via utilidade no conceito de vulnerabilidade. Suas respostas para a ideia de que a vulnerabilidade podia ter algum valor foram indiferentes, desdenhosas e até hostis. O que apareceu nessas entrevistas e interações foi uma lente sobre o mundo que via as pessoas divididas basicamente em dois grupos, que chamo de vikings ou vítimas.

Diferentemente de alguns participantes que tinham uma opinião intelectual ou teórica sobre o tema da vulnerabilidade, esses entrevistados compartilhavam a crença de que todo mundo, sem exceção, pertence a um dos dois grupos mutuamente exclusivos: ou se é uma vítima da vida – um tolo que está sempre sendo passado pra trás e não consegue se impor –, ou se é um viking – alguém que enxerga a vitimização como uma ameaça constante e, portanto, se mantém no controle, domina, exerce poder sobre as coisas e nunca demonstra vulnerabilidade.

Enquanto eu organizava os dados dessas entrevistas, pensei no capítulo da minha dissertação sobre o filósofo francês Jacques Derrida e a oposição binária (termos relacionados que têm significados opostos). Ainda que os participantes não tenham usado os mesmos exemplos, um padrão consistente de pares de opostos emergiu da linguagem que empregaram para descrever suas visões de mundo: vencedor ou perdedor, sobreviver ou morrer, matar ou ser morto,  fortes ou fracos, líderes ou seguidores, sucesso ou fracasso, esmagar ou ser esmagado.

(…) A armadura viking ou vítima não somente perpetua comportamentos de dominação, controle e poder naqueles que se enxergam como vikings, mas pode estimular um sentimento progressivo de vitimização naqueles que acreditam que estão sendo alvos de ataque ou tratados de forma injusta. Com essas lentes só há dois posicionamentos possíveis: exercer poder sobre algo ou alguém ou se sentir impotente. Nas entrevistas ouvi muitos participantes parecerem resignados a serem vítimas simplesmente porque não quiseram se tornar a única alternativa na opinião deles: vikings. Reduzir nossas opções de vida a papéis tão limitados e extremos deixa muito pouca esperança para transformação e mudança significativa.

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3 ideias sobre “Viking ou vítima!

  1. Thais

    Pesquisas afirmam que o viking de hoje tem 200% de chance de ser, amanhã, o modelo exato e perfeito de vítima que ele tanto repele.

    E ainda digo mais: emagrecer para O CARA, e para PASSAR NA CARA DAZINIMIGA é uma atitude de quem quer ser viking em cima de pessoas que deveriam ser queridas, tipo o amor da sua vida e pessoas que tem tudo para serem suas amigas. Não seja uma bitch com seu boy, nem com as suas amigas.

  2. Cecília Jácome

    Muito bom! Acompanhei a discussão no Facebook e é como sempre falo: O mundo é ruim do jeito que é porque as pessoas não possuem a capacidade de se colocarem no lugar das outras. Porque mais fácil do que sentir compaixão, é apontar o dedo e dizer: “Nossa fulano, para de se fazer de vítima e vê se aprende a viver!” E isso funciona pra qualquer aspecto na vida. Não encontramos compaixão em cada esquina, mas encontramos julgamento em cada casa, a cada passo que se dá na rua. E as pessoas não sabem o efeito que certas palavras causam na vida de outras. E não procuram saber… simplesmente não é da conta delas. Triste.

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