Corpo público, corpo controlado

Um texto enviado por uma colega nutricionista. Reflexão muito interessante. Vale a leitura:

“Não é um fenômeno recente a supervalorização atribuída à aparência corporal. Entretanto, observo que há algum tempo o culto ao corpo vem tomando um caráter de supervalorização nas relações sociais e nos desejos íntimos de cada pessoa. As redes sociais transbordam páginas relacionadas ao culto ao corpo da moda: blogs fitness, gastronomia fitness, celebridades fitness, moda fitness – ou qualquer outra modalidade que possa encaixar a palavra fitness. Afinal, ser fitness é mainstream! Em meu ciclo de amizade, percebo uma adoração aos corpos musculosos e definidos: amigxs que curtem celebridade/modelos ou tentam mostrar seu corpo dentro desta lógica.

Esses corpos, tão públicos, tornam-se meios para a venda de técnicas de cuidado e gerenciamento do corpo (suplementos, equipamentos esportivos, dietas da moda, tratamentos estéticos, marcas e estilos de roupa, entre outros). E ainda nos permite uma intervenção coletiva sobre os mesmos, por serem alvos de uma atenção redobrada por parte da sociedade: com um simples clique no botão “comentar” podemos então expor nossas exigências, sugerir mudanças (dar palpites na vida alheia) e ainda acompanhar a mudança (nooossa! quão poderosos, hein?).

Não somos poderosos! Muito me preocupa essa nova lógica de intervenção sobre os corpos alheios. Percebo uma construção de ideário coletivo de que “todos os corpos são públicos, e, portanto, passiveis de comentário”; e nesta lógica, acabamos reproduzindo essa repressão sobre os corpos conhecidos (familiares, amigxs, affair, e até mesmo pessoas que pouco se conhece).

Vejo isto como uma tentativa de estabelecer um controle social dos corpos alheios, tentando disciplinar os diferentes corpos para se encaixar em um padrão hegemônico. Percebem o quanto isto é prejudicial? Excluímos a diversidade e se tenta propagar padrões de uma sociedade machista, lipofóbica, narcisista e consumista: o corpo magro, e atualmente com muita definição muscular (não irei abordar outros aspectos amplos desse padrão adoecido de beleza feminina). E ainda, ditar regras de comportamento: frequentar academia, tomar suplementos (mesmo que não precise, afinal como terei a bunda da Gracyanne Barbosa sem tomar aquele suplemento?!); consumir uma dieta hiperproteica, sem glúten, sem lactose, sem açúcar, sem lipídeos, low carb (uma água hiperproteica com gás, por favor? Ah, acrescenta umas goji berry o, estou precisando de um pouco de antioxidantes).

E eu: nutricionista, índice de massa corporal 18, em um corpo “esbelto” (entendam como quiser), sempre tive a compreensão do meu corpo como meu meio de interação com o mundo, por onde eu sinto, me expresso e socializo. Entretanto, este mesmo corpo é controlado por forças ocultas vocalizadas por pessoas conhecidas, me fazendo (re)pensar minha forma de lidar com meu corpo.

Constantemente sou cobrada para “não embarangar”, para engordar mais uns 2 ou 3 quilinhos, para engrossas as pernas, para aumentar a bunda, para não engordar, para definir a barriga, para ser inteligente, para ser bem sucedida, para arrumar um namorado, para cuidar bem da minha casa, para, para, para (AaaaH, stop!). Cobranças realizadas na sutilezas do dia a dia em comentários de controle social: M. você precisar tomar um suplemento para engrossas essas perninhas; tem que começar a pegar mais pesado na musculação; essas “bordinhas de catupiry” ai? Precisa fazer mais abdominais.

 Sabe o não embarangar? Podemos dizer que passei por uma “digievolução”: o corpo “esbelto” outrora foi classificado como sobrepeso – e desde sempre controlado. E atualmente vivo em uma briga constante com meu corpo, e embora seja uma nutricionista tenho uma relação de temperanças com minha a alimentação: manter um equilíbrio entre o prazer à disciplina alimentar para fazer meu corpo ficar bonito – afinal, o padrão de beleza só é alcançado através de esforços, de um autocontrole do corpo, de uma educação cuidadosa e de certa predisposição para a tortura.

Percebam então minha tortura: Adoro a comida baiana, me rendo fácil ao dendê. Mas sair com as amigxs para comer um simples acarajé se torna um sacrifício. Uma neurose em contabilizar 2000 calorias (em uma pura delicia, devo confessar) mas que não deveriam fazer parte da minha dieta (desta forma, concentrada em um único alimento). E logo, um momento, que deveria ser de prazer e de confraternização, acaba virando um extremo desconforto. Fugir da minha “disciplina”, significa a necessidade de me reajustar o mais rápido quanto possível aumentando minha atividade física, correndo loucamente na esteira (um processo quase patológico).

Por que tudo isso? Um certo affair um vez me disse que meu corpo era muito bonito pois eu tinha uma “barriga que não dobra quando eu sento”. Um certo amigo me disse “você é bonita, mas precisa engrossas essas pernas”. Minha avó, família e amigxs me cobram a bunda grande de antes (aquela do sobrepeso). Afinal, por que eu preciso ter uma bunda grande? you know what to do with that big fat butt (#sqn, #nemvem!).

Por que tudo isso? Por que meu corpo é considerado meu cartão profissional, determina o quão interessante eu sou, o quão atraente, o quão sedutora, o quão elegante (afinal, nenhuma roupa fica feia quando você é magra!), o quão bem sucedidas, e diversas outras formas de preconceitos alheios que ainda não percebi.

E para concluir: de fato, tudo isto é muito trágico: toda essa supervalorização do corpo, essa sedução das aparências e os exageros da ditadura da beleza. Essa lipofobia que agrega a magreza como via para atender às expectativas sociais construídas sobre a lógica do controle-estimulação. Todas essa repressão sobre todos os corpos, expressas em comentários sutis, as vezes, não percebidos e com profundo poder de determinar as nossa visão sobre nosso corpo.”

Anúncios

4 ideias sobre “Corpo público, corpo controlado

  1. Marta Mirela

    Paco….eu te amo te amo te amo…..quando vc diz : “filho,chora ” pra macho alfa….eu te amo taaanto 🐧Feliz Natal !

  2. Patrícia

    😦 Isso é tão verdade e tão triste … Me MATA ver aquele bando enorme de adolescentes, na saída da escola, em pleno sol do meio dia, calorão, usando mangas longas (bermuda, nem pensar!) ESCONDENDO o corpo! Que tragédia nos fizemos a nós mesmos supervalorizando a aparência, tentando (e conseguindo 99,9% das vezes) enfiar o corpo num molde “aceitável”, desprezando genética, etnia, tipos físicos, desprezando o ser e supervalorizando ELE, o soberano, O corpo. E a “eterna juventude”, então?? Iiiih …. Nem dá prá começar a falar. A gente, nós que temos o mínimo de consciência, devemos JÁ começar a treinar o olhar para ver beleza no gordo, no velho, no assimétrico, no manchado, no estriado, sim!, no flácido, no albino, whatever … Não somos corpos, isso já foi dito (e não custa repetir) somos espíritos vivendo em corpos. Beijo!

  3. Amanda Marques

    Antes as pessoas se contentavam em se meter só na vida dos outros, mas não era o bastante né? Tem que se meter na alimentação e no corpo também.
    Parece que tem o prazer em magoar os outros, espero que consigamos mudar essa realidade um dia.

  4. Carol

    É bem isso mesmo. Um ex-namorado (na minha época de IMC 18) sugeriu que eu deveria malhar as pernas (a “desproporção” era muito grande em relação aos quadris e às coxas). Hj, 13 anos e 20kg depois, com as pernas já grossas (e os quadris e coxas mais ainda), resolvi cismar com meus bracinhos roliços. Qto a isso, ninguém nunca me disse nada, eu é que comecei a ficar obcecada com aqueles braços torneados de quem faz pilates.

Os comentários estão desativados.