História de Viviane

Recebi um depoimento belíssimo da leitora Viviane Maurício. Fiquei muito comovida e muito recomendo a leitura:

Viviane

 

“Resolvi escrever esse depoimento, pois creio que as minhas experiências podem ajudar outras pessoas que estejam passando pelo que passei.

Quando se é uma criança gorda, todo mundo te acha uma fofura e a coisa mais linda do mundo, mas ai você cresce um pouquinho e a fofura se transforma em repúdio
Por volta dos oito anos foi quando comecei a sofrer os primeiros ataques ofensivos na escola, até então não entendia o porquê de me chamarem de gorda e me ridicularizarem, afinal éramos todos  colegas de turma e nos divertíamos juntos no recreio. Depois de um tempo me sentindo minimizada com as ofensas entendi que o meu corpo era motivo de chacota porque era diferente do corpo dos demais, mas eu não via problema algum nisso, não via nada de errado no meu corpo.

Foi na entrada da adolescência que tudo piorou. Todas as minhas amigas eram magras e de cabelos bem lisinhos, e eu era diferente, meu cabelo estava começando a enrolar e continuava gorda. Não havia como ser diferente, a família toda pelo lado da minha mãe é composta por pessoas gordas e todos tem aquele cabelo Black divino. Minha genética era diferente, e isso se tornou um problema, não deveria de modo algum, mas se tornou.

Não podia nem me vestir como elas porque as roupas eram padronizadas num tamanho só, o para magras, gordas deveriam usar moletons e se esconder. Nem trocar roupas com elas podia, as roupas delas jamais caberiam em mim. Eu queria entrar na roupa delas, não ser do tamanho que a roupa exigia me fazia sofrer.

As piadinhas com o meu cabelo e meu peso se tornaram frequentes e eu não sabia como lidar com tudo isso. A única maneira que encontrei foi me fechar dentro de mim mesma.

Sempre fui boa aluna, tirava as melhores notas em tudo, fazia amizades com facilidade, meus pais me amavam, eu era o orgulho deles, uma filha exemplar, mas pra mim isso não era o suficiente, não me sentia completa. Estar fora dos padrões me fazia mal, não me deixava ser feliz. Foi então que comecei a fazer todos os tipos de regimes e dietas que eu sabia que existiam e a fazer chapinha constantemente e prender o cabelo com um coque pra que ninguém o visse.

Sempre gostei de dançar. Toda vez que o grupo de dança da igreja marcava ensaios, lá estava eu, dançar é um dos meus prazeres. Jamais alguém ali me olhou diferente por eu ser gorda e estar dançando, mas eu já estava tão consumida pelo ódio ao meu corpo que não me sentia bem dançando ao lado daquelas meninas magrinhas e lindas.

Com uns 13 anos deixava de comer o que gostava porque estava gorda, e ser gorda era inadmissível, falta de vergonha na cara, era nojento e feio. Fazia apenas uma refeição por dia, ou nem comia. Só que minhas dietas nunca resultavam em nada, nunca aguentei mais de 10 dias, sempre desistia e engordava tudo de novo, me sentia uma fracassada por isso.

Aos 14 anos, ouvi minha mãe dizer: “filha quando que você vai emagrecer e ficar bonita como as meninas da sua idade?”. Aquilo acabou comigo, me desmoronou, não culpo minha mãe pelo que me disse, ela não sabia que aquilo poderia me destruir, ela também foi encurralada por uma ditadura de magreza. 

Me senti a pior pessoa do mundo, me olhava no espelho com desprezo e só conseguia ver uma fracassada gorda que não servia pra nada e não merecia amor de ninguém. Resolvi então que tinha que emagrecer a qualquer custo, mas sabia que os regimes não iam funcionar, optei então por comer e vomitar. Fiz isso umas três vezes, só parei porque passei muito mal na terceira vez. Mais uma vez estava eu me sentindo uma fracassada. Hoje agradeço muito a Deus por ter passado mal, se eu tivesse ido adiante com o que estava fazendo, provavelmente hoje sofreria gravemente de bulimia.

 A pior parte de se sentir inferior é não conseguir desabafar com ninguém. É não encontrar um apoio que precisa dentro de casa. Ninguém sabia como eu me odiava como era infeliz, e não fazia questão que alguém soubesse. Ser infeliz era culpa minha, era gorda porque era preguiçosa.

Eu nunca entendi e jamais entenderei o preconceito das pessoas com aquilo que é diferente. Por que ser gorda era um problema? Por que meu cabelo incomodava? O que eu fiz de errado pra não ser aceita?

Então comecei a ouvir muito que precisava emagrecer, pois ser gorda não era saudável. Hoje tenho NOJO desse discurso gordofóbico disfarçado de preocupação com a saúde. Vejo que ninguém tava ai pra minha saúde, só não queriam olhar pra uma adolescente fora dos padrões.

Logo que completei 15 anos comecei a trabalhar. Vi ali uma oportunidade de me sentir útil.

Depois de uma semana trabalhando, minha patroa me disse que precisava ter uma conversa comigo, fiquei com certo medo, mas fui falar com ela. 

Ela me disse que sentia em mim um ar de insegurança, uma timidez e falta de alegria. Conforme ela ia falando, eu via aquela mulher descrevendo realmente como eu estava. Ela me encheu de elogios, me disse que eu não devia me sentir insegura para atender aos clientes, não deveria ter insegurança com a minha aparência. Disse-me que eu era linda e que ser gorda não é nenhum defeito, que meu cabelo não precisava ser escondido. Uma semana de convivência e ela entendeu a minha vida inteira.

Foi ai que tudo mudou e o primeiro passo pra construção da minha auto estima foi dado naquela conversa.

Sou cristã, pedi a Deus que me ensinasse a me amar, Jesus disse que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos, como eu iria amar o meu próximo se não me amava?
Soltei o cabelo, deixei meus cachos livres e comecei a cuidar deles. Olhar para o espelho já não era mais um problema e sim um prazer. Aos poucos o amor próprio começou a brotar em mim, me amar era minha prioridade, me sentir bem e feliz exatamente como eu sou se tornou meu alvo.

Não foi simples assim, tive recaídas, desejos incontroláveis de ser como as mulheres das revistas e de deixar de ser gorda. A aceitação foi árdua, mas foi à melhor coisa que fiz por mim mesma. 

Hoje tenho 19 anos, ainda trabalho no mesmo lugar, e amo trabalhar lá, faço uma coisa que gosto e me sinto muito feliz, creio que Deus me deu esse emprego exatamente quando eu mais precisei. Faço faculdade, um curso que creio que muitos fugiriam e pelo qual sou apaixonada. Faço parte do grupo de dança da minha igreja, amo dançar, é pasmem, sou gorda e danço haha meu corpo também louva ao meu Deus. Ser gorda não é empecilho pra nada.

Aprendi que meu corpo não é para agradar os olhos alheios, que as roupas devem caber em mim e não eu nelas, roupas foram feitas para corpos e não corpos para roupas.
Entendi que a beleza é um estado de espírito, se me sinto bela então eu sou bela.

“Do modo que você se vê assim será”.

A parte mais gratificante de tudo isso pra mim é eu não me importar com o que os outros pensam ao meu respeito. Não me sinto ofendida quando sou chamada de gorda, afinal não é ofensa é apenas uma característica física. Não ligar para os olhares de reprovação quando uso uma roupa mais curta e fresquinha, ou quando vou à praia de biquíni me faz ter a certeza de que a ditadura opressora de magreza e perfeição não me atinge mais. 

Não sou um corpo, eu tenho um corpo. Sou mais do que os outros podem ver, vou além daquilo que o espelho mostra. Meu valor não pode e nem deve ser medido em números.

Eu levo uma vida saudável, pratico exercícios, não é uma regra, quando me sobra um tempinho lá está eu caminhando na praia. Como comidas saudáveis, mas não deixo de apreciar os bolos de chocolate que minha mãe faz com maestria e as macarronadas deliciosas que meu pai costuma preparar.

Só partirei para a perda de peso se minha saúde exigir isso, e procurarei profissionais qualificados. Sou capaz de viajar 100 km pra ser atendida por você 😉 hahaha

Quando comecei a me amar o mundo a minha volta mudou, me ver por outros olhos fez eu enxergar tudo de forma diferente. Ser gentil e amável comigo me tornou uma pessoa gentil e amável com todos. A felicidade vem de dentro pra fora, tudo o que precisamos para ser feliz esta dentro de nós. Para ser feliz basta se aceitar, a aceitação trás uma felicidade sem igual =D

O maior bem que o ser humano pode fazer a si mesmo é se amar. O amor muda tudo.

Sou gorda, cacheada, saudável, me amo e me sinto bem com meu corpo e com tudo e mim. Sinto-me linda e acima de tudo sou feliz.

Meu corpo e meu cabelo não são da conta de ninguém, afinal,

NÃO SOU EXPOSIÇÃO. ^-^

Ah e só pra constar, amo sua página ❤ “

Viviane, que depoimento lindo!! Eu gostaria de dar um forte abraço na sua chefe por ela ter tido empatia e humanidade para te resgatar ❤

Não tenho dúvidas: Deus está honrado com a sua dança, com a sua felicidade e com o seu amor! 🙂

Muito obrigada!

Anúncios

2 ideias sobre “História de Viviane

  1. Talita

    Cabelo lindo, rosto lindo, corpo lindo, e como vc não é uma exposição, mas do que tudo isso, que história liiinda! Parabéns, Viviane. Vou dormir mais feliz depois desse depoimento 😉

Os comentários estão desativados.