Convivendo com a bulimia

A leitora que enviou este depoimento preferiu não se identificar. Eu nunca assisti ao filme que ela comentou, mas já observei que muitas produções voltadas para o público adolescente falam sobre transtorno alimentar como algo que “faz parte” de ser bonita e popular.

Achei um relato importante porque os transtornos alimentares não são nenhuma brincadeira. Incapacitam para muita coisa na vida, comprometem a saúde física, emocional, mental e podem até levar à morte

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TW: narrativa sobre convívio com bulimia nervosa/sofrimento.

“Recentemente assisti “As Vantagens de Ser Invisível” (“The Perks of Being a Wallflower”), com a Emma Watson, e fiquei horrorizada com um dos trechos iniciais do filme. Logo no comecinho, o meio-irmão e melhor amigo da Emma conta pro garoto novo da escola que ela tem bulimia. Não me lembro exatamente das palavras que ele usa, mas lembro que ele diz que a personagem da Emma adora ter bulimia, que ela se orgulha disso, e que inclusive se considera uma “bulimista” e não uma bulímica — como se fosse um estilo de vida, um hobby, uma arte mesmo. Ela é a estrela do filme, toda autêntica, divertida, com a personalidade forte, uma linda “bulimista”. 

Mas não. A bulimia não é glamourosa. 

É um transtorno psiquiátrico gravíssimo. Outro dia fiz uma pesquisa acadêmica sobre isso e me chocou descobrir que os distúrbios alimentares, tanto a bulimia como a anorexia, têm a mais alta taxa de mortalidade de todas as doenças mentais (muitas mortes por suicídio).

Adolescentes com transtornos alimentares param de menstruar por anos. Outras perdem os dentes, os cabelos. Também é muito comum que desenvolvam disfunções de tireoide, graves problemas gástricos, intestinais, dermatológicos, dentre muitos outros. Mas os problemas de saúde mental ainda são os mais assustadores.

Uma pessoa com bulimia se desregula tanto por conta do desequilíbrio do balanço eletrolítico e hormonal provocado pela falta de nutrientes e pela purgação repetitiva, que a tendência é que ela caia num poço sem fundo de depressão, ansiedade, e pânico. Contrário ao que a maioria das pessoas imaginam, a bulimia inclusive engorda, porque a pessoa absorve grande parte das calorias do que ingere, deixando apenas de absorver os nutrientes. A pessoa também fica com o rosto inchado — médicos falam no rosto em formato de “meia-lua”, porque a tensão na mandíbula provocada pelo movimento repetitivo de provocar o vômito faz com que a região se desenvolva. Perde o foco e a concentração, procura se isolar de tudo, e entra em um ciclo de compulsão-purgação que domina todos os aspectos da sua vida. E ela percebe que isso está acontecendo, mas não consegue parar. Comer compulsivamente vira vício (e a pessoa geralmente está morrendo de fome, pois nunca retém muita comida no corpo), e vomitar é sempre a consequência.

 

Torna-se viciada em algo que está sempre à sua disposição, que precisa consumir todos os dias pra sobreviver. Fácil lidar, não?

Não se fala em “cura” de transtornos alimentares, mas sim no tratamento e no controle.Uma pessoa que teve um transtorno alimentar pode ter sim uma vida normal e relativamente livre de todas as afetações que esses transtornos provocam, desde que passe por um tratamento longo, multidisciplinar, intensivo, e que sempre –pro resto da vida– permaneça atenta aos gatilhos que provocam restrições ou compulsões alimentares. 

Eu tenho bulimia desde os meus 16 anos de idade. Hoje, aos 31, ainda batalho contra a doença. Já passei meses, quase um ano, sem ter episódio bulímico algum, mas também já passei outros bons anos da minha vida vomitando ao menos uma vez ao dia. Já tomei Prozac, Zoloft, fitoterápicos, suplementos, chás, já passei por terapia nutricional, ayurvédica, psicoterápica, psiquiátrica, espírita, negação completa, e nunca eliminei a bulimia da minha vida. 

Mesmo assim, consegui, com um esforço que às vezes nem eu entendo de onde vem, conquistar coisas incríveis. Concluí a graduação em uma ótima universidade, com boas notas, trabalhei em alguns dos lugares mais competitivos da minha área, consegui uma bolsa de estudos para fazer mestrado no exterior, viajei pelo mundo, morei sozinha, morei junto (com homens que nunca imaginaram que eu tinha bulimia), e sou vista, de modo geral, como uma pessoa inteligente, bonita, bem resolvida e bem sucedida. Mas sofro muito. Sofro todo dia. Tem dias que já acordo chorando e vou dormir chorando. Sinto que deixei de curtir muitos momentos preciosos, de valorizar pessoas incríveis, e aproveitar oportunidades únicas na minha vida por conta da bulimia. Sinto que a minha capacidade cognitiva foi, e será para sempre, afetada como consequência dos anos tomando antidepressivos (acho que minha memória foi a principal afetada). Também me sinto muito só. Toda minha vida social é complicada. Não consegui cultivar amizades importantes por conta dos momentos em que me isolei completamente de tudo e afastei pessoas que me queriam bem. Passei os últimos anos da minha vida sem ter libido alguma. E toda vez que me aproximo de alguém, não consigo me entregar por completo, porque tem essa parte enorme de mim que preciso esconder. 

Falar sobre distúrbios alimentares como se fossem ‘legais’ é ignorância, irresponsabilidade, e, na minha opinião, deveria até ser criminoso.”

Transtorno alimentar não é legal. Não é “glamouroso”, não é “estilo de vida”. Se há algo desajustado acontecendo na sua vida em relação à alimentação/imagem corporal, procure ajuda.

Carta aberta aos que têm um problema (leia aqui)

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(“Os mais belos sorrisos escondem os mais profundos segredos. Os mais brilhantes olhos choraram muitas lágrimas. Os corações mais gentis sofreram muitas dores.”)

O transtorno alimentar é um sofrimento silencioso, mas você não precisa permitir que tome conta da sua vida. Busque tratamento.

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3 ideias sobre “Convivendo com a bulimia

  1. katol

    É a coisa mais triste da vida ter bulímia, sofro desse vício há muitos anos… Não consigo parar, já acordo planejando o que vou comer e quando vou vomitar tudo. Perdi muitos amigos pois sempre preferi ficar em.casa comendo e vomitando. Me sinto uma fracassada por n ter controle e não conseguir parar.

  2. Thais

    Nunca tive bulimia, tenho até bastante dificuldade em vomitar. Mas me identifiquei demais com o depoimento dela, pois tive vários episódios de anorexia em minha vida. Desde a minha adolescência até hoje com 40 anos é muito fácil perder o controle sobre o que desencadeia a anorexia em mim. O resultado disto é um metabolismo alterado, distorções de imagem, problemas de auto estima, dificuldade em lidar com situações comemorativas, sociais, festivas. Até mesmo me afastei de grupos de pessoas porque nos encontros sempre tinha comida envolvida.
    Hoje percebo o grande mal que isto me fez.
    Relatos como este são importantes para que as pessoas vejam o outro lado das doenças que minam nossa auto estima e podem levar à morte.

  3. Val Lima

    Eu sofri muito com bulimia, a maioria das pessoas acham que é frescura, mas nao!
    bulimia é doença e grave. E ela persiste sim, ainda hoje apos dez anos, se eu comer um pouco mais sinto vontade de vomitar, qdo engordo um pouco tbm. È preciso determinação e muita força de vontade e pessoas. Perfeito texto! com certeza vai ajudar muitas pessoas que sofrem com isso.

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