Quando temos medo

Hoje eu precisei fugir para a capela do Hospital das Clínicas novamente. Porque eu fiquei triste. Mas dessa vez não tinham lírios nem antúrios… a flor que estava decorando o altar dessa vez era o agapanthus.

(Agapanthus é uma flor bonita!)

Eu estou fazendo estágio na unidade de produção de refeições, popularmente conhecida como cozinha, e hoje eu dei uma escapada para a capela porque eu estava com medo de uma pilha de marmitas.

Sim. Eu estava com medo de uma pilha de marmitas. Explico:

Na área de produção de refeições são feitas várias preparações que irão alimentar os pacientes que estão internados. Existem alguns problemas de saúde  que acarretam necessidades nutricionais especiais (diabetes, hipertensão, insuficiência renal, diarreia…)

As clínicas ficam em cima e a cozinha é no térreo. O que acontece é que as nutricionistas encarregadas dos diversos andares do hospital enviam pedidos lá de cima até nós, que estamos lá em baixo para preparar as refeições. É um sistema integrado e bastante complexo!

Antes do almoço ser servido para os pacientes nas enfermarias, em marmitas individuais, nós da produção precisamos organizar tudo certinho de acordo com o que foi pedido.

Até então tudo bem.

A questão é que tudo acontece enlouquecidamente rápido e quem está controlando a distribuição precisa prestar muita atenção em qual alimento mandar para cada tipo de doença. E esse é o momento de “agito” da nossa manhã.

(“O Grito” – Edvard Munch)

Pois então, as marmitas.

Hoje a minha dupla estava encarregada de controlar a distribuição, ou seja, ler os pedidos que vêm das nutricionistas lá de cima. A pessoa tem que estar ágil e atenta. E também é interessante que ela não erre. Hoje foi a vez dela, e daqui alguns dias chegará a minha.

Então aconteceu comigo uma coisa incrível: eu tive um ataque de pânico no lugar da minha colega.

Eu olhei para ela naquela situação e foi como se toda a atmosfera se transformasse em piche. Minhas mãos formigaram, minhas pernas tremeram, minha boca encheu d’água. Precisei sair dali.

Eu tenho eventuais ataques de pânico. Não foi a primeira vez. Infelizmente há muita gente que acha que tudo isso é “frescura” ou “criancice” ou “mimimi” ou “drama”.

 

Quando as pessoas têm problemas orgânicos e palpáveis como hipertensão ou perna quebrada, todo mundo compreende. Mas o que muita gente falha em perceber é que nossas emoções podem, sim, “quebrar” da mesma maneira que uma perna.

Eu tenho motivos para ter tido essa reação.

Da mesma maneira que o Superman não pode lidar com a criptonita e o Aquiles não pode tomar uma bicuda no calcanhar… Eu, autora do presente Blog, não consigo lidar com pressão e cobrança.

Eu tenho um problema tão grande em relação à pressões e cobranças que eu passo mal só de ver outra pessoa passando por isso.

Origens: eu fiz dança clássica durante a vida toda. Até morei no exterior por um período para estudar ballet. Este é um mundo de beleza, encanto e magia. Mas, infelizmente, nos bastidores existem algumas coisas que não são nada legais.

Por muito tempo absorvi uma mensagem de desvalia, porque a imperfeição era inadmissível.

Imperfeita, atrapalhada e lenta para aprender? Prazer, sou eu!

Existem alguns educadores que acreditam que quanto mais você humilha, melhores serão os resultados. De alguma maneira estranha, há professores que acham que dizer coisas como “você é horroros@”, “o que você fez é ZERO, não vale nada”, “você é tapad@ e não aprende” é uma estratégia que provocará notáveis resultados.

Estratégia absurda. Estratégia falida. Eu tenho horror de pedagogia negativa. Mas horror, mesmo. Uma aflição de dar grito de cinema. Eu já falei mais sobre isso por aqui.

Cada vez que me sinto pressionada, é como se eu estivesse escutando declarações da minha incapacidade zumbindo nas minhas orelhas. É uma sensação horrível. Para ser mais específica, o nome disso é trauma.

Deus é bom e justo (acredito Nele) e atualmente eu continuo dançando, mas estou cercada de pessoas que me motivam, me tratam com dignidade e respeito e me ajudam a desenvolver sempre o melhor de mim. Estou trabalhando para ter uma vida emocionalmente saudável e assim os ataques de pânico têm ficado cada vez mais esporádicos.

Que bom!

Porque quando a gente sente medo, delegamos poder para quem o o que está nos afligindo.

“Sentir medo é o mesmo que legitimar no outro o comando da situação. Se eu temo o escuro, de alguma forma estou lhe atribuindo mais poderes que a mim. O medo nos faz vítimas, acentua ainda mais o esquecimento do que podemos. O que pode me fazer uma sala escura? Por que tenho medo de ficar sozinho? São perguntas simples para as quais geralmente não temos respostas. A razão não dá conta de jogar luzes sobre essas situações justamente porque ela está paralisada pelo medo. O medo nos priva da inteligência, ainda que temporariamente.”

(Pe. Fábio de Melo)

Essa descrição se enquadra em muitas situações da nossa vida, mas como eu conduzo um Blog sobre transtornos alimentares e imagem corporal, deixo o recado para que você, que veio aqui hoje: enfrente seu medo.

Medo de engordar, medo de não ser bonita/magra/sexy o bastante, medo de comer, medo de ser rejeitada, medo de envelhecer… Seja qual for o medo que você está sentindo, tire o poder dele. Recupere sua autonomia. Recupere a sua identidade. Quanto mais crédito damos ao discurso midiático de que não somos o bastante, mais poder damos para as indústrias da beleza/emagrecimento que nos oprimem.

Hoje eu dei poder sobre mim a uma pilha de marmitas. Engraçado, né? Todo mundo tem um ponto fraco. Cada um sabe muito bem qual é a sua criptonita. Mas podemos vencer as dificuldades mantendo o bom ânimo, tolerando os momentos ruins e seguindo em frente.

Já diria a Dory: Continue a nadar!

(Caso alguém esteja se perguntando, a minha amiga deu muita conta do recado, todos os pacientes receberam suas comidinhas… e eu não só sofri à toa, como admirei o desempenho dela! As nutricionistas que supervisionam o meu estágio são muito legais e disseram para eu ficar tranquila porque quando chegar a minha vez de tocar a distribuição, vão me ajudar. Acho que tudo culminou no que podemos chamar de final feliz!)

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7 ideias sobre “Quando temos medo

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