A toca dos ursos.

Recebi este depoimento fantástico do leitor Daniel Ferraz, que é o primeiro homem a enviar um texto aqui para o NSE. A leitura vale a pena, ele é uma pessoa de uma sensibilidade admirável!

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“Estou a um tempo aqui pensando em como começar esse texto, embora seja algo muito claro na minha mente , escrever o que vejo, e sinto é um pouco mais difícil.

Vou contar um pouco da minha história e de como o machismo ,e a gordofobia me afetam (não falarei da homofobia porque creio que todxs vocês aqui já sabem como é).

Bom o machismo me pega a partir do momento que eu nasci, hahaha. Acho que desde sempre fui vítima do machismo , pela questão de sempre ter sido uma “criança viada”, sempre tive trejeitos , cresci ouvindo “Daniel olha essa mãozinha” , “Daniel para para de ser chorão” , “Daniel para de ser mulherzinha” , acredito que as pessoas que me falavam isso (normalmente pessoas da família que eu amo) não sabiam o quanto isso me afetava , acredito também que nessa sociedade machista, homofóbica , patriarcal a pior coisa pra um menino é ser comparado a uma menina , já que “meninas são menos que meninos” (isso na ótica machista, claro).

E eu fui crescendo com isso , com esse tipo de comentários, quando um pouco mais velho já escutava coisas como “para de ser veado” , ou então simplesmente “é um veado mesmo”, isso foi durante um bom tempo até os 16 anos, quando realmente percebi que eu era mesmo uma bixa, hahaha uma bixa glamurosa , beijos.

Não vou escrever detalhes sobre a homofobia e o machismo que passei, porque na real quero falar da gordofobia que atinge a nós homens também, embora, claro, que falarei disso em alguns momentos porque não tem como eles não terem cruzado na minha vida.

Bom, eu era uma criança, não magra, mas também não era gordo , sorte a minha porque já pensou além de “olha a maozinha Daniel” eu ter que escutar “Para de comer, baleia”? Teria sido muito mais traumatizante do que já foi. Bom, voltemos. Com o tempo eu comecei a engordar, aos 9 anos tive uma crise de depressão e sindrome do pânico fortíssima, e ai desandou tudo, nesse momento passei a ser realmente gordo.

E comecei sentir a gordofobia na escola, quando antes de eu começar a ser xingado de veado eu comecei a ser xingado de gordo, a pior parte na escola pra mim era a Educação Física, onde eu era obrigado a participar de todas as atividades, e na escola que eu estudava eram meninos separados das meninas, e até então eu só tinha amigas meninas (isso foi mudar só na 5ª série).

Quando tinham que escolher o time pra jogar futebol adivinha quem era o último? MOI! Hahaha

E o pior era quando além de ser o último eu era empurrado de time pra time porque ninguém me queria, porque eu não corria muito, não sabia jogar bola direito e etc. Me lembro de uma vez que eu fingi que caí da escada pra não ir pra aula de Ed.Física de tanto que era o trauma, ainda mais quando o time de futebol era os de colete contra os sem camisa , e eu sempre caía no time dos sem camisa, aí então era zoação o tempo todo, e agora que cresci me pergunto:  

-ONDE ESTAVA O PROFESSOR QUE NÃO VIA ISSO ?? U.U.

Outra coisa interessante que aconteceu foi que uma amiga uma vez disse “Daniel você só passa o recreio com a gente, vai com os meninos” , fiquei acabado com isso, e no outro dia comprei um pião (estava na moda) , e fui onde os meninos ficavam jogando e um menino da minha classe resolveu me ensinar (Obrigado Rodrigo rs) e então fiz amizade com os meninos , aí as coisas começaram a melhorar. Como eu era amigo dos meninos, eu pedia pra eles não me deixarem por último na hora de escolher para o futebol, e eles não deixavam  (: 

E me escolhiam logo (Obrigado Rodrigo ,Felipe e Vítor rs).

Depois mudei de escola e tudo começou de novo, só que essa escola que mudei era pública, então as coisas ficaram mais pesadas , eu não era somente o gordo, era o gordo veado. Mas deixemos de lado essa parte , porque é a história de bullying de sempre. Quando fui para o colegial isso acabou, pelo menos na minha frente, as pessoas já não me chamavam de gordo nem de veado, isso foi um mega alívio.

Mas aí chega a vida adulta que é onde me encontro hoje aos 25 anos e com mais de 100 Kg , eu na verdade achei que as coisas seriam mais fáceis aqui, mas definitivamente NÃO SÃO. Os problemas são muitos e a gordofobia é um deles, você percebe que existe gordofobia em quase tudo, na hora de uma entrevista de emprego, as pessoas tentam agir naturalmente, mas você sabe que o fato de ser gordo e gay incomoda muito as outras pessoas, você percebe os olhares quando você entra no ônibus/metrô , nós homens suamos mais que as mulheres então existe muito um olhar de tipo “que nojo desse gordo” , e se sabem que você é gay, se percebem por algum motivo o olhar muda para “que nojo desse gordo veado”.

Em “n” situações já percebi isso, e os amigos também brincam , acredito que eles realmente estão brincando porque não entendem direito o que você passa , e quando você tenta explicar ouve coisas do tipo “ai gay , para de drama”, e juro, não é drama: é sentir a gordofobia.

Eu não sei exatamente como é a gordofobia no “mundo feminino” , estou lendo bastante a página Não Sou Exposição pra tentar entender, porque a maioria dos meus amigos são gays homens, então meio que não sei como é no “mundo das mulheres” .

Pelo o que vejo de longe, eu acho que é mais uma “disputa” (inconsciente talvez) e quando a mulher se sente ameaçada ela detona a outra , e a primeira coisa que fala é “gorda”

(não me odeiem se eu estiver falando merda , é o que eu vejo de longe, se for besteira, depois me expliquem com amor ❤  ).

Agora sobre a gordofobia no meio gay, que é onde mais vejo, ela é terrível porque muitos gays não julgam só a mim, eles julgam a mulher gorda, a travesti gorda , o gay gordo, enfim. E outra coisa que vejo MUITO são pessoas falando mal de mim por eu ser gordo, como se ser gordo fosse minha única caracteristica , o que depois de ser tão xingado, acaba meio que se tornando.

Mas tô aqui pra falar que minha gordura é uma parte de mim, sou gordo mas não sou só isso, sou maior que isso, maior que qualquer característica física!

Acredito que mais mulheres do que homens lêem aqui, mas ser gay e gordo é bem difícil. Ir em uma festa gay onde todos seus amigos são magros e você é o único gordo é difícil, fico muito triste e impressionado de como a mídia no geral atinge tão diretamente os gays e fazem deles as vezes pessoas cruéis , é muito ruim eu ser xingado por ser gordo , gay, por suar mais… e isso no próprio meio gay.

Existe no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa uma festa, a festa dos ursos, onde o gay gordo é aceito. Embora eu fique feliz em ser acolhido em um lugar assim e não ver ninguém me olhando torto ou me xingando por eu esbarrar em alguém por ser gordo, ao mesmo tempo é muito triste eu ter que me enfiar “na toca” dos ursos pra me sentir aceito. É muito triste eu ter que escolher meus tipos de amigos pra não ser “gongado” (joguem no google rs), é muito triste eu ter que ir em uma festa em São Paulo que acontece de 15 em 15 dias porque nas outras as pessoas me olham e pensam “O que esse gordo ta fazendo aqui ?”

É muito, mais MUITO triste mesmo essa segregação , eu não podia ser acolhido e feliz em qualquer lugar? Sem passar pelo machismo, pela homofobia e gordofobia?

Afinal, até quando eu vou ter que ficar me enfiando na toca dos ursos pra ser aceito?

Ou será que devo partir pra academia pra tentar entrar nos padrões midiáticos?

Bom só queria que vocês entendessem que ser gordo e gay também é difícil.”

Daniel querido, vamos continuar acreditando e lutando. Vamos torcer para que nossa sociedade tenha espaço para as diferenças e ninguém precise se esconder em “toca” alguma. É difícil e por vezes, desanimador. Mas pessoas como você mostram que vale a pena batalhar!

Você é ótimo, mais que glamouroso! Muito obrigada pelo depoimento!!

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