A costureira desobediente

Eu sou ativista.

Significa, a grosso modo, que eu acredito numa causa e luto por ela. E gasto bastante tempo, esforço e energia com isso. Estudo, busco informações, dou palestras, ministro oficinas…

ativista

(FONTE: Dicionário informal.)

É muito gratificante. Por causa do trabalho neste Blog, conheci pessoas especiais de todo o Brasil, recebi  depoimentos emocionantes, participei de eventos maravilhosos, tive a oportunidade de conhecer pessoas que eu admiro. Uma parte chata dessa escolha é que você, inevitalmente, acaba se tornando uma pessoa monotemática. Repetitiva. E por que não, chata?

 

É preciso ter muita cautela para separar a vida pessoal do trabalho aqui no NSE e também paciência para “deixar passar” Diet talk, gordofobias e colocações machistas. Estamos imersos (afogados!) numa sociedade obcecada por dieta, gordofóbica e machista. Então a minha cota diária desse tipo de conteúdo auditivo é muito, muito alta. SEMPRE vai existir alguém justificando uma gordice, falando que precisa emagrecer (mesmo sem ser verdade), ridicularizando a aparência de outras mulheres, discutindo sobre celulites. Sempre.

 

Então eu não posso rebater todas as vezes. Porque isso faria de mim a pessoa mais chata do universo. Vejam bem, eu sou chata. Porque eu sou ativista. E todo ativista é chato. O desafio central é: não ser estapafurdiamente chata.

Há uns dias, houve uma ocasião em que eu não consegui. Acabei respondendo uma conversação que girava em torno de justificar uma “gordice” cometida, vestidos de festa e sobre como as mulheres devem controlar seus corpos e a alimentação.

Tenho a escandalosa opinião de que roupas são feitas para as pessoas, e não pessoas feitas para as roupas. E também acredito que não precisamos pedir desculpas só porque comemos sobremesa.

Em resposta? “Ai como você é extremista”…

Pois é. Faz parte. Eu sei. É um fardo, uma fama, uma realidade. Quando você abraça uma causa, receber o rótulo de ~radical~ é um dos ônus que vêm com ela.

Fiquei chateada.

Mas quando eu voltei para casa, a leitora Thais Barreto, que é uma amiga que sempre me ajuda com contribuições, depoimentos e muita torcida, havia me mandado essa imagem:

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(“Nunca fique temeroso quando o que você está fazendo é certo”)

A frase é linda. Animadora. Reconfortante. E é da Rosa Parks!

Você sabe quem é a Rosa Parks? Ela é uma pessoa muito importante. Ela era costureira e negra. E fez uma coisa muito significativa no dia 1º de Dezembro de 1955.

Sabem o que ela fez? Ela se negou a ceder o seu assento a um homem branco dentro de um ônibus… E ela foi presa.

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No Alabama, na década de 50, as primeiras cadeiras do ônibus eram reservadas aos passageiros brancos. Por lei. Os negros só podiam transitar nos assentos dos fundos (ABSURDO, né? Eu sei…)

Naquele dia, o motorista exigiu que ela se levantasse para dar lugar a um passageiro branco e ela não quis obeceder. Por isso foi detida e levada para a prisão.

Sabem o que aconteceu? Por causa disso a população negra se uniu em protesto contra a discriminação racial, boicotando o transporte público e causando um prejuízo financeiro como nunca antes visto! Sabe quem era uma figura ativa naquela época e apoiou a ação? Martin Luther King Jr.!

 

Os negros que se recusavam a ir trabalhar de ônibus tomaram as ruas numa caminhada de protesto… Foi um evento muito importante na luta contra o racismo nos EUA.

Sabem porque tudo isso aconteceu? Porque ela foi desobediente.

Então quer saber? Eu também vou ser desobediente.

Eu sou mulher, mas eu não me importo com dieta, cosméticos, estética, manutenção da “beleza”… Tenho a minha vaidade, claro (como todo mundo) mas não sou obrigada a ser reconhecida pela minha aparência. Não quero ser lembrada pela minha cinturinha nem pelo meu belo par de pernas. Quero ser lembrada pelas coisas que eu disse, escrevi, realizei.

E quem sabe a gente também não consiga criar um movimento de amor próprio, aceitação, autoestima e empoderamento feminino? E masculino também! Porque não?

QUE TAL se a gente parar de se preocupar tanto com aparências, status, imagem e curtidas recebidas pela imagem?

Que tal uma revolução de autenticidade, talento e sentimento?

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Sou chata porque não quero conversar sobre a mais nova técnica de tratamento para celulites? Parece justo. Topo o desafio, aceito a fama.

Hoje é dia 6 de novembro de 2014 e ninguém se lembra do nome do homem branco que queria sentar no ônibus no dia 1º de dezembro de 1955.

Desobedientes, uni-vos!

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