Arquivo mensal: novembro 2014

“Como ser feliz?”

Hoje quero tratar de um assunto importante.

Tenho recebido dezenas de recados e depoimentos de pessoas me contando como a sua qualidade de vida piorou muito depois de terem se envolvido com o estilo de vida Fitness, principalmente as que decidiram seguir as blogueiras mais famosas (daquelas que mandam cuspir chocolate)… Perderam a vida social, a saúde, relacionamentos amorosos, as coisas que gostavam de fazer, um montão de dinheiro e a paz.

Antes que a pessoa decida trilhar o caminho de volta à sanidade, muito dano é causado.

Eu me preocupo muito com a influência negativa dos perfis Fit, já falei sobre isso algumas vezes. Esse “estilo de vida” se relaciona muito pouco com saúde, promove transtornos alimentares, abuso de atividade física e gastos exorbitantes de dinheiro.

E o tema do post de hoje é: como perceber que meu envolvimento com a vida fitness foi longe demais?

Elaborei um checklist trabalhoso, mas que com base nos depoimentos que recebo sobre essa questão, creio que cobre todos os pontos.

Antes de mais nada, para ilustrar meus argumentos, vou narrar um fato que observei em frente ao Hospital onde estou cumprindo estágios obrigatórios:

Eu estava passando em frente ao hospital bem cedinho e vi uma senhora de meia idade,  sozinha, carregando um carrinho informativo muito pesado sem ninguém para ajudá-la. Pessoas transitavam aqui e ali, mas ninguém lhe notava. O semblante dela denunciava anestesiamento completo da alma. Um espírito sequestrado. Uma pessoa que há muito tempo não faz uma escolha por conta própria. O carrinho informativo dizia:

– Como ser feliz?

Supostamente, ela era a pessoa indicada para contar ao público a receita da felicidade. Mas sejamos francos: ela não estava feliz. Ela estava sozinha, numa manhã fria, arrastando um carrinho pesado para convidar outras pessoas a participarem da sua frágil ilusão de felicidade.

QUEM ela estava representando? Uma das maiores seitas do mundo. Os Sentinelas de Javé. Alterei um pouco o nome, mas basta saber que são aqueles caras que batem na sua porta no domingo de manhã para perguntar se você já se questionou onde passará a eternidade. Aqueles caras que não aceitam transfusão de sangue e não gostam de festinha de aniversário. Aqueles caras que anunciaram o Fim do Mundo em 1914, 1925, 1975 e 1992 e estão no aguardo do próximo apocalipse. Sim. Eles.

(Diz que o mundo vai acabar, vai ser bem louco!)

Meu ponto: você sabia que nem todas as organizações sectárias são religiosas? Você sabia que nem toda seita vai te falar da nova vinda de Jesus,  anunciar o Armagedon, ou aguardar a passagem de um cometa?

Uma oportunidade de negócio, um “estilo de vida”, uma marca de maquiagem ou uma “geração blogueira” podem oferecer o mesmo tipo de felicidade experenciado pela senhora que eu vi puxando o carrinho. Não precisa ter Deus no meio para que um discurso te sequestre. Dinheiro, fama, sucesso também provocam o mesmo efeito.

Após um processo inicial de manipulação mental (que normalmente atinge indivíduos fragilizados), as pessoas mudam completamente de personalidade. A principal característica é o fanatismo. Não tem meio termo. Não tem discussão. Pensam no assunto o tempo todo. Falam no assunto o tempo todo. Além do próprio comprometimento com o “estilo de vida”, fazem de tudo para recrutar mais pessoas. Podem cometer loucuras em nome de um ideal, coisas que, num estado mental equilibrado, não cometeriam. Quem está de fora apenas observa e não consegue argumentar, porque faz parte dos “cegos que não entendem”. Esse argumento é típico: – não escute as críticas porque partem de pessoas invejosas, cegas, recalcadas etc.

Quando a pessoa que foi manipulada cai em si, e resolve se afastar, não recebe apoio nenhum. Apenas um “Ótimo, boa sorte sua traidora”… E lhe restam os cacos para juntar sozinha.

Você acha que isso pode estar acontecendo com você?

Então verifique alguns sinais:

1) O grupo ao qual você pertence tem uma personalidade “inspiradora” ou um “líder” que é visto como uma pessoa sobre-humana, perfeita, incapaz de cometer erros?

2) Duvidar, questionar e discordar das práticas do grupo é um ato fortemente desencorajado e até mesmo passível de punição?

3) Há práticas corporais que alteram o estado de consciência e te tornam mais vulnerável (danças, cantos, mantras, atividade física exorbitante)?

4) O “líder” do grupo determina o que os seguidores devem pensar, agir, sentir, vestir, comer, assistir, ler etc?

5) A organização é exclusivista, ou seja, se enxerga  como superior aos demais? Os membros vêem o “líder” como um ser iluminado, especial?

6) A mentalidade que predomina no grupo é “nós-contra-eles”? Você sente que há uma polarização entre os que pertencem ao grupo e “os demais”?

7) O grupo te ensina que os fins justificam os meios, portanto vale tudo para que se consiga um objetivo final, até mesmo comportamentos controversos e de risco? Você se vê fazendo coisas que, antes de se envolver com a organização, não faria?

8) Os seguidores são persuadidos através da vergonha, culpa e medo? O estímulo para as práticas realizadas dentro do grupo é quase sempre negativo?

9) Após se envolver com o grupo, você rompeu laços com a família ou com amigos? Se afastou de atividades sociais que antes você apreciava?

10) Você gasta muito tempo e dinheiro por causa do grupo?

11) Você é encorajad@ a recrutar novos membros?

12) Você é encorajad@ a se relacionar somente com pessoas que pertencem ao grupo, e é doutrinado por testemunhos de “sucesso” dentro da organização?

Quanto mais respostas “sim” marcadas no checklist, maior a chance de você ter sofrido uma lavagem cerebral e a sua saúde física/mental pode estar em risco. Você se envolveu com um novo estilo de vida recentemente? Seu comportamento foi muito modificado?

Pense nisso.

Lavagem