Você é uma mulher muito bonita.

Estou na reta final do curso de Nutrição da UFPR e, se tudo der certo, estarei formada dentro de meses. Me encontro na etapa dos estágios obrigatórios, que não é fácil, minha gente… não é fácil.

Estou momentaneamente na nutrição clínica, cumprindo (várias…) horas no Hospital das Clínicas.

Essa é a parte do curso em que nós nos aproximamos das dores, doenças e dramas particulares da população. Eu e minhas colegas estamos lidando com vários tipos de pessoas. Idosas, adultas, crianças, bebês. Com diagnósticos difíceis. Enfrentando batalhas como verdadeiros heróis anônimos e de carne e osso. Já testemunhamos muitas histórias. Longos internamentos, abandonos, traumas…algumas de nós perderam pacientes.

Está sendo difícil, mas tenho certeza que todas nós sairemos de lá um pouquinho mais fortes e um pouquinho mais maduras. Eu já me sinto assim. Pelo menos um pouquinho.

Fiquei com vontade de escrever este texto por causa de uma experiência que tive numa dessas manhãs de trabalho.

As enfermarias do meu andar são coletivas, têm vários leitos. Em cada quarto ficam em torno de cinco pacientes. O corredor é dividido em masculino e feminino.

Eu faço triagem cada vez que acontece um novo internamento, isso significa verificar se o paciente apresenta risco nutricional importante. Um dos instrumentos para verificarmos esse fato é a balança.

A balança fascina. Quando eu entro nos quartos para pesar uma pessoa específica, é comum que mais pacientes se aproximem pedindo para subir nela. Eu sempre deixo, claro.

O que eu acho interessante é que, de modo geral, os homens se espantam porque perderam peso (“Puxa vida!”), mas sem maiores julgamentos… E as mulheres parecem nunca estarem magras o suficiente.

O fato das minhas pacientes comemorarem uma perda de peso por conta de uma doença seguida de um internamento reflete o nível de opressão social que vivemos: Temos que emagrecer. Nem interessa o motivo nem o método. Emagrecer é bom. Sempre.

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 (Dieta, dieta, dieta, dieta… FAÇA DIETA pelamordedeus!!!)

O que aconteceu foi que eu entrei na ala feminina para aferir o peso de uma nova paciente e uma mulher que estava em outra cama se aproximou de mim e pediu:

– Posso subir na balança?

A balança que eu uso leva uns quatro segundos para zerar o visor, então é preciso esperar uns momentos para usá-la depois que eu ligo. A mulher não esperou. Subiu imediatamente. Precisei pedir para ela descer, para que a balança estivesse pronta. A ansiedade, o autojulgamento, o medo eram palpáveis como piche flutuando no ar e nos afogando.

Ela subiu. Olhou.

Nem me lembro do número. Nem sei dizer se o peso era adequado para a altura. Ela não era minha paciente. Mas naquele momento, aquele número não poderia me importar menos.

Eu senti uma pontada no peito quando ela olhou nos meus olhos, silenciosamente pedindo socorro. Era como se ela dissesse “moça, você que é da nutrição, faça algo para me salvar”. Mas ela não queria ser salva daquele peso. Ela queria ser salva dos seus sentimentos de inadequação.

Ela estava aflita, decepcionada, perdida, sem chão, sem rumo. Me olhou como quem pede desculpas e disse “Ai…”.

Eu tinha vários afazeres, mas passei o resto da manhã pensando nela. Pensando em como a nossa sociedade é cruel com as mulheres. Como nossos corpos estão atrelados em cabrestos e impedidos de expandir, respirar, dançar, criar, viver. E fiquei pensando, principalmente, no quanto ela acreditava naquele número.

Ela estava relacionando seu valor como pessoa com o número que viu na balança. Seu valor como mãe, esposa, mulher e cidadã.

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(“Não pese a sua autoestima”)

Mais tarde eu voltei para falar com ela. Perguntei se ela estava incomodada com o peso. E ela, claro, me disse que sim.

Fiz o possível para explicar que o peso, como dado isolado, não significa nada sobre o estado de saúde. Mas a preocupação não era essa. Então eu disse que nossa sociedade tem conceitos muito inflexíveis sobre beleza e ela não merecia sofrer daquele jeito. Como ela havia recebido alta, eu disse que pensasse no quanto era bom sair daquele hospital, poder viver lá fora com saúde e autonomia… Disse que fosse feliz e arrematei com muita sinceridade:

– Você é uma mulher muito bonita.

E nesse momento ela encheu os olhos d’água. Fico pensando há quanto tempo ela não escutava isso. Ou há quanto tempo parou de dizer-se isso. Há quanto tempo está se sentindo feia, abandonada, sem valor.

Não, ela não era parecida com nenhuma modelo da Victoria’s Secret. Ela não era escandalosamente jovem. Nem escandalosamente magra. Mas ela era, sim, uma mulher muito bonita. Feminina. Verdadeira. Não era um corpo de capa de revista. Era um corpo orgânico e cheio de histórias para contar. E esse tipo de beleza, infelizmente, poucas mulheres procuram, valorizam ou enxergam.

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(Em tudo existe beleza, só que nem todo mundo enxerga)

Você que neste momento me lê, procure pensar nas dádivas que a vida nos apresenta. Tantas experiências, aprendizados, desafios. Como é bom ser livre e deixar o corpo passar por tudo isso. Como é bom ter saúde, ter possibilidades de ir e vir, cuidar do próprio corpo por conta própria. Poder comer, tomar banho, se vestir e se locomover sem ajuda de terceiros. Ter ainda vários dias pela frente. Ter sonhos para cultivar.

Não permita que um conjunto de dígitos te faça esquecer que a vida tem propósito. Que você tem capacidade, potencial e muita beleza. Seja você quem for!

1898038_10204523247099307_5842877639308111902_nEsta balança fornece um reflexo numérico da sua relação com a gravidade. E é isso. Ela não pode medir caráter, beleza, talento, propósito, possibilidades, força ou amor.

 

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20 ideias sobre “Você é uma mulher muito bonita.

  1. Janaína

    Gostei muito do texto! Obrigada. Pois tenho muita sisma de engordar, mas estou aos poucos tentando lidar com isso!

  2. Rodrigo

    Ok, sabendo do contexto dessa paciente, ajudar a emagrecer não faria sentido. E eu não disse q vc é mentirosa ou hipócrita, só disse q eu não seria.

    Sim, beleza é subjetivo, não é isso q eu tô discutindo. O q eu disse é q se uma pessoa quer ficar mais bonita (conforme o q ela considera bonito), independente do q seja seu objetivo, acho mt mais útil ajudar a pessoa a chegar nesse objetivo (de maneira saudável, só pra deixar claro) do q tentar recuperar a auto estima da maneira q vc fez. O objetivo de ficar magra é só um exemplo, o mesmo serve pra um cara q queira ficar com um shape top, ou qlqr outra coisa.

    Eu espero q vc tenha entendido o q eu quis dizer. Eu não tô defendendo os padrões insanos da mídia ou querendo ser fútil, até pq, como eu disse antes, concordo 100% com vc. Só acho q só isso não resolve totalmente o problema.

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