Arquivo mensal: outubro 2014

SOS área da saúde!!

Eu gostaria de falar sobre uma questão importante, que muito tem acontecido e que várias vezes me foi narrada: profissionais da saúde obcecados pela magreza.

Vou publicar um relato ocorrido entre uma paciente (que é nutricionista) e uma psicóloga. Por questões de privacidade/ética, não citarei nomes nem localidades:

Boa tarde, tudo bom? Espero que sim.
Antes de mais nada,gostaria de te parabenizar pelo maravilhoso trabalho que você vem realizado..são poucos nutricionistas que agem assim!

– Muito obrigada!  menina
Bom, gostaria de passar o que aconteceu comigo durante um atendimento psicológico recentemente, pois sei que atualmente os padrões de beleza explorados pela mídia são cada vez mais cobrados pelos profissionais da saúde, incluindo os psicólogos.
Durante o atendimento com a minha psicóloga, relatei que atualmente estava me alimentando de maneira diferente do que o habitual (eu estou me alimentando menos), dei o exemplo do meu desjejum , que foram apenas duas bisnaguinhas. Então, ela afirmou “ser muito”. Quando relembrei que antes eu comia quatro bisnaguinhas, ela novamente afirmou “ser muito”. Pior, ela falou que eu estou “bem cheinha”, e que seria bom me alimentar menos mesmo.

 

– Posso não ser psicóloga, mas desconfio que a questão aqui era a informação: “a paciente está comendo menos”. Menos que o habitual, ou seja: uma diminuição da ingestão. Não importa se antes ela comia três ervilhas e agora come uma. Ou se ela comia sete dinossauros e agora come dois… Mas né. Palpites.

 

dinos
Sou nutricionista (formada em janeiro de 2013), atualmente curso um aprimoramento em transtornos alimentares, fora a pós-graduação completa e diversos outros cursos onde me mantenho informada. Como nutricionista (e como paciente/ pessoa), afirmei que não era “muito” consumir duas bisnaguinhas no desjejum, pelo contrário: apenas isso é muito pouco. Esplanei com números, para facilitar o entendimento da mesma, que continuou a afirmar que eu precisava “fazer um regime”, por ser “bem cheinha”.

– Ok. Posso não ser psicóloga mas eu pressinto que psicólogos não são os profissionais habilitados para definir quem “precisa de regime…”

Eu afirmei que não precisava de regime e que eu estava bem como estou hoje. Ela respondeu que digo isso “apenas como profissional da saúde”.

– ???

Ora, como nutricionista, sei muito bem identificar quanto uma pessoa necessita reduzir seu peso corpóreo e sei que estou muito longe disso: tenho 1,70 m de estatura; 57 kg; 26 anos.

imc

– Parabéns, seu IMC tá joinha.

Agora, “como pessoa” (deixando o profissionalismo de lado), também sei que não preciso emagrecer. Quando falei que não precisava perder peso, ela ainda rebateu: “gosto de mulheres magras!”

OK, posso não ser psicóloga mas talvez as preferências por silhuetas delgadas não venham ao caso nessa situação em particular…
Me perdoe, mas como psicóloga, ela não deveria ficar questionando meu peso (ou minha aparência física), muito menos se eu deveria ou não fazer um regime. Inclusive, disse isso à ela pouco antes de abandonar o atendimento, faltando cerca de 30 minutos o término, pois não tenho obrigação de ouvir isso.

– Escutamos isso da TV, das revistas, das novelas, dos filmes, do navegador, das redes sociais, da vizinha, dos colegas de trabalho, do maldito PLANETA INTEIRO… Realmente. Eu também teria ido embora.

Ela poderia ter abordado o motivo que me levou a comer menos que o habitual, visto que a alimentação geralmente está relacionada às nossas emoções.

– É, talvez… parece cabível.

Naquele momento, me senti invadida pois, no momento que relato algo pessoal meu, ela afirma tais coisas e age dessa maneira…ao invés de agir como psicóloga, ela se posicionou como qualquer outra pessoa ao me julgar.

Pelo que sei, quando nós – profissionais da saúde – vamos atender o paciente, NÃO nos cabe JULGAR aquilo que ele afirma e sim GUIÁ-LO da melhor maneira possível.

Como exemplo: se eu, profissional nutricionista, julgar um paciente que afirma ter comido demais, sem antes indagar A QUANTIDADE que foi consumida e o MOMENTO/MOTIVO, como poderei ajudar… se não sei se de fato este indivíduo teve um exagero, ou se é algo que ele imagina ter sido?

– Também me soa como uma postura adequada para todos os profissionais de saúde: imparcialidade. Só que “gosto de mulheres magras” é uma afirmação que não se enquadra.

Não temos que julgar as pessoas pelo que elas dizem ou como elas agem, se fizermos isso, não estaremos exercendo nossa profissão da melhor maneira! Penso que ela não agiu de maneira condizente à profissão, o que me deixou muito indignada!
Estou repassando isso para que as pessoas fiquem atentas aos “absurdos” que podem ouvir de outras pessoas, bem como de alguns profissionais.

A minha questão é: de certa forma, eu já estava “preparada” tanto para rebater, como para não me importar com isso; mas e quem não está? E se for alguém insatisfeito com sua imagem corporal? Essa profissional poderia ter “reafirmado” um quadro  de anorexia (por exemplo).

Pessoas: vamos acordar – perfeito não é o que alguém quer que você seja. É QUEM você QUER ser e COMO você quer ser – os padrões de beleza atuais não medem o nosso valor!

– Sim. Me preocupou. Precisamente por isso. Porque pessoas com tendência a desenvolver ou continuar um quadro de transtorno alimentar podem se sentir encorajadas por afirmações do tipo. Me lembrou este texto do Blog do GENTA, que fala sobre profissionais que não têm ferramentas para identificar esses problemas. E isso é sério. É preocupante.

Agora passemos para o caso número II.

O print foi me passado hoje pela Marina, do “Não Conto Calorias”. Nem sei quem é a nutricionista. Mas é alguma ~profissional~ no Instagram dando a SEGUINTE IDEIA:

naoconto

Pelas barbas do profeta! Quem… coloca um espelho dentro da geladeira?!

Posso não ser nutricionista. Ainda. Estarei formada dentro de 40 dias (com um desvio-padrão de dois dias para mais ou para menos)

Mas: cara colega do Instagram, você está maluca!!

– Porque temos inúmeros argumentos para estimular a alimentação saudável sem precisarmos apelar para a estética;
– Porque magreza não é sinônimo de saúde;
– Porque se espelho fosse parâmetro para avaliar alguma coisa, não precisaríamos de nutricionistas (vide o caso das bisnaguinhas ali em cima);
– Porque as pessoas precisam de alimentação saudável, agradável, tranquila e sem neuras e não de DIETA (¬¬).

Porque lugar de espelho é na parede e não na geladeira!!

Agora vamos falar sério:

serious

(“Isso é sério. Essa é minha cara séria.”)

Profissionais da saúde (nutricionistas, educadores físicos, médicos, psicólogos, fisioterapeutas e ___________ complete aqui) obcecados pela magreza podem causar danos aos seus pacientes. Uma “dica do bem” ou um “conselho” não solicitado pode ser o empurrão que faltava para desenvolver um pleno transtorno alimentar.

A sociedade já faz estragos demais. Então por favor, vamos lembrar que somos (ou estudamos para ser) profissionais da saúde.

“eu gosto de magreza” ≠ saúde.

“guarde espelho na geladeira” ≠ saúde.

Sim, a questão é assim de simples.

Recado final: NSE não está generalizando. Todos sabemos que existem bons e maus profissionais. Não estamos criticando todos os psicólogos e nem todos os nutricionistas. Há bons e maus exemplos em todas as áreas. Grata.