Wheynite.

Há alguns dias eu estava fazendo uma atividade em dupla com uma amiga. Entramos juntas num estabelecimento para realizarmos orientações de educação nutricional. Como é de praxe, fomos até uma salinha nos fundos para deixarmos as nossas bolsas e prepararmos o material.

Eis que ali, em cima da mesa, vimos um sinal de contaminação. Era uma pilha de suplementos alimentares. Potes cintilantes e vermelhos, que juntos formavam uma pirâmide. Nos olhamos e trocamos a informação em silêncio. Não restavam dúvidas: alguém naquele local estava portando o vírus Fitness.

O vírus Fitness é o legítimo vírus que se pega com mil fantasias. Fantasias de que o aumento de massa muscular resolverá questões emocionais profundas. Fantasias de que podemos “moldar” o corpo de acordo com nossa vontade. Fantasias de que fazer muito supino te transforma num guerreiro samurai ou num cavaleiro das cruzadas.

3, 2, 1… Dito e feito.

Num instante apareceu a dona da pilha de wheys, creatininas e BCAAs:

“Dá licença, meninas, eu preciso preparar o meu café da manhã!”
(Café da manhã = shakeira de Whey Protein)

Hum… ok. Qual a necessidade de falar sobre seu desjejum de Whey para duas garotas desconhecidas? Nenhuma. A não ser que a ideia seja provar um ponto, e eis o ponto: ter adotado esse lifestyle a torna diferenciada, portanto, especial.

Eu poderia estar exagerando, não fossem mais duas ocorrências.

Um colega de trabalho dela, que apareceu com um pacote de pão de queijo e foi recebido por sonoros berros de:

“Saia daqui com esse LIXO!! Sabe o que é isso que você tá comendo? Carboidrato refinado!! Tira isso da minha vista! Comida liiiixo! Eu não vou ficar na mesma sala que essa porcaria!”

Ela estava ofendida, chocada, ultrajada, escandalizada… Por um pão de queijo.

Enquanto circulava por ali, escutava a moça falando (alto) sobre seu treino no dia anterior na academia. Academia. Academia. Academia.

Me aproximei, pedi um pouco de café. Ela me disse “Ai, então o seu corpo ainda tem a necessidade de cafeína?”. Respondi sucintamente que sim. Se tivesse dado abertura, ela teria começado a me narrar o seu processo detox-monstro e como ela chegou ao pleno estágio de independência de alimentos. Coisa que naquele momento, naquele contexto, naquela manhã, confesso que tive preguiça de ouvir.

Agradeci pelo café. Fugi. Para as colinas.

Não vou entrar no mérito eficácia do Whey Protein, ocasiões em que verdadeiramente cabe a prescrição do produto ou o uso indiscriminado de suplementos alimentares, que tem preocupado, inclusive, o CFN. Isso pode ser lido aqui. E aqui.

(Não me parece nenhum mistério compreendermos que substituir 5 refeições diárias por Whey Protein + Clara de ovo + frango sem tempero + batata doce não é uma prática alimentar saudável e variada…)

O que eu achei verdadeiramente curioso foi ter observado como aquela pilha de suplementos…se assemelhava a um altar.

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(Pode ser que a semelhança não seja coincidência…)

Um altar para glorificar a massa magra.
Um altar para glorificar a proteína pura e imaculada.
Um altar para glorificar a prática devocional de construir um “corpo perfeito”.

Já escrevi sobre culto ao corpo aqui. E quando digo “culto”, me refiro ao sentido pleno da palavra.

O olhar daquela moça era o mesmo que se encontra na face das pessoas que tentam entregar exemplares da revista “Sentinela” quando caminhamos pelas ruas.

(“Licença, você já pensou para onde irá depois que morrer?”)

Seja numa pequena seita, seja num grupo sectário de prática de yoga, seja numa exclusiva oportunidade de independência financeira, existem elementos em comum: o sentimento de pertença a um grupo iluminado, a sensação de que “o mundo não entende”, práticas devocionais típicas, mudanças radicais de comportamento, padrão de pensamento inflexível. Lavagem cerebral detected.

Por isso, que quando falamos sobre o Whey, a reação é normalmente tiro, porrada e bomba.

“NÃO FALA do meu Whey!!”Porque o Whey Protein é o estandarte absoluto da busca pelo corpo perfeito. É a substância que simboliza os guerreiros definidos e fortes e o combate à terrível gordura que contamina as formas corporais.

Um argumento que eu acho interessante é o tal do “fala mal de suplemento e bebe cerveja na balada”. Também existe a variação “come fast food” ou “fuma cigarro.”

Segundo a Anvisa:

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(Três palavras: “atletas”. “Auxiliar”. “Complementar”. Lembremos que cerveja, fast food e cigarro NÃO se apresentam como produtos que auxiliam no desempenho esportivo ou que complementam a alimentação. Cerveja e cigarro são drogas lícitas. E se alguém está desejando aumentar a massa magra através do consumo de Fast Food, sinto informar, mas não vai dar certo. Portanto, não há comparação entre produtos com identidade e função completamente diferentes.)

A argumentação é completamente sem sentido… se desconsiderarmos a sua implicação moral. Tudo se encaixa se lembrarmos que: A geração Fit não é do mundo. Não se entrega às coisas do mundo. Não se comporta como os degenerados que fazem uso de substâncias que profanam o corpo.

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(Há algumas gerações, a preocupação era a profanação da alma. Por darmos abertura ao pecado.Só que pecado, no século XXI é: cerveja e hambúrguer)

Wheey

(Livre adaptação da oração à São Miguel Arcanjo. Pode parecer piada, mas já vi muitas dessas palavras circulando pelas redes sociais. Eu apenas compilei.)

“NÃO FALA do meu Whey!”. Pois é. Falei.

No aguardo do lançamento de muitos forninhos pesados.

Atualização: por motivos de reclamações, esclareço: todos sabemos que Yôga é uma prática milenar e válida de sabedoria oriental e autodescoberta. Me refiro a grupos sectários que distorcem a filosofia e promovem práticas controversas. Dahn Yoga é um exemplo. Há outros que seguem o mesmo estilo. Um depoimento de uma ex-participante pode ser lido aqui.

 

 

 

 

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36 ideias sobre “Wheynite.

  1. Thais

    TEXTO EXCELENTEEEEE, WHEY PROTEIN NÃO É COMIDAAAAAAA E EU NÃO SOU ATLETA OLÍMPICAA E LAVAGEM É SÓ DE ROUPA E NÃO DE CÉREBRO!!

    BITOLAÇÃO fitness, zen, política, religiosa. AI QUE PREGUIÇA!!

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