Em tempos de “desafio sem make”

Sou administradora de um Blog, um Instagram e uma Fanpage que questiona padrões midiáticos de “sucesso” e “beleza”. Por motivos de ter mexido num descomunal vespeiro, eu recebo muitas criticas (“ela tem uma visão muito radical”, “ela glorifica a obesidade”, “ela favorece a autopiedade”, “ela é hipócrita”, “ela é oportunista”, “ela defende a feiura”, “discurso de fracassada”… yada yada)

A quase totalidade das críticas à minha pessoa se enquadram dentro do que eu chamo de Fenômeno do mimimi-Mas (leia mais aqui).

Quando uma garota questiona as crenças fundamentais sobre beleza/valor pessoal, há duas alternativas de reações negativas possíveis:

a) O problema é que ela é feia:

“Você faz isso porque é amargurada por não ter lugar na sociedade, me perdoem as feias mas a beleza é fundamental. Toda feia é mal amada e recalcada blablabla”

b) O problema é que ela não é feia:

“Ai, mas você está imersa em privilégio social. É muito fácil para você falar, porque o mundo nunca te fechou as portas. Você é magra, branca, bonita, ________ (complete aqui). Você não tem moral para entender o sofrimento das pessoas e é uma hipócrita.”

A questão aqui é que esse tipo de argumento tira o foco do discurso e reforça a ideia de que a nossa aparência é moeda de valor. Ou seja: quando você é uma mulher, a parte que SEMPRE vai interessar é discutir se você é bonita ou feia, velha ou jovem, gorda ou magra, elegante ou mal vestida. E nenhuma das alternativas nos liberta para sermos reconhecidas por outras qualidades não visíveis.

Eu costumo ignorar o blablabla em torno da minha pessoa porque tentar discutir equivaleria ao esforço de dar murro em ponta de faca. Só que recentemente um comentário sobre mim, de modo particular, foi muito interessante. Creio que vale a pena discutir, até por estarmos em plena época de “Desafio Sem Make”:

“Ela fala contra padrões e usa maquiagem para sair.”

Sim, Brasil: eu uso.

A questão não está na maquiagem por si só. Rímel é só rímel. Batom é só batom. O fator pressão social ou libertação reside no uso que se faz dela.

É diferente usar a ferramenta como adorno, para favorecer e realçar… Do que que como uma necessidade, para cobrir e corrigir o rosto que consideramos “inaceitável”.

O uso da maquiagem é milenar, diga-se de passagem. E originalmente nem era “coisa de mulher”. É ritualístico. É simbólico. Existia antes de: ser mercantilizado, encerrar todos  os rostos femininos numa linha de montagem e movimentar uma indústria de bilhões de dólares.

(Ramsés II, trabalhado no delineador, por volta de 1200 a.C.: “porque você vale muito”)

Eu gosto, de modo particular, de pintar os olhos. Explico por que:

Há alguns anos eu estudei dança clássica num conservatório em Madri e eu tinha uma professora que me gritava “Ojos! Ojos! Ojos”

Ela não cobrava as coisas típicas que precisamos controlar quando dançamos Ballet: postura, pescoço, ombros, mãos, pés, quadris, joelhos etc.

Ela sempre dizia: “tienes que bailar com tus ojos.”

“Dançar com os olhos”? Na época, eu não entendia.

Mas me lembro dela. Ela penetrava a minha alma como um tiro de flecha, cada vez que me olhava. Eu não conseguia identificar a origem de tanto poder. Mas eventualmente descobri que… eram os olhos. Era confiança.

Os nossos olhos refletem vulnerabilidade, serenidade, medo, convicção. Está tudo ali. Basta ler.

Os olhos são ferramentas fundamentais de autoexpressão. Eu sinto necessidade de me expressar. Verbalmente ou não. E por este motivo, eu gosto de ressaltar meus olhos.

“Os olhos são as janelas da alma”…e eu gosto de enfeitar as minhas janelas (já expliquei anteriormente neste Blog que eu não sou uma pessoa utilitária. Eu troco estofado e penduro badulaques nas janelas. Só porque deu vontade).

(badulaques na janela me representam)

Eu gosto de pintar os olhos para ocasiões especiais, e quando dou palestras. E também tem outra questão: não sigo tutoriais. Simplesmente porque eu prefiro as minhas cores, meus traços, minha história. Por isso eu tenho uma coleção de delineadores coloridos. Eu acho justo carregar as cores do arco-íris nas minhas feições.

(É tão lindo no céu, por que não posso ter no meu rostinho?)

E isso não faz de mim uma hipócrita. Ou alguém que não tem “moral para” ou “direito de” questionar padrões.

Porque há mulheres gostam de enfeites, adornos, se embonecar. O que eu questiono é o papel central que isso tem nas nossas vidas na sociedade contemporânea. Eu apenas não acredito na estética como finalidade única de todas as aspirações, desejos, esperanças e esforços.

O doutrinamento para que sejamos bonecas de porcelana nos tira poder e voz na sociedade. Dedicação exclusiva à manutenção da aparência é uma questão de importância política.

E o ponto não é definir ou discutir se a pessoa é gorda, magra, feia, bonita, usa maquiagem, se depila, usa salto alto, adereços, pinta o cabelo e blablabla… Porque esse tipo de argumentação transforma a nossa aparência na nossa identidade

A pessoa que eu sou não é determinada pelas minhas práticas de cuidado corporal.

Eu tenho preguiça de ter cabelos longos. Uso maquiagem ocasionalmente (quando me apetece). Não gosto de salto alto… E daí?

São apenas preferências. Não há nada que signifique que eu aceite o jogo social de ser julgada e definida pelas minhas características corporais.

Gosto de delineador rosa pink? Sim, eu gosto. No entanto, eu quero ser lembrada e reconhecida por qualidades que não irão se esvair com os anos. Eu vou envelhecer, “perder” meus encantos de moça e ganhar novos, de senhora. Não tenho medo desse dia e não tenho a menor intenção de me envergonhar, negar ou esconder as marcas que virão com a idade.

liv tyler

(Francamente, Liv Tyler, que vergonha!!!)

A questão aqui é ser amiga do próprio corpo. Entender, assimilar e administrar como preferir o conjunto de características que recebemos na grande e misteriosa loteria genética da formação dos corpos. Depilação, maquiagem, alisamentos, salto alto, jóias, roupas… Tudo isso é decisão privada. E ninguém é obrigada a fazer/usar o que não quer/não gosta.

Nas palavras do sucesso, meu povo: eu não sou obrigada a nada! xD

O desafio que proponho é desviar a atenção das nossas características físicas e pensarmos em algumas das do tipo invisível.

 

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15 ideias sobre “Em tempos de “desafio sem make”

  1. dhiessica

    Comecei a usar base corretivo pó e essas coisas todas muito nova com 10 anos e a pintar o cabelo com 12(cabelo rosa, roxo, azul, laranja…nunca gostei de ficar com cores”normais”. Me criticavam bastante (seu cabelo vai cair!!! Vai ficar careca! !)(vai ter espinhas!!! Vai envelhecer rápido! Vai manchar a pele….) não tive nada disso ter espinha sempre foi raro, meu cabelo não caiu não estragou (meu cabelo apenas caiu porque PAREI DE COMER ISSO SIM CAI CABELO E ME DEIXOU QUASE CARECA DE VERDADE). Só que a questão principal eu usava coretivo de pele porque achava minhas bochechas muito vermelhas e parecia que eu tinha levado chinelada na cara (sério e eu odiava isso) por isso a maquiagem… hoje não uso mais tanto, notei que estava dependente disso. No começo todo mundo falou MEU DEUS VOCÊ ESTÁ SEM MAQUIAGEM?? POR QUE NÃO PASSA? FICA COM CARA DE SALDAVEL! Despedaçou minha alto estima que nunca foi alta mesmo (tentando melhorar) mas segui em frente e passo muitas poucas vezes na semana dependendo do humor..

  2. Tatiana Saito

    Amo muito o seu blog! Vivi a vida toda no dilema “emagreço ou me aceito assim?”. Já decidi que me aceitar é o principal, mas de vez em quando “esqueço” e me pego pensando em coisas do tipo “quando eu estiver magra…” como se isso fosse mudar alguma coisa.

    Lendo esse post, entendi perfeitamente o que você quis dizer. Usar a maquiagem é uma coisa, depender dela é outra. E existe um transtorno de imagem, como anorexia, onde a pessoa se acha tão horrível que sente que precisa passar muita maquiagem todos os dias, senão será aceita. E, como no caso da anorexia, a pessoa é super saudável, bonita, gente como a gente!!

    Não temos que lutar contra a balança, a academia, os centros de estética ou a maquiagem. Temos que lutar contra essa imposição de sermos idênticas para sermos algo!!

  3. Amanda Marques

    Tava lendo o post e lembrando que um dia desses na faculdade me perguntaram como é que eu conseguia ir pra aula sem maquiagem. Como se fosse uma obrigação, ter que esconder os resquícios de acne que a adolescência me trouxe ou as olheiras por passar tempo demais estudando pra cálculo e de menos dormindo. Minha respota foi: como é que vocês conseguem se maquiar tanto, todo santo dia pra vir pra aula? Aonde encontram tanta motivação?
    – Sério, pra mim pior que passar a maquiagem é ter que tirar ela depois sakas? só pra ocasiões especiais mesmo, pq olha que preguiiiiiiça! Kkkk

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