“Pessoas não são partes.”

Nessa semana uma colega muito ilustre me mostrou uma imagem que apresenta um conceito interessante: “pessoas não são partes”:

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De fato. Fomos fragmentadíssimos.

Há um tempo já discorri sobre isso, mas falemos sobre o fenômeno de novo. Acho interessante que a perspectiva mecanicista de compreender o ser humano como um conjunto de sisteminhas nos fez perder o sentimento de completude… E como isso é mercadologicamente interessante.

Sempre menciono isso quando dou palestras sobre representação midiática.

Se chegarem para você, leitor (a), e disserem:

“_____________ (seu nome aqui), seja bonitx.”

É uma tarefa administrável, não? Podemos tomar um banho, arrumar o cabelo… no caso das mulheres, pintar as unhas, um pouquinho de rímel… Voilá. Já nos sentimos um pouco mais bonitinhos.

Agora a coisa muda de figura, se a mensagem for:

“ ___________ (seu nome aqui), tenha:

Cabelos bonitos;
Pele bonita;
Cílios bonitos;
Nariz bonito;
Boca bonita;
Dentes bonitos;
Pescoço bonito;
Peito bonito;
Axilas bonitas;
Cotovelo bonito;
Mãos bonitas;
Unhas bonitas;
Glúteos bonitos;
Coxas bonitas;
Genitais bonitos (!);
Joelhos bonitos;
Pés bonitos;
…Etc, etc, etc.”

…Já deu para ficar bem loucx, não?

Acontece que não importa a sua loucura, nem os seus sentimentos e nem a dificuldade de realizar a tarefa. O que importa é que cada parte necessita de um produto exclusivo. E cada produto desse custa dinheiro, é claro.

As exigências de beleza terrivelmente específicas, são mais caras.

Nós nos sentimos um grande conjunto de pequenas partes que precisam de manutenção. Para que sejam observadas pelos outros. Resultado disso? Ansiedade, insegurança, perda da noção de identidade, perfeccionismo, constante insatisfação.

E é a insatisfação, meus caros, que faz a grande engrenagem cosméticos-cirugias-fitness-dieta girar. Crê que tudo se trata de fazer você mais poderosx, lindx, confiante e feliz?

…Não!

Apenas: ♫$$ money money money money money money money $$

A técnica empregada? Falso empoderamento. Ou seja: parece que seguindo o discurso você se tornará segurx, resolvidx e feliz. Mas na verdade fica: insegurx, hesitante e insatisfeitx.

A hiper-fragmentação de corpos humanos não acontece somente em termos de cosméticos ou cirurgias plásticas. Envolve também dieta e atividade física.

Para compreender, é válido ler este texto.

Sofremos pressão de todos os lados para que tenhamos o corpo perfeito, a conduta perfeita, o emprego perfeito, o relacionamento perfeito, o comportamento perfeito… E a rotina alimentar perfeita. Isso significa seguir uma dieta hiper-científica e hiper-planejada e que fará hiper-benefícios-específicos para cada micro-função do seu corpo. Já mencionei que tenho um amigo no curso de Nutrição que chama isso de “Lego Nutricional”.

(Micro-etapas. Micro-elementos. Micro-peças… Tão difícil!)

A prática de atividade física também não é diferente. Antes do advento das academias de ginástica, no início do século XX (que sofreram maturação entre as décadas de 30 e 80), movimentar o corpo era uma coisa que se fazia como um todo. Esportes coletivos, atletismo, natação, dança etc. Vários grupos musculares estavam envolvidos na tarefa, mesmo que não soubéssemos minuciosamente QUAIS e mesmo que fosse deixada a desejar a hipertrofia do esternocleidomastoideo.

Hoje, em 2014, é In: trabalhar todas as mais remotas partes do seu corpo e todos os grupos musculares. Uma de cada vez. Como mencionei ali em cima, fazer a manutenção de um corpo fragmentado é muito mais dispendioso e torna a pessoa suscetível ao apelo de centenas de produtos/serviços em nome de abdomens, quadríceps, glúteos, tríceps, bíceps, trapézios *et cetera* dignos de serem exibidos na praia (assim se compreende a nomenclatura militar dos perfis fitness: corpo “perfeito” é meta, missão, projeto e LUTA).

(Projeto corpo perfeito: não esqueça de nenhum pedaço!)

E isso estressa? Arrisco responder que sim, e muito. Fragmentos de exigências, fragmentos de expectativas, fragmentos de tarefas para serem seguidas: ninguém merece, ninguém sobrevive, ninguém consegue. Porque não somos feitos para isso.

Uma sugestão?

Junte os cacos. Como quando a nossa mãe mandava pegar os brinquedos que a gente espalhava pelo chão e guardar no baú. Veja-se como uma pessoa completa e, principalmente, descomplique!

A vida é curta demais e oferece muita coisa boa para que fiquemos desesperadxs por um joelho sem rugas.

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8 ideias sobre ““Pessoas não são partes.”

  1. Gracieli

    A felicidade começa, de dentro para fora, a mente tem que estar boa para que o corpo responda. Qualidade de vida teria que ser direito pra todos.
    O ser humana não nasceu para sentir dor, por isso academia para quem não é treinado parece ser tão ruim, por isso existe a adaptação gradativa, que o seu personal não deve ter feito com você. você esta certa quando não deixa de comer o que te da prazer desde que seja pequenas porções.
    então se sinta bem e não deixa de fazer aeróbico e malhar .

  2. Julia Arostegi

    É muita crítica.
    Depois de passar metade da vida ODIANDO esportes, fui perceber que o que eu odiava era esporte “de time”. Porque a gordinha é sempre a última a ser escolhida e a mais criticada por qualquer erro (meu deus, quantas vezes gritavam o meu nome seguido por xingamentos na aula de educação física…). Só depois dos vinte anos que fui descobrir que pra mim o problema era esse, e que na verdade eu adoro nadar, andar de bicicleta e, especialmente, correr!

    Mas nada nunca é o bastante para “os outros”.
    Ah, tá correndo? É pra emagrecer, né? (Não.)
    Mas não pode só correr! O que emagrece mesmo é “fechar a boca”. (Fecha a boca você e pára de me encher o saco.)
    Não pode só correr e fazer dieta, vai emagrecer e ficar pelancuda. Tem que puxar ferro. (Nossa, odeio academia!!! é um passo acima no problema do “time”: gordinha na academia é tipo o fim da cadeia alimentar. Já tive um ‘personal trainer’ que em vez de me mostrar como fazia os exercícios veio direto me dizer que eu era “vagabunda”, sem nem me conhecer, só por causa da minha aparência – que não é obesidade mórbida nem nada, mas parece que dentro da academia qualquer defeito é aumentado mil vezes).

    É incrível o tamanho da atenção que os outros parece que ficam prestando na gente, né?
    Já é difícil começar a fazer algum exercício que seja. Agora, com essa lista de exigências, dá vontade é de desistir. Parece loucura, mas demorei anos pra chegar à conclusão de que: eu vou fazer o que eu gosto e o que faz eu me sentir bem. Não, não vou puxar ferro. Não me importo que o meu tríceps não esteja ficando delineado só com a corrida. Danem-se todas as seções de cross training do mundo.

    Isso que eu nem quero mais emagrecer, só quero ser mais saudável. Ninguém acredita quando eu digo isso (como pode ser possível ser gorda e não querer emagrecer?). Mas fod@-se. Eu saio pra correr 5km e depois tomo um sorvete. Sensação maravilhosa.

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