Nutrição e cultura: uma relação fundamental

Hoje pela manhã eu estava no mercado municipal fazendo um trabalho de educação nutricional e fui abordada por uma mulher de 39 anos, muito querida e muito interessada em alimentação saudável e nas coisas que tínhamos para explicar.

A minha tarefa, num primeiro momento, era falar sobre a quantidade de gordura presente nos alimentos industrializados e sobre como o alto consumo desses produtos está causando diversos problemas de saúde para a população brasileira, como obesidade, dislipidemias e cardiopatias.

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(O ser humano é o único animal que se alimenta de coisas que vêm na caixa…)

A verdade é que temos um preocupante problema de saúde pública intimamente relacionado com hábitos alimentares. Ou seja: as doenças crônico-degenerativas que sobrecarregam o SUS e comprometem a qualidade de vida da população poderiam ser evitadas ou amenizadas por hábitos alimentares mais saudáveis.

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Conversa vem, conversa vai… E paramos de falar sobre o produto industrializado em si e passamos a conversar sobre:

– Como nos metemos nessa encrenca?

Eu falei sobre como a nossa sociedade é obesogênica e ao mesmo tempo poupadora de energia.

Temos constante acesso a uma verdadeira abundância de alimentos. Basta estendermos a mão e conseguimos comida. E essa comida é industrialmente processada e com baixo valor calórico e com muita densidade energética. E ao mesmo tempo em que estamos cercados de uma variedade enorme de alimentos, a estrutura urbana ao nosso redor cria inúmeros recursos poupadores de energia como elevadores, carros, controles remotos, videogames e compras pela internet. Além de tudo, existe a situação de violência urbana, a insegurança e da falta de estrutura pública para atividades de lazer… Hoje em dia, quem pode deixar que crianças corram e brinquem livremente por aí?

Eu falei sobre a transição nutricional.

A pessoa que conversou comigo é formada em pedagogia e foi professora da rede pública por muitos anos. Ela disse que há 20 anos, quando trabalhava, a desnutrição e o baixo peso eram um problema muito frequente entre seus alunos. Naquela época, o maior desafio da ciência da nutrição era reverter o quadro de insegurança alimentar. Hoje em dia, eu estou na faculdade de nutrição e nosso maior desafio é encontrar mecanismos para combater o avanço do sobrepeso e da obesidade na população brasileira, inclusive entre as crianças em idade escolar. Hoje em dia as crianças têm doenças que décadas atrás apareciam no exame de sangue dos nossos pais e avós: colesterol alto, diabetes adquirida, dificuldades respiratórias e até cardiopatias. No século XXI o acesso ao alimento é pleno, porém este alimento é de má qualidade e seu consumo a longo prazo causa danos à saúde (aqueles que eu estava mostrando no início da conversa que têm muito açúcar, muito sal e muita gordura na composição).

Eu falei sobre a cultura alimentar da civilização ocidental contemporânea.

Eu também comentei sobre como o nosso paladar (nós, ocidentais contemporâneos) é educado para muito açúcar, muito sal e muita gordura nos alimentos (a gordura é realçadora de sabor). Temos a língua treinada para perceber dois sabores universais para nós: MUITO DOCE ou MUITO SALGADO. Por causa disso, não percebemos o gosto do alimento que estamos consumindo, mas sim do tempero que vai nele. Quando trabalhamos com crianças, fazemos sucos de cenoura com limão, ou de mamão com laranja e a esmagadora maioria delas reclama que não tem gosto. Não sentem. Estão muito acostumadas com as bebidas industrializadas hiper-açucaradas.

Por falar nisso, está acontecendo uma introdução cada vez mais precoce das crianças aos alimentos industrializados.

As crianças de hoje são uma geração-teste. Diferentemente dos adultos de hoje, há crianças que consomem alimentação 100% industrializada desde a mais tenra idade. Não sabemos como será o futuro delas. É a primeira vez na história em que isso está acontecendo. Talvez vivam menos que seus pais. Ou com uma pior qualidade de vida.

Eu falei sobre a perda do valor social da comida

Até o século passado, a cozinha constituía um importante núcleo familiar. A mesa reunia os membros da família para celebrar e manter vínculos. Atualmente, a vida neoliberal urge. Tempo é dinheiro. Comida é fardo. O tempo que gastávamos comendo, trocando experiências e celebrando deve ser convertido em produtividade (ou seja, produtividade é galgar carreira. É engolir um salgado no lugar do almoço. É saber o que um verdadeiro LÍDER faz quando os outros estão saboreando refeições: ele não perde tempo com ninharias. Ele é um empreendedor).

Por isso as cozinhas dos novos apartamentos para as novas famílias tornaram-se menores, impessoais e industriais. Foi-se o tempo da Tia Anastácia. Foi-se o tempo de escutar as histórias da Dona Benta. Foi-se o tempo em que fazíamos a nossa própria comida.

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Eu falei sobre a perversidade da mídia

Existem muitas indústrias multimilionárias que lucram a partir desse caos alimentar que estamos vivendo. O mal estar na civilização é o cenário perfeito para ganhar dinheiro em cima da insatisfação das pessoas. Com toda essa hecatombe cultural, o circo está armado para os livros de dietas do Dr. Fulano, as receitas milagrosas, as revistas, os remédios, os shakes, as cintas modeladoras, as aulas de aeróbica, os cremes anti-celulite, os shows de TV sobre emagrecimento, as celebridades que ganham a vida através de um “corpo bonito”, o jabá no Instagram e aquele aparelho de ginástica exclusivo que cabe embaixo da sua cama.

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(Parece tudo muito verídico…) 

Queremos muito combater a obesidade, as dislipidemias, o colesterol alto, as cardiopatias, o diabetes. Queremos tanto, que criamos um verdadeiro cenário terrorista dentro do qual confundimos tratar a doença com atacar o portador. Isso se chama Lipofobia. Sentimos verdadeira abominação pela gordura na comida, no nosso corpo e no corpo dos outros. Queremos educar, mas o tiro saiu pela culatra e como resultado, estão todos ansiosos, confusos, com profunda insatisfação corporal, culpa, medo e sem saber o que comer.

Pois é. Falamos de tudo isso. E essa é a ponta do iceberg. Há muito para ser contextualizado, estudado e compreendido sobre os nossos hábitos alimentares e os valores que fundamentam nossas escolhas. Nutricionista precisa conhecer (ou pelo menos se interessar por)  história, sociologia, economia, antropologia, psicologia, atualidades, política. Precisa sim. Não teremos poder de transformação algum se não soubermos as causas e as consequências da situação que estamos vivendo.

Por isso, hoje o meu coração pulou de alegria quando eu recebi esta mensagem da leitora Isabela Ottoni, que é nutricionista:

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Este artigo sobre cultura alimentar fez meu coração vibrar e acreditar que existem mais profissionais por aí que desejam sair do lugar comum “valor calórico-gasto energético-Selfie- projeto verão- projeto calça 36”.

Sim, Isa! Vamos mudar o mundo. Nem que seja eu e você. E nem que seja o mundo de UMA PESSOA. Como aquela que conversou comigo hoje no mercado!!

Nutrição e cultura: têm tudo a ver!

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25 ideias sobre “Nutrição e cultura: uma relação fundamental

  1. saudenapanela

    Concordo plenamente com TUDO que você escreveu, acabei de me formar em nutrição, e sem dúvidas sou mais uma fazendo o trabalho de formiguinha de tentar reverter essa situação! E vamos seguindo de grão em grão que uma hora conseguimos!

    Aline

  2. Amanda Marques

    Concordo em gênero, número e grau. Nutrição é totalmente cultural, tem até um documentário famoso (que eu me esqueci o nome agora) que mostra que os pais põe toddynho e biscoito recheado pros filhos levarem de lanche para escola porque se levarem suco natural e fruta os colegas e a professora podem pensar que a criança tem menos condição financeira que as outras e tals…
    Pelo menos na minha vida o seu blog tem feito diferença e sempre serei grata por ele existir 🙂

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