“Arrependa-se! Prive-se! Morra de fome!”

Interessantes são as dietas em que o foco é emagrecer. Não importando mudança de hábitos, nem melhora na qualidade de vida, nem promoção da saúde. Há muitas dietas desse tipo.

Também é interessante o efeito rebote decorrente da restrição e da mudança radical de rotina, que é fisiológico, inevitável e frequentemente confundido com “falta de força de vontade”. Ou seja: se você não conseguiu permanecer naquela dieta do suco de alcachofra por nove dias, é uma fraqueza de caráter. E a culpa é sua.

Segue trecho do livroMulheres, Comida & Deus, de Geneen Roth:

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“Minha dieta favorita foi a ‘dieta cigarro, café e soda diet’. Um psicólogo famoso chamado Bob me falou dela em um verão quando eu estava no segundo ano da faculdade. Bob, que chegara a pesar 180Kg, agora era esplendidamente magro graças a essa nova invenção; a ‘Dieta Marrom’: 3 maços de cigarro e 12 xícaras de café por dia. Ponto.

‘Uau!’, eu disse a Bob em um restaurante enquanto eu me enchia de bolinhos lambuzados de manteiga e ele tomava café e fazia anéis com a fumaça do cigarro. ‘Finalmente! Uma maneira de ser magra!’.

Bob balançou a cabeça vigorosamente. Mergulhado em cafeína suficiente para explodir uma usina nuclear, seus movimentos lembravam os de um maníaco: os pés batiam no chão enquanto ele falava, as mãos faziam círculos no ar. Então ele disse: ‘Funciona mesmo, Geneen, perdi mais de 100Kg. E o melhor é que não tem nada complicado. Não é preciso mastigar nada. Não precisa lavar pratos. Nenhuma louça. Qualquer um em qualquer lugar pode ficar magro com essa dieta!’.

Por isso, no dia seguinte comecei a Dieta Marrom, acrescentando a soda diet, embora ela não seja marrom. Fui fiel ao programa durante três semanas e perdi muito peso, como você pode imaginar. E como nunca dormia, consegui realizar muitas tarefas até então desafiadoras como ler O Conde de Monte Cristo e tricotar um xale de lã.

Mas esse não foi o único programa que encarei seriamente. Todas as vezes que ouvia falar de um novo regime – Dieta do Frango Frito, Dieta do Sundae, Dieta das Uvas e Nozes –, encarava o desafio com entusiasmo, até mesmo com reverência. Eu adorava que me dissessem o que fazer. Parecia que havia alguém no comando. Alguém havia analisado a situação, entendido a confusão em que eu me encontrava e descoberto a resposta. Proteína. Massa. Comida crua. Cocô de rouxinol. Não importava. Eu me dispunha a abandonar a dieta desta semana pelo seu oposto na semana seguinte porque ‘alguém havia dito’. Eu achava reconfortante acreditar que se fosse fiel e obedecesse à ‘palavra’, encontraria a salvação – a paz do ódio implacável que sentia por mim mesma e que eu acreditava que era provocado por meus culotes.

A verdade é que todas as dietas que eu começava funcionavam incrivelmente bem. Eu sempre perdia peso e sempre encontrava redenção porque as regras eram muito claras:

– Arrependa-se!
– Prive-se!
– Morra de fome!

Até eu não aguentar a privação por mais um minuto sequer. Nenhum. No meu limite, eu me tornava o oposto de mim mesma. A ordem transformava-se em caos; a restrição, em abandono. Como um lobo em noite de lua cheia, eu me transformava em uma criatura da noite, um ser selvagem que pouco lembrava o ser humano diurno. Eu rasgava e abria caixas, latas e sacos de comida com uma voracidade tão intensa que parecia que não comia há anos. Depois de dezoito meses vivendo com alimentos crus e sucos, passei dois meses ingerindo pizzas inteiras e pedaços de salame. Depois de três semanas da Dieta Marrom, passei seis semanas comendo dúzias de donuts de uma só vez. Então, com a mesma rapidez que havia começado, o amanhecer rompia o transe e eu voltava a ser civilizada.”

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(A voracidade do lobo faminto…)

Essa narrativa, infelizmente,  é muito comum no cotidiano de muita gente. Centenas de pessoas se encontram nesse ciclo de dieta e ódio ao próprio corpo, recusando habitar a própria pele e entrar em contato com seus próprios mecanismos de fome, saciedade ou mesmo sensações corporais básicas.

A cultura do ódio ao corpo e consequentes tentativas de modificá-lo promovem entorpecimento. Quem nega seus culotes, seus braços e sua barriga também nega a experiência de sentir que está viva. Caminhamos contra o vento, pisamos no chão, carregamos crianças nos braços, nos banhamos de sol ou de chuva, digitamos, dirigimos, trabalhamos, respiramos… E não percemos e não sentimos que nada disso está acontecendo. Porque as sensações corporais são absolutamente nulas. Falta de consciência corporal é um fenômeno muito comum e somos, inclusive, treinados para isso. Quando alguém está “fora de si”, fica mais propenso a aceitar sugestões que vêm de fora (e você paga por elas, claro!)

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(Você vive no seu corpo?…E esse corpo, vive?)

Quantas pessoas há, que por causa da nossa mentalidade de auto-negação, comem sem comer, sentem sem sentir? Olham sem olhar?

…Vivem sem viver?

 

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5 ideias sobre ““Arrependa-se! Prive-se! Morra de fome!”

  1. Amanda Marques

    “Parecia que havia alguém no comando. Alguém havia analisado a situação, entendido a confusão em que eu me encontrava e descoberto a resposta.”
    Exatamente! É uma falsa busca de controle, já que nada mais dá certo, pelo menos a comida é “controlada”.
    Porém esquecemos que disciplina é diferente de rigidez. Ser disciplinado é ter um equilíbrio alimentar sem neuroses, ser rígido é fazer dietas enlouquecidas, ou enlouquecedoras. Pelo numero de revoluçoes, guerras e protestos, vemos que nem historicamente a rigidez consegue ser mantida a longo prazo. Quem dirá na alimentação.

  2. Erika Elenbaas

    Que post maravilhoso! Realmente a consciência corporal é uma das maiores perdas quando não aceitamos o corpo que temos e quando seguimos dietas que não nos ensinam a entender as nossas necessidades. Parabéns!

    Erika
    Brigadeiro de Alface

  3. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Alessandra!

    Essa é realmente uma questão muito complexa pois a pressão em torno da “boa aparência” deixa a população, de fato, doente. Há muitas pessoas vivendo esse seu sentimento. Creio que é necessário compreender que estamos comparando os nossos bastidores com o espetáculo da mídia. Estamos usando imagens irreais e desleais de um padrão de beleza tremendamente restrito como parâmetro de comparação para nossa pessoa mortal e imperfeita. Os modelos que nos são apresentados do que seria “o bonito” ou “o aceitável” não representam a verdadeira diversidade de corpos que há no mundo.

    Acreditar na mensagem que nos é passada de que ser “bela” (dentro de critérios específicos e inatingíveis…) é ser feliz provoca o efeito contrário: ansiedade e infelicidade.

    A nossa alimentação deve estar em favor da nossa saúde e não estar atrelada a motivações estéticas, que torturam e nos fazem até passar fome.

    A ditadura da beleza é muito cruel e o caminho para termos paz é romper com ela. Nada de bom nos acontece quando somos nossas inimigas e detestamos nossa imagem no espelho.

    Te desejo sorte! Não chore! Observe as fotos e procure por qualidades ao invés de defeitos! 😉

  4. Alessandra Mussi

    Mas o que fazer quando você se olha no espelho e se sente uma “baranga”? Quando vê suas fotos e tem vontade de chorar?

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