Pulsão de Morte e tênis fofinhos

Como comentei anteriormente, eu retomei as aulas de ballet clássico e por isso eu estou usando sapatilhas de ponta todos os dias. Até que os pés se habituem e criem suporte muscular (e calos!) há que se sentir um certo desconforto físico, essa sensação dura alguns dias.

Essa coisa dói…

Só que na semana passada eu cometi um gravíssimo erro na escolha dos sapatos que usaria no meu local de estágio, para onde me direciono diariamente a pé. Eu optei por um par de botas, e num momento de sono e delírio (ou delírio provocado pelo sono…) eu subestimei o saltinho e a sola dura da bota.

Saí andando pelas ruas com meu sapato duro e senti: DOR. Dilacerante, corrosiva e quase insuportável. Gente, como os meus pés doíam.

Eu já estava longe de casa e, se voltasse, me atrasaria. Parei por alguns momentos para LIDAR com aquela situação que estava vivendo: faltava metade do caminho e meus pés doíam como se eu estivesse pisando em brasa.

Foi então que eu, numa barganha interna, me propus uma motivação barata:
“Fim da linha, querida: No Pain, No Gain.” (sem dor, sem ganhos)

(Já vi isso circulando na internet uma vez ou outra… ouvi dizer que tá na moda)

Feita a decisão de encarar a dor, enquanto a experimentava, fiquei pensando em como é curiosíssimo o fato de que filosofias de flerte com o sofrimento tenham se misturado com o discurso de profissionais da área da saúde (particularmente educadores físicos e nutricionistas).

O nosso aparelho psíquico, normalmente, tende a fugir do desprazer para se preservar e para isso, é preciso romper com as vivências desagradáveis ou dilacerantes. Mas há casos de compulsão pela repetição de experiências dolorosas, do sentimento inconsciente de culpa e da necessidade de punição/sofrimento. Freud definia  tais fenômenos de repetição de tendências mortificantes como “pulsão de morte”.

Nas palavras de Freud: enigmáticas tendências masoquistas do ego”

Enigmáticas, no mínimo.

Pensava em tudo isso enquanto tolerava meus pés em chamas, e decidi que não concordo com a frase “No Pain, No Gain“. Parece 100% verdadeira e incontestável, no entanto, se trata de uma falácia.

É claro que para conseguirmos resultados em todos os nossos empreendimentos, precisamos sair da nossa zona de conforto. Isso é fato. Não nego.

Porém através do amor, do prazer, do equilíbrio e da delicadeza também se constroem ganhos.

Só que nesse sentido a frase é clara: NO gain. Significa que, de acordo com tal princípio de vida, o único modo de conseguirmos as coisas seria a DOR.

(Paaaaaaaaaaaaain. DOR.)

Mas porque tudo o que a gente faz tem que sangrar, doer, torturar e nos levar à absoluta exaustão? Já falei anteriormente sobre isso, e reafirmo que tais mecanismos de pulsão de morte não deveriam estar intimamente relacionados com a promoção de saúde, boa alimentação e exercícios físicos para coletividades.

Ser saudável é agradável. Não deveríamos ter a sensação de que ser saudável é um sacrifício terrível, do qual não podemos nos afastar porque não é permitido “sair da linha”… Nem um dedinho. Quando se define saúde deste modo, algo está errado.

Eu acredito que podemos fazer conquistas de modo lúdico, harmonioso, sem automutilação e sem pressa. E através deste caminho, há sim, GAIN. Sem falar que dessa forma é tudo muito mais seguro e não favorece o desenvolvimento de condutas obsessivas, transtornos do comportamento alimentar ou overtraining.

Minhas suspeitas se confirmaram quando eu recebi um e-mail de uma leitora chamada Juliana, que teve consequências ruins para a saúde por ter se envolvido com a “filosofia fitness”. Seguem alguns trechos:

“Há mais ou menos um ano, entrei nessa de “ser saudável” e, com acompanhamento de um dono de academia, segui uma dieta hiper restritiva, de atleta mesmo, sem nem mesmo comer fruta. Gastei o que não tinha em suplementos alimentares e seguia fazendo exercícios mesmo estando exausta. Acordava 4 da manhã para ir à academia, passava o resto do dia exausta.”

“Há uns 3 meses, tive uma crise de estresse que me fez parar com tudo.
…Parei a musculação e parei com as marmitas loucas. Agora vou fazer um esporte mais tranquilo, algo que não me estimule na minha loucura, pois na academia em que eu treinava o dono da academia dizia que eu tinha que manter aquela dieta irreal o resto da vida para ficar com o corpo que eu estava. “

“Falei que a dieta me fazia me mal, e ele: ‘Mas aí você vai engordar’. Quer dizer: fique mal, fique doente, mas fique bonita!”

“Sempre segui as blogueiras fit e hoje vejo como nossa sociedade está doente, tentando controlar o corpo já que os problemas a gente não controla. Tenho raiva ao lembrar de como eu era linda e mesmo assim me escondia, meu corpo era perfeito e eu vivia sofrendo e me escondendo. E mesmo agora, que engordei, por que preciso me esconder? De quem? Quem vai se decepcionar ao me ver mais gorda? E eu? Não posso fazer natação ou me divertir por que estou mais gorda?” 

SIM, a sociedade está doente. Fanática por “corpos bonitos”, inflexível e reducionista. Flertando com a dor e com o masoquismo.
(e pois é, a moça recebeu dieta de um dono de academia…)

Naquele dia, na hora do almoço, eu tive um tempinho de passar em casa e troquei as minhas botas por um tênis gordinho. Daqueles com amortecedor bem fofinho. E voltei para o meu local de trabalho pisando em marshmallows e agradecendo pela engenhosidade humana, pois se um dia o Felippo Taglioni inventou os sapatos de ponta, alguém teve a decência de criar os amortecedores fofinhos.

(Se eu fosse pequenininha, eu dormiria num Marshmallow)

Não defendo conformismo e negligência, mas também não defendo pulsão de morte: vivemos num mundo com espaço para treino e descanso, arroz com feijão e pizza, laranja, maçã e pavê de sonho de valsa.

E claro: tênis fofinhos. Sim, meus pés doem, mas não sou obrigada a fazer penitência.

Anúncios

3 ideias sobre “Pulsão de Morte e tênis fofinhos

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Pilar! Obrigada pelo comentário 😉

    Eu já fui “nível hard” no ballet (fiz sem parar por 20 anos) e já estou bem habituada com a proteção (esparadrapo, ponteira, carne crua e outras alternativas hahaha) e com o suporte muscular que a gente precisa criar. A questão foi que eu parei por um booom tempo e agora estou retornando… Então preciso recuperar a força e a tal da memória muscular. Mas tô apanhando por enquanto! Fazia tempo que eu não subia nas pontas, talvez a melhor estratégia devesse mesmo ter ficado bastante tempo na meia ponta antes de encarar de novo =O

    Tem também uma coisa: eu estava muito habituada com a Gaynor Minden,que para mim, é mágica e perfeita hahahha

    Agora, por questões financeiras, estou usando sapatilha nacional da Capezio, que em comparação à Gaynor ( ❤ ), parecem tamancos hauahhua

    Beijão 😀

  2. Pili

    Ballet é uma das poucas coisas que se faz absolutamente sem carga/peso/etc. É vc lidando com o seu proprio peso, e ele não muda quando se está en point ou a pied plat. Permanece o mesmo. Então tudo que vc precisa pra manter uma boa meia ponta (rotaçao en dehors, colo de pé, eixo pra equilibrio) é exatamente o mesmo que se precisa pra uma boa ponta. Da meia ponta pra ponta muda muito pouco, é um pouquinho menos de atrito com o chão, um pouquinho mais de pressão nos dedos, mas nem é uma mudança tão drastica assim. Aliás… A sua meia ponta tem que estar tão bem treinada a ponto de vc achar q subir em ponta não é uma mudança drastica. Talvez seja quase uma consequencia, o proprio corpo te projeta pra cima. Por isso uma dica que levo pra vida é investir bem nos exercicios antes de calçar as pontas, priorizar mesmo!! Pq são eles que vão te dar força e técnica pra evitar grande parte da dor. Grande parte, rs… o resto é pele, dá pra previnir com esparadrapo, ponteira (pra quem gosta), etc. Como não sei qual nível de aprendizado vc ja tem, corro o risco de ser redundante, mas ainda assim quis falar pq adorei saber q vc tbm dança 🙂 beijos e bom retorno!!!

  3. renata

    Perfeito! Visão cristã, em que só com a dor é que chegaremos ao céu. O bem e o mal, o certo e o errado, enfim, dicotomias que não nos cabem, pois somos muito mais complexos que isso. Se só tem valor se sofrer, então prefiro estar desvalorizada 🙂

Os comentários estão desativados.