Vida FIT e Os três elementos de uma vitória de pirro

Já falei anteriormente sobre a tarefa de sísifo e creio que desta vez, a vitória pírrica é uma analogia cabível.

Pois afinal, o que seria uma “vitória de pirro” ?

É simplesmente um vitória com perdas irreparáveis e que ao final de tudo, culmina em prejuízo para o combatente.

É uma vitória nada grandiosa. É uma vitória…que vale por uma derrota. E tudo o que resta é um enorme dano para ser reparado.

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(Ooi?! Onde estão os inimigos? Será a terrível gordura?)

Falando seriamente: recebo dezenas de recados contando histórias pessoas que se envolveram com os perfis Fit DO BEM no Instagram e tudo o que ganharam foi uma difícil jornada de volta à: vida social, saúde mental e física.

Por que estou dizendo que seguir tal “estilo de vida” constitui uma legítima vitória de pirro?

Por causa de três elementos: falso empoderamento, falsa motivação e falsas noções de saúde.

I – Falso empoderamento.

O discurso fitness transmite a ideia de que nosso corpo está 100% sujeito ao nosso “querer” e se você não atingiu os mirabolantes resultados que esperava, foi porque a culpa é sua. Você é um ~fraco~ e não ~lutou~ o suficiente.

R: Acontece que essa concepção é totalmente, escandalosamente, tremendamente falsa. Nosso corpo tem limites corporais, mentais, físicos e genéticos. E não podemos simplesmente “decidir vencê-los”.

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(então gente, tô querendo a cor dos olhos da Bruna Linzmeyer… #Naluta! )

Da mesma maneira que não podemos modificar nossos cabelos, nossa altura ou a cor dos nossos olhos, não podemos modificar nossa constituição física para ficarmos com o mesmo corpo da pessoa X que vimos na foto. Motivo: trata-se de outra pessoa.

Também: queremos comer, cansamos, faltamos treino, o corpo pede “ME DEIXE DORMIR”. E nada disso não é sinal de fraqueza nem fracasso. Significa apenas que:

Somos humanos. Seres humanos são limitados. Não somos Hércules. O corpo humano não é tremendamente invencível. Humano não é semideus. Mesmo quando ele quer.

Not possible. —> Não.

Quando acreditamos nessa falácia do “poder sem limites”, o sentimento de inadequação e culpa pode ser torturante e tirar a paz dos corações.

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(Aham. “Poder sem limites” até o momento em que você tem diarreia)

II – Falsa motivação

A ideia central de buscar tal “estilo de vida” é: calar a boca dos que te diminuíram, conquistar a glória através de um “lindo corpo”, postar foto na internet e receber curtidas… viver em função do olhar do outro.

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(Fascinante, caras.)

R: A nossa vida não é tão importante assim. Para nós? Sim. Somos os protagonistas. Para o outro? Aahhn… Não.

Ninguém se importa se você é gordo, magro, forte, fraco, rico, pobre, feio, bonito ou se acabou de passar correndo com uma melancia na cabeça.

O princípio fundamental de ter saúde é o autocuidado. Os indivíduos adultos estão aptos a exercerem a manutenção de suas próprias vida. E isso não é glória nem vantagem em relação aos demais. É simplesmente o que um indivíduo crescido, maduro, bem resolvido e saudável faz. E não precisa sair contando para todo mundo.

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Quer ter saúde? Faça por você. Para ter boas condições físicas, mentais e sociais. E isso não precisa ser “esfregado” na cara de mais ninguém.

A principal motivação para adquirirmos saúde é: termos saúde. (Uau!)

III – Falsas noções de saúde

Ser saudável é: cortar glúten, lactose e carboidratos da alimentação. Frequentar uma academia e fazer musculação. Adquirir um bom estoque de suplementos. Whey Protein é vida e lei. Receitinha só pode ser DO BEM (significando que todos os alimentos do mundo como bolo, brigadeiro, macarrão, hamburguer, sopa e panqueca se convertem em sua versão ‘WHEY’). Não pode faltar treino, não pode fugir da dieta. Em hipótese alguma. De jeito nenhum. Nem que precise levar marmita em um casamento.

R: Saúde não é uma coisa tão específica e simplista. O ser humano tem dimensão física, mental, psicológica, afetiva, social. Vamos à festinhas de criança, casamentos, comemos pizza com os amigos. Comemos uma guloseima só porque deu vontade e também preferimos ficar dormindo em manhã de sábado qualquer.

A definição inflexível de “saúde” nos perfis fitness causa muito sofrimento porque o caminho para se ter “saúde” é terrivelmente estreito. É uma glória para poucos. Os poucos que estão dispostos à puxar muito ferro e engolir frango sem tempero com fartos goles de Whey Protein.

A alimentação proposta por este lifestyle (que nada mais é do que bobagem e modismo…) não é: variada, fresca e nem acessível. Muitas “receitinhas do bem” são feitas com pó para pudim light, por exemplo, que não têm açúcar refinado, mas têm mais de 3 tipos de adoçantes.
Não esqueçamos que: whey, barrinha protéica, biscoito sem glúten, pudinzinho light, beauty drinks e balas de colágeno também são elementos que saíram todos da fábrica. E só são “DO BEM” porque o fornecedor está afirmando e porque a Blogueira está divulgando (sem sinalizar! E viva o Jabá!)

Portanto…

Tem como seguir este ~estilo de vida~ tão glorioso e tão saudável? Tem. Mas os danos causados à mente, às emoções e ao corpo são imensos.

É claro que quem está imerso no discurso dirá que isso é tudo coisa de fraco, fracassado, burro, limitado. Discutir com quem mergulhou de cabeça nessa dinâmica é a mesma coisa que tentar discutir com pessoas de um culto qualquer, que estão esperando uma carona numa nave espacial, ou num cometa, que os levará para uma civilização mais evoluída.

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(acredite também: na magia das pirâmides, no poder dos cristais, nos poderes curativos dos duendes, no cogumelo do sol , nas conspirações Iluminatti, nos seres extraterrestres ou no inestimável poder do grande Bilu…)

Sou sim: fraca, fracassada, burra, limitada… GORDA (como gostam de repetir ^^). Por que não? Pouco me importa.

Advogo contra essa loucura toda porque estudo para ser profissional da saúde.
Saúde pública queira eu ou não, me diz respeito. E a internet está, literalmente, destruindo vidas com discurso irresponsável, muitas vezes proferido por gente leiga.

Posso competir com igualdade de condições? Não. Porque interesses mercadológicos são infinitamente maiores do que simples boa intenção. Mas não significa que vou me calar.

Se você que me lê ainda tem tempo, por favor mantenha-se longe dessa batalha. Não há como vencer. A derrota é o único caminho. Ou se preferir, Vitória de Pirro.

 

 

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