O Pão de Cada Dia.

I – Prólogo

Antes de mais nada, confio no link abaixo para informações técnicas sobre o glúten. Em caso de dúvida, leia:

10 perguntas sobre o glúten e 10 respostas sérias da ciência.

1) Conheço as alegações do ~famoso médico cardiologista e nutrólogo~ sobre como o glúten vai destruir as nossas vidas e como a cultura alimentar é terrível e como todos teremos câncer.

2) Estou familiarizada com as VERDADES que não querem que saibamos dentro do curso de nutrição.

3) A questão do glúten provoca infinito debate na área da saúde. Se há debate, não é conclusivo. Então simplesmente me reservo o direito de confiar nas diretrizes científicas oficiais até o momento.

4) Então sim, sou obscura e deixo as pessoas comerem pãozinho. O choro é absolutamente livre.

Anitta

(NO, thanks.)

II – Sobre meu TCC

Há uns dias eu ouvi uma conversa avulsa na panificadora:

“Meu médico mandou ‘cortar’ o glúten. Falou que é veneno, sabe? Não compro mais pão.”

(O médico. Ok.)

Aparentemente, o trigo é como cicuta ou arsênico: um terrível veneno que te corrói por dentro.

SkullCrossbones

(Gaaah! É o pãozinho!)

As questões técnicas sobre o glúten estão lá para cima. Não quero falar disso. Quero falar do significado histórico, político e espiritual do pão (É. Espiritual.)

O meu alimento de estimação é o pão. Acho que é por isso que não gosto que façam bullying com ele. Porque ele é fascinante, repleto de história e significado. Ele até foi o tema do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso):

 “A Representatividade do Pão para a Civilização Judaico-Cristã”

Como foi o meu trabalho?

A primeira coisa que eu fiz, foi investigar sobre o significado do pão para a civilização ocidental, então eu basicamente pesquisei sobre: a história do pão.

E eu investiguei também o significado do pão para os judeus e para os cristãos. E em seguida pesquisei todos os episódios bíblicos que envolviam o pão de alguma maneira.

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(Meus colegas de Curso me ajudando nas minhas aventuras bíblicas…)

Feito isso, eu pesquisei como era a composição do pão que se comia na Palestina na época de Jesus, há 2000 anos (porque não era o mesmo pão branco e fofinho que conhecemos hoje. Era um pão diferente).

E em seguida  fui para o laboratório de técnica dietética e “recriei” a receita deste pão. E além de tudo eu comparei o valor nutricional desse “pão palestino” com o pão que nós comemos hoje.

Pão6

ETAPAS 1

(Algumas etapas de desenvolvimento do pão que se comia há 2000 anos…)

Enfim, contudo: eu aprendi muito sobre este alimento, até porque a realização do meu trabalho levou quase 3 anos.

III – Pão de Cada Dia

O pão existe desde o período Neolítico (entre 12mil e 4mil a.C), que foi quando o homem se apropriou da semente, deixou de ser nômade e passou a ser sedentário. É um alimento cotidiano que representa mais do que o sustento corpóreo. O pão é banhado de significados. Pode-se dizer que  não  há  no  mundo  um  pedaço  de  pão  que  não  tenha  sido  amassado também  pela  religião,  pela  política  e  pela  técnica.  O  pão  é  um  antigo companheiro do homem ao longo da história. A palavra “companheiro” , inclusive, deriva do latim, cum panis, que significa “aquele com quem dividimos o pão”.

O pão é amplamente representado como sinônimo de vida, trabalho e alimento. Faz parte da cultura alimentar de diversas civilizações e tem importante representatividade histórica.

É possível contar a história do mundo ocidental apenas discorrendo sobre o pão. Podemos falar sobre:

…como a espécie humana descobriu o cultivo das plantas;
…como o pão inicialmente surgiu, no Egito;
…como os judeus fugiram do cativeiro e comeram “maná” no deserto por 40 anos;
…como tudo isso originou a festa da Páscoa (Pessach);
…como o pão compunha o salário dos centuriões romanos;
…a época em que a sua fabricação ficou restrita aos conventos e monastérios;
…como a panificação se desenvolveu fortemente na França, no século XVIII;
…como o estopim da Revolução Francesa se relaciona com o aumento do preço do pão;
…quando Maria Antonieta, supostamente, afirmou “se não tem pão, que comam brioches”;
..o começo do cultivo do trigo em solo brasileiro, na capitania de São Vicente, em 1534;
…como o pão se difundiu pelo Brasil à partir do século XIX.

(É possível. Eu, inclusive, fiz isso).
Podemos também falar sobre  um cara aí que uma vez disse “Eu Sou o Pão da Vida” e como este evento dividiu a história do mundo em Antes & Depois da existência desse cara.

Para concluir, o que eu quero dizer é que abolir o consumo do pão, sem mais menos, entre as coletividades é como chegar para a Matriarca de uma família, que tem 17 netos e 9 bisnetos, que criou todas as pessoas, cuidou na doença, contou histórias e que representa a figura central da família e dizer:

“- Faça as malas. Vá embora. Não te queremos mais aqui.”

Não existe isso. Porque o pão é um alimento culturalmente muito importante. Mas assim: muito. São 6000 anos fundamentando a nossa civilização.

Existem muitas novas tendências, modismos e postulados científicos sobre a alimentação que surgem e mudam a cada década.

…Mas deixem o Pão de Cada Dia fora disso.

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21 ideias sobre “O Pão de Cada Dia.

  1. Alden

    Interessantíssimo seu post, como quase todos os outros que tenho lido aqui.
    E é claro, existem os defensores dos radicalismos e dietas da moda, que vão se sentir terrivelmente ofendidos.
    Alegar que o pão é ruim porque sofreu alteração genética ao longo do processo de cultivo de trigo e industrialização e tomar isso como uma regra de alimentação, significaria abrir mão da maior variedade conhecida de alimentos que consumimos com regularidade, já que há 6 mil anos atrás, não tínhamos diversos alimentos que consumimos hoje, de milho a alface e repolho, pois todos sofreram alterações genéticas necessárias para o desenvolvimento da agricultura. É relevante se pensar nos aspectos culturais da alimentação, que fazem A COMIDA ser A COMIDA.Isso é tão importante para a nossa saúde (pensada aqui como o bem estar amplo…..) quanto as questões nutricionais dos alimentos consumidos. Até mesmo os adeptos dos modismos alimentares, como os suplementos, tem tentado dar um jeito de transformar seus suplementos em…COMIDA (vejam os pudins de whey, ou bolos de whey, etc). Se comida não fosse realmente importante, todos que amam whey tomariam simplesmente o whey como suplemento, não ficariam inventando “comida” com o whey…..
    Há que se discernir do que é científico( como o link citado acima), do que é um movimento de mercado, movimentado pela mídia, pra criar uma nova forma de alimentação, que atende, com certeza , a determinados interesses.
    Força na tua luta, pois não é fácil!rs

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