Historia de Jessica

A leitora Jessica me escreveu dizendo que era seguidora das “Blogueiras Fit” famosas, mas que desistiu de tudo isso.

Vale muito a pena ler as palavras que ela escreveu. São muito elucidativas:

Jessica

“Eu, sempre muito rígida e insatisfeita com minha aparência, carregando nas costas um complexo de inferioridade muito pesado para uma garota do meu tamanho, resolvi que queria ter o corpo que eu sempre quis. Julguei que meus hábitos alimentares me levavam à insatisfação com meu corpo e resolvi ser “saudável”.

 Meu emagrecimento não possui números impressionantes, ao longo de um ano eu perdi 7kg. Sabe como? Somente mudando hábitos alimentares e fazendo exercícios físicos diariamente. De se orgulhar não? Mas apesar de 7kg não ser um antes e depois tão expressivo assim, eles me possibilitaram ganhar muito, muito mais.

Para que se possa ter noção de tudo o que adquiri nesse tempo e processo, eis aqui uma lista: 

O que ganhei com minha dieta e 7kg a menos: 

– Muito mais insegurança;
– Uma visão bem mais distorcida de mim mesma;
– Radicalismo alimentar;
– Perda de vida social;
– Medo de comer;
– Anemia severa;
– Anorexia e depois;
– Bulimia e compulsão, e depois;
– Muitas centenas de dinheiro a menos por mês com terapia;
– Muita vergonha ;
– Um processo de recuperação um tanto quanto difícil;
– Medo de não conseguir me aceitar nunca e de me relacionar bem de volta com a comida;
– Revolta pelos moldes estéticos atuais e pela super valorização de imagens irreais;
– Vontade de contribuir para que isso não esteja presente na vida de outras meninas;

Muito bacana né? Caso exista alguém que quer repetir meu método, elucido ele brevemente aqui: Dieta restritiva com somente 1200 kcal diárias, inúmeros alimentos proibidos, demonização do açúcar, 2h de academia por dia, 10h na frente do espelho por dia, crucificação após qualquer deslize seguida de mais 2h de academia, não comer nada que você não faça, restaurantes são capeta (!), mentalizar mensagens negativas enquanto se olha no espelho, ler todos os blogs e estar ligada a todas as ~dicas do bem~ de todos os #projetos que existem por ai. 

Faz um mês que me dei conta do que estava fazendo comigo mesma, faz duas semanas que aceitei a fazer terapia, faz um dia que tive coragem de ir a uma nutricionista e confiar no trabalho dela. Sim, tudo super recente, mil emoções, mil medos. Eu aceitei minha condição, parei de me criticar (novamente) por “eu ter entrado nessa” e aceitei o tratamento por inteiro. 

Para que se tenha um panorama geral, eu estou me formando em ciências biológicas, tenho 23 anos,já produzi materiais bem bacanas na minha área, trabalho, tenho um namoro sólido, moro numa cidade linda (florianópolis).

Apesar de eu parecer bastante capaz de ter discernimento sobre as coisas e ter aceitado o tratamento; confesso que ainda acho que os ajustes alimentares que nutri fez vão me engordar, ainda não sei como me pareço de verdade, ainda acho que eu preciso emagrecer, me sinto muito muito mal quando tenho uma compulsão literalmente me puno mentalmente.

Mas então como é que você aceitou e está em tratamento? Aceitação eu chamo de quando eu tive consciencia de que todos esses pensamentos e achismos ali citados acima não eram “reais de verdade” (porque são reais para mim como resultado de uma construção pessoal totalmente distorcida, mas totalmente fora do que eu realmente sou) , quando aceitei que ainda não podia confiar em mim em fazer esse tipo de julgamento. Ok como funciona? Sinceramente, é meio decepcionante, eu me acho inteligente sabe, supostamente capaz desse discernimento “básico”, mas isso não tem nada a ver com inteligencia. Meu complexo de inferioridade suportado/desencadeado por valores estéticos da sociedade atual me condicionaram a esse momento da minha vida.

Honestamente, tudo o que faço em prol de resolver esse problema é se apoiando na visão de quem gosta de mim de verdade (familia, amigos, namorado), eles querem meu melhor assim como eu quero meu melhor, até eu conseguir clarear minha visão é neles que me apoiarei. Por isso estou indo a terapia de corpo e alma, por isso estou seguindo todas as recomendações da nutri (mesmo achando que o que ela quer é me engordar), por isso estou compartilhando meus progressos. 

Meu maior anseio: acreditar naquilo que beeeeeem no fundo eu sei que sou, ter uma imagem positiva de mim mesma, ter pensamentos positivos sobre mim, ser saudável de verdade, aceitar meu corpo, agradecer quando meu namorado me chama de linda ao invés de falar que ele é louco (Me mata haha) e voltar a ir em rodízios de sushi! hahaha

Eu amo comida japonesa e deixei de comer por causa do arroz (??????????), ainda não consigo comer, ainda. 

Eu sei que meus pensamentos são todos bobagens (amém!), que crucifiquei alimentos de vários tipos e vejo o reforço disso, se repetindo em maiores doses em todos esses blogs, todos esses #projetos referencia. Eu me considero bastante instruída quando se trata de procurar fontes confiáveis, pretendo ser pesquisadora, entendo o método científico (não estou aqui dizendo que ele é infalível também), mas isso não foi o suficiente para que eu não me influenciasse por modas. É o elo fraco feminino (que criaram), é a imposição da beleza irreal, é o consumismo e modelo econômico.

Não sou eu, não é você. Como ser confiante quando se cultua a carcaça? Como se amar quando o valor agregado da obra é aparência exterior? Somos conteúdo, conteúdo que tem um corpo com habilidades maravilhosas que nos permitem fazer coisas inimagináveis. Busquem sim a saúde, se amem, cuidem desse corpo que tanto nos permite, mas primeiro entendam o que é saúde, entendam que somos conectados, que corpo e conteúdo andam juntos. Se somos lindos por dentro somos lindos por fora. Nossas atitudes agregam valor, não nossa barriga magra e corpo atlético. Ok, a sociedade não reconhece isso dessa forma, mas por que mesmo se conformar e aceitar? 

PS:  Para quem ficou curioso, eu pesava 52kg e tenho 1,65 de altura. Hoje peso 45kg… Tirem suas conclusões.“

antes e depois

(Este é um “antes e depois” não-convencional, causado por terrorismo alimentar…)

Jessica, seu depoimento é incrível e tenho certeza que muitas pessoas se identificarão com ele. Te desejo uma recuperação plena e uma nova relação com a comida e com o seu corpo ❤

Quanto ao item da sua lista: “Vontade de contribuir para que isso não esteja presente na vida de outras meninas”… Tenha certeza: você ajudou muita gente com a sua atitude!

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8 ideias sobre “Historia de Jessica

  1. renata

    Minha história se parece um pouco com a dela, realmente essa geração fitness tá pegando todo muito de jeito. Com a desculpa de que vamos nos alimentar saudavelmente, estão criando um monstro social. Vida social pra quem leva essa vida fitness é zero, estou há quase 2 anos com medo de sair e beber, comer e acabar com minha “vida saudavel”. Dá raiva qdo percebo que entrei nessa maquina de moer auto estima em que pessoas e empresas ganham muito dinheiro com o meu sofrimento. Dá raiva dessa imposição absurda, irreal e doentia. Se eles queriam deixar as pessoas doentes, parabéns, pelo menos a mim conseguiram adoecer. Qdo um professor de academia vem me falar pra eu voltar pra dieta pq senao vou engordar, minha vontade é de matá-lo. Inclusive estou pensando em sair da academia por isso, e procurar algo mais relax pro meu corpo e minha mente.

    Obrigada pelo depoimento!

  2. Bruna

    Sensacional o que ela escreveu: “Como ser confiante quando se cultua a carcaça? Como se amar quando o valor agregado da obra é aparência exterior? ”

    Já tive começo de anorexia quando tinha 13 anos. Parei de comer e só fazia exercicios fisicos. Em consequencia disso fiquei menstruada um mês inteiro e isso tambem interferiu no meu crescimento. Por sorte, acabei caindo na realidade e voltei a me alimentar normalmente. Eu não era gorda nem nada, mas pra vocês terem ideia eu pesava 54 e emagreci 10kgs em um mês!

    Felizmente nada de grave aconteceu e consegui reverter essa situação! Mas gente, é um caso muito sério essa imposição de como devemos ser. DEUS ME LIVRE dessa padronização! O importante é saber que somos MUITO mais do que bundas, peitos e coxas e abdomes sarados. Somos pessoas, sofremos, rimos, choramos. Isso é o que conta.

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