Usei um biquíni… E nada aconteceu!

2014-07-01-038.JPG“Este ano, eu fiz uma resolução de Ano Novo que confundiu algumas pessoas.  Quando digo confundir, eu quero dizer que as conversas sobre a tal resolução geralmente eram assim:

Eu: “No próximo verão, vou usar um biquíni.”

Eles: “Que ótima meta! O que você está fazendo? Vigilantes do Peso?  Jenny Craig  (um tipo de dieta que constitui em um programa de 3 etapas, com comidas pré-embaladas e outras cositas!)? Tornou-se vegana? Paleo? Você vai fazer cirurgia?”

Eu: “Eu disse que vou usar um biquíni. Não disse que iria perder peso.”.

Eles: O Rosto deles derretia como se estivessem olhando para a Arca da Aliança.

Eu não entendia por que isso era tão difícil de entender. Até agora, todos na internet já ouviram o ditado “Como obter um corpo de biquíni: Coloque um biquíni em seu corpo”. O “fatkini” foi notícia no último verão, e em tal demanda que encontrar um, mesmo através dos poderes da Internet, foi difícil. Este ano, eu estava preparada; eu pedi o meu em março.

Ninguém com quem eu tive a conversa acima teve a audácia de me dizer diretamente que eu não deveria usar um biquíni porque minha gordura ofenderia seus olhos. Nenhuma pessoa iria admitir que ela não queria que eu usasse um biquíni por causa de sua preferência estética – uma preferência que é moldada por nossas percepções culturais do que é e não é bonito. Mas essa não foi a razão pela qual essas pessoas não queriam que eu usasse um biquíni. Lógico, ela nunca poderia ser tão superficial quanto isso.

A preocupação mais comum era com minha saúde. Presumivelmente, eu, como uma mulher gorda, poderia não saber como operar corretamente as peça complicadas do equipamento conhecido como biquíni. E se eu me estrangulasse em todas as tiras e laços? E se eu me distraísse com a complexidade do spandex, uma substância até então desconhecida para mim, e vagueasse cegamente no trânsito? E se eu comesse ele? Eu não tenho certeza do que todas essas pessoas bem-intencionadas pensaram que iria acontecer comigo. Pressão Arterial, problemas cardíacos, problemas nas articulações e colesterol foram questões apresentadas, mas eu não vi qualquer tipo de rótulo de advertência em qualquer lugar do traje que sugerisse para que um cirurgião geral investigasse essas alegações. Continuo cética quanto aos problemas de saúde que biquínis podem causar.

A preocupação secundária parecia ser que eu estaria “glorificando a obesidade.” Eu ia ficar tão bem no meu biquíni que faria outros questionarem suas percepções de beleza e tamanho corporal? Parece que isso é mais um incentivo para usar o biquíni do que não usá-lo. E é um belo elogio; nunca soube que eu era tão linda para fazer as pessoas repensarem seus estilos de vida. Mova-se, Helena de Tróia; Jenny Trout vai travar uma guerra contra a boa saúde e corpos em forma!

Um terceiro tipo de pessoa só estaria preocupada com o meu conforto: “Você não estaria mais confortável em uma peça única?” Ou talvez eu pudesse ficar mais confortável se eu não fosse para a praia simplesmente. Se eu me aventurar na água vestindo um biquíni, a visão da minha barriga deficiente de melanina de Michigan poderia atrair as baleias beluga. Claro, eu poderia secretamente viver entre elas e aprender sua sabedoria antiga, mas eu não poderia manter esse tipo de ardil para sempre. Um dia, eles iriam saber sobre minha traição, provocando um conflito tenso entre os seres humanos e as gigantes gentis do mar.

Tenho vergonha de dizer que, apesar de todas as profecias terríveis, eu ignorei os conselhos e advertências feitas à minha resolução do biquíni e, no final de junho, em uma praia fria em Copper Harbor, Michigan,  vesti o meu biquíni.

Não aconteceu nada.

As famílias que estavam passando o dia no Hunter’s Point não fugiram aterrorizadas com medo de pegar quaisquer problemas de saúde horríveis que o biquíni poderia causar. Ninguém imediatamente encheu boca com punhados de banha para imitar o meu corpo “glorioso”. E, até onde eu sei, não há quaisquer baleias no Lago Superior, então seus modos de vida continuam a ser um mistério para mim.

Eu não sou estúpida; eu sei por que as pessoas não querem me ver em um biquíni. Mas, aparentemente, eu pareço estúpida para as pessoas que tentaram me desencorajar. Eu não deveria ver através de suas desculpas, ou perceber que as conexões que eles estavam fazendo eram erradas. Nossa discussão cultural de corpos gordos e como vesti-los não tem nada a ver com problemas de saúde, a epidemia de obesidade ou o conforto de pessoas gordas. Tem tudo a ver com o que podemos esperar das mulheres, o que nos foi dito pela indústria da moda e do valor que damos a corpos “perfeitos”.

A razão pela qual essas pessoas não querem ver um corpo gordo em um biquíni é porque tradicionalmente, essa peça de roupa é algo que uma mulher ganha ao provar ser atraente o suficiente para existir. Se as mulheres gordas começarem a usá-los sem vergonha ou medo, o que vem a seguir?

Será que elas têm autoestima? Será que elas vão exigir respeito? Então, o que vai mantê-las no seu devido lugar? Como é que as pessoas convencionalmente atraentes vão julgá-las?

Como uma sociedade, nós precisamos ser mais honestos em nossas discussões sobre os corpos alheios. Se não pudermos evitar essas conversas totalmente desnecessárias, então devemos, pelo menos, admitir a verdade para nós mesmos: Que isso não tem nada a ver com saúde, e tudo a ver com o controle sobre os outros que acreditamos ser de direito nosso exercer.”

(Tradução do texto: “I Wore a Bikini and Nothing Happened“, de Jenny Trout)

Atualização: A Aline Godoy é a responsável pela arte do Blog NSE. Hoje ela fez um desenho lindo baseado neste texto:

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Porque o que importa é nossa FELICIDADE, e não o que os outros têm para dizer sobre o nosso corpo. Então vamos nadar com as belugas! ❤

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10 ideias sobre “Usei um biquíni… E nada aconteceu!

  1. Eduarda

    A verdade é que essa história toda atinge a muitas pessoas, e o pior, muitas vezes vem da própria família. Hoje tenho treze anos, depressão e “tento” ter anorexia, e desde os 8 anos, quando comecei a engordar, minha família só comprava maiôs pra mim, inclusive, uma vez eu havia pedido para usar um bikini rosa, de babados, e minha mãe disse: “Não, não serve pra você esse ali”, e me deu um maiô, inclusive, até hoje, com maiô, me sinto mal. Por favor, nunca falem sobre o peso de alguém, isso geralmente afeta muito a pessoa. Se uma garota é chamada de magra, ela esquece segundos depois, mas se é chamada de gorda, ela lembra disso a vida toda, como eu sempre lembrei, dos amigos, família, colegas e desconhecidos. Eu só queria não poder dar ouvidos a eles.

  2. D.

    Bruna, super te entendo quando diz, “não me encaixo nem mesmo na ala dos fora dos padrões”. Minha neura é ter muitos pêlos. 😦 Não visto shorts, vestidos, saias; biquíni ou maiô então, pff, nem lembro a última vez que usei! E eu queria tanto fazer natação… Tento pensar que eu não preciso me enquadrar no padrão estético, mas acho muito fácil lidar com estrias e celulites e peso a mais do que ter esses benditos pêlos que crescem como mato. (“Meus problemas são maiores porque são meus”, não é assim que dizem? =/)

  3. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Bruna!

    Creio que mesmo que você não se encaixe nessa situação específica, o fato de você não ter o “direito” de usar um biquíni faz o texto ser, também, direcionado para você.

    Acontece que a praia é um espaço público de lazer e descanso e não precisamos de “ingresso” para entrar. Pessoas gordas, magras, jovens, velhas, brancas, negras e com cicatrizes têm direito de passear e se divertir 😉

  4. Bruna

    Sou magra mas não gosto de usar biquíni. Ou melhor.. sou normal. Tenho 1,66 e peso 53kg. Por uma cirurgia meio feia que tive que fazer no quadril eu acabei ganhando um quelóide interno que fez com que minha barriga ficasse feia. Basicamente parece que eu tenho aquelas marcas de calça-jeans-baixa-e-apertada mas eu mal uso o dito cujo para isto… e, bom, tenho isto desde os 4 anos, então… Não, né?
    Eu odeio minha barriga e destesto minhas pernas. Elas são grossas. Visto 36, mas eu as detesto. Ler um texto desses me faz pensar: se alguém plus size usa, ok. Se é magra, wow. E se é cheia de cicatrizes como eu sou? Não me encaixo nem mesmo na ala dos fora dos padrões.

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