“Tchau, Dieta!”

A leitora Fernanda Rosa enviou um texto sobre sua decisão de não mais fazer dietas. A história dela representa a de muitas pessoas. Infelizmente, temos estatísticas alarmantes de insatisfação corporal e ansiedade generalizada entre as mulheres:

(“Moça diante do espelho”, Pablo Picasso, 1932)

“Eu decidi: eu não faço mais dieta. Você deve estar se perguntando o porquê ou como uma menina de 18 anos não quer ser magra, sarada, treinando na academia com o pãozinho de centeio light. Nada contra academia, muito menos ao pão de centeio light, eu gosto. A verdade é que não é só a dieta, mas ela é definitivamente um dos problemas.

Ultimamente eu parei, e passei a analisar quando tudo começou, e isso é ainda novo pra mim, então eu não sei bem. Acredito que foi na adolescência (fase das trevas). Na minha visão eu era errada, baixa demais, extremamente insegura, cabelo enrolado “armado”, me sentia como muitas meninas se sentem hoje, o que virou uma coisa até comum.

Tudo começou quando achei que seria feliz comigo e autoconfiante se fosse magra o suficiente, eu atrairia mais olhares, essa era a resposta pra tudo, pronto. O problema era quanto mais eu pensava nisso mais eu fracassava, me mudei para outra cidade, sem os meus pais, me senti sozinha e a comida era minha companheira, foi ai que a coisa piorou, mais e mais eu afundava e comia, vieram as crises de ansiedades, choro e comilança, mas muita mesmo, até aí se quer percebi o problema que crescia em mim e tomava conta,  quando  me pesei e me vi com 8 kgs a mais e cheguei a ouvir  “é, você está gordinha mesmo”  entrei em pânico, aquilo foi o fim, precisava por vergonha na cara. Passei a me sentir um lixo, como ser feliz daquele jeito? Daí então  passei a implicar e odiar o meu braço, aboli as roupas regatas, e o biquíni, então? NUNCA MAIS,  não tinha direito de usar,  sentia vergonha, de mim, do meu corpo, qualquer roupa que eu achasse colada demais, não servia. E as coxas? Horrorosas, perna demais pra uma menina baixinha. Do ódio e a vergonha veio o repúdio ao espelho e  tomei uma decisão: iria emagrecer, ser sequinha, meus seios ficariam menores, seria finalmente feliz. Fiquei obcecada, ser voluptuosa e não ter uma coxa separada era um absurdo. E foi ai que as benditas dietas entraram, pesquisei inúmeras na internet, dieta da sopa, “afine a jato”, coma isso, não coma aquilo, no fundo nada daquilo me agradava, por que eu tinha que cortar tanta coisa que  gostava de comer da minha vida? Minhas coxinhas, meu pão Frances, meu bolo, meu queijinho? E porque uns cardápios tão chatos?  Mas quem liga?  ficaria magra…  E  estava decidida, então a culpa virou minha melhor amiga, hoje até me acostumei com ela, nos damos bem. Só pensava “não posso comer isso”, “quantas calorias tem isso?” e comia descontroladamente a maioria das vezes, passava a semana inteira me restringindo e no final de semana  me descontrolava, passava mal, chorava e sempre dizia que iria compensar isso.

Nesse vai e volta de engorda e emagrece passaram-se dois anos (passou tão rápido!), as conversas sobre peso e dieta tornaram-se frequentes entre as amigas. Na ultima vez que emagreci pra valer, desencanei um pouco das dietas e passei a comer bem e ingerir algumas coisas que antes  não comia, e isso foi bom. Só que piorei,  as tristezas repentinas, as inseguranças e as crises de ansiedade voltaram,  larguei de vez tudo e definitivamente enfiei o “pé na jaca”, e  não fiquei bem, nada disso, tudo começou de novo, a culpa, o repúdio ao espelho, a chata sensação de que estavam reparando em mim e vendo meus defeitos (coisa que eu sempre tive). Só que nesse momento, como toda parte difícil, eu olhei pra dentro e passei a me analisar, passava horas divagando sozinha, me resolvendo, e nessa fase comecei a ler o NSE, e ver que eu estava errada, eu estava fazendo tudo errado, meus olhos se abriram pra uma realidade que eu achava que era um bobagem. Eu vi o incentivo ao amor próprio, a autoaceitação, a verdade que existe sim uma ditadura da beleza, da magreza, e as dietas como resolução para todos os problemas. Passados os momentos de autoanálise, eu aceitei que tinha um problema, e não era meu peso, fui ao médico e estou com “depressão em fase inicial e compulsão alimentar por causa dela” AH COMO É LIBERTADOR ISSO! Nunca aceitei que tinha um problema. Como disse eu ainda não sei, talvez focar no meu peso e esquecer que tinha um problema mais sério foi uma forma de tentar esconder, tapar, ou isso foi só um agravante.

Eu ainda estou nesse processo, eu ainda não gosto de mim, eu ainda acho que preciso perder alguns quilinhos. Mas escrever sobre isso, me libertou e decidi: eu não quero me culpar mais, eu quero me sentir bem e me amar, não quero deixar mais a imagem do espelho definir quem eu sou de verdade, por dentro. Sem dietas, quero comer bem com uma alimentação balanceada, sem nóia, sem neura.

Se isso não pode ser feito, me desculpa, mas não me serve mais.” 

(“Não há dieta que promova os efeitos de comer saudável. Esqueça as dietas. Apenas coma saudável.”)

Fernanda, fico muito feliz pela sua descoberta e parabenizo pela sua coragem. É possível, sim, viver com saúde, tranquilidade, moderação e boas escolhas alimentares, sem estar “seguindo dieta”. Se respeite e se ame! Chega de se apavorar ❤

Anúncios

Uma ideia sobre ““Tchau, Dieta!”

  1. Joseline

    Parabéns, Fernanda! Vc deu um passo imenso na direção da paz interior! A sensação é essa mesma: liberdade! E, obrigada, NSE, por compartilhar conosco esse depoimento! 👏👏👏

Os comentários estão desativados.