História de Cristiana

É com muito prazer que o NSE recebe um depoimento internacional (porque problemas com autoaceitação e autoestima não são exclusividade das brasileiras…). A leitora Cristiana Vicente Martins enviou um texto diretamente de Portugal:

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“Chamo-me Cristiana, tenho 17 anos e sou portuguesa.

Sempre fui rechonchuda mas nunca tive excesso de peso, o que fazia com que me sentisse bem comigo própria. Em junho de 2012, numa aula de português, uma colega comentou a minha forma física, afirmando que eu estava mais gorda. Quando ouvi o comentário não dei muita importância mas, quando cheguei a casa, olhei-me ao espelho e vi que a minha colega até tinha alguma razão. Ao olhar para o meu corpo senti que precisava de fazer alguma coisa para ficar em forma e, o meu cérebro encarregou-se de o fazer. Deixei de sentir a fome e comecei a aperceber-me que conseguia passar muitas horas sem comer, então comecei a reduzir a dose ingerida. Devido à reduzida ingestão de alimentos, o meu peso começou a diminuir e passei de 58kg para 52kg. Depois desta primeira perda fiquei a sentir-me muito bem e, os comentários que ouvia confirmavam isso mesmo mas, a perda de peso é altamente viciante e, não consegui ficar por ali. Ao ver aqueles resultados tão rápidos e tão eficazes fiquei com uma enorme vontade de continuar a perder mais, mais, muito mais, até onde fosse possível, e para o conseguir, reduzi a quantidade de alimentos ingeridos e aumentei a prática de exercício físico, de forma a gastar todas as calorias dos alimentos ingeridos anteriormente.

Com o passar do tempo e, à medida que a minha família se foi apercebendo do que se estava a passar, as minhas estratégias para não comer foram adaptadas, de forma a conseguir continuar a fingir que comia, sem que ninguém reparasse. Era impossível esconder algo que se via apenas ao olhar para a minha cara e isso fez com que alguns familiares fossem reparando e fazendo pressão para que eu começasse a comer.

O meu peso inicial em junho de 2012 era de 58kg e, em fevereiro de 2013 passou a ser de 42,5kg. Esta oscilação de peso causou em mim imensos problemas, como a diminuição da temperatura corporal, o aumento do cansaço, a ausência da menstruação, a queda de cabelo e unhas, entre outros. Realizar as actividades do dia-a-dia era muito difícil e exigia muito esforço.

Quando atingi a meta dos 42,5kg fui proibida de ir à escola porque não tinha peso suficiente para realizar o trajeto casa-escola e, estive uma semana em casa a tentar ganhar peso. Foi nesta fase que percebi o mal que estava a fazer ao meu corpo e o quanto me estava a prejudicar a mim própria e tomei a decisão fundamental: sair do mundo da anorexia. Agarrei-me à minha família, aos meus amigos e a todos os que me querem bem, comecei a contrariar os remorsos que sentia quando comia e, lentamente consegui começar a comer. Com a ajuda da medicação, engordei rapidamente e voltei às minhas actividades diárias.

Hoje olho para trás e vejo a forma fácil como me deixei levar pelo mundo da anorexia e o quanto me custou sair dele. No meu corpo, sinto as consequências da rápida perda de peso. Ainda não me encontro completamente recuperada e, já tive várias recaídas mas, a vontade de viver juntamente com as pessoas que me fazem feliz, faz-me ter força para superar tudo isto.

Com esta experiência aprendi a desvalorizar os comentários que realmente não são importantes, porque há pessoas que não merecem que estraguemos a nossa vida por causa delas. Quem nos ama verdadeiramente, aceita-nos de qualquer forma: gordos ou magros.

Sejam felizes!

10462725_1525382877690596_5836628462914570398_nA Cristiana publicou um livro lá em Portugal e atualmente alerta para o problema dos Transtornos Alimentares.

SIM, Cristiana: te deixamos ser feliz 🙂

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