O Canteiro Silvestre

Eu recebo muitas mensagens e depoimentos de pessoas de todo o Brasil (e até de gente que mora fora…) me contando como superaram seus problemas com corpo e comida e agradecendo pelo trabalho neste Blog. Procuro responder todas elas, sempre fico muito contente.

Hoje à tarde eu recebi um email de uma pessoa, que entre outras coisas, dizia:

“Resolvi tentar. Risquei a palavra ‘dieta’ da minha vida, com a certeza de que iria atingir os 100 quilos. Qual não foi minha surpresa de em só pelo fato de não estar de dieta, todos os desejos proibidos foram-se em poucos dias.”

Ela está coberta de razão.

Sempre que eu atendo em Unidades de Saúde e Ambulatórios, eu sempre pergunto para as pessoas (principalmente para as que precisam perder peso…)

– O que vai acontecer se eu te disser: “NÃO PENSE num elefante branco. De jeito nenhum. Não pense!”?

Não é preciso ser neurocientista para saber que lá estará o grande elefante branco povoando nossos pensamentos…

(Nossa cabeça não entende o “NÃO PENSE”. Ela entende: “elefante branco”)

É comportamento humano básico.

Enfiar na cabeça “eu NÃO POSSO comer pizza” é a mesma coisa que “NÃO APERTE o botão vermelho.”

znstwi

O botão vermelho poderia muito bem passar despercebido, não fosse o dramático aviso para não apertá-lo.

Observo que quanto maior for a urgência da proibição, maior o tabu em torno do alimento proibido…E maior a tendência para o atacarmos.

Comida…é só comida. Não vale a pena criar maiores juízos morais, sentimentos de culpa e proibição em torno dela.

Da mesma maneira que brocoli…é só brocoli, chocolate…é só chocolate.

(este é um inofensivo brocoli…)

Quando deixamos de hiper-valorizar o “horror” das comidas calóricas, elas ganham para nós o status do brocoli: está ali. É inofensivo. É um alimento. Posso escolher: comê-lo ou não comê-lo.  

Se eu comer: o mundo não vai acabar.

Se eu não comer: o mundo não vai acabar.

Falemos agora sobre o título desse texto: o canteiro silvestre.

Quando eu era criança e ia visitar a minha vó, na casa dela tinha vários discos interessantes.

(aos mais jovens: o disco era uma espécie de “bolacha” preta com um buraco no meio…que tocava música xD….Na minha casa tem discos de vinil. Tem vovós e vovôs que têm até de louça. Esse tipo de disco quebra! )

Ela tinha um disco do filme da Disney “A Canção do Sul”, que eu a-ma-va. O Tio Remus contava histórias para as crianças… as melhores histórias!

(“A Canção do Sul”, 1946)

Numa dessa histórias, o Coelho Quincas é capturado pelo Urso e a Raposa, que querem comê-lo. E ele clama:

“Façam comigo o que quiserem. Mas por favor: NÃO me joguem no canteiro silvestre!”

Não é surpresa que foi exatamente isso que fizeram com o coitadinho do Coelho Quincas: tacaram ele no canteiro silvestre.

Acontece que era exatamente isso que o Coelho queria: ele nasceu e cresceu no no canteiro silvestre. Sabia se virar muito bem entre os espinhos. Fugiu.

Infelizmente, não achei essa historinha dublada, mas ela pode ser apreciada aqui por quem entende inglês.

canteiro

No fim das contas, enfiar na cabeça: “NÃO POSSO comer tal coisa” é a mesma coisa que o pedido “NÃO me jogue no canteiro silvestre”: é exatamente o que vai acontecer!

(Lembrando que: NÃO estou dizendo “vamos entupir a cara de fast-food”. NÃO estou sugerindo que obesos se mantenham obesos. NÃO estou dizendo que brocoli equivale à chocolate. NÃO estou dizendo que não precisamos cuidar da nossa alimentação. Eu sugerindo que: criemos menos estigma em torno dos alimentos calóricos)

Vou finalizar com a canção “Zip-a-dee-doo-dah”. Por motivo nenhum. Só porque ela faz a gente ficar feliz 🙂

 

Tenha um dia Zip-a-dee-doo-dah. E muitos outros mais!

 

 

 

 

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4 ideias sobre “O Canteiro Silvestre

  1. Amanda Marques

    Pior que é bem assim mesmo. Parece que toda vez que você exclui algum alimento você só pensa nele, todo mundo te oferece ele, o preço fica bom pra comprar… kkkk

  2. Nina Vieira, Livreira

    Ai que texto lindo!
    Pode parecer besteira, mas isso explica o meu fracasso em tentar NÃO tomar refrigerante. Coca-Cola acabou com os meus ossos quando tive tendinite ano passado e tomo beeem de vez em quando. É a única “besteira” que me proíbo. E, mesmo esporadicamente, ainda me arrependo de quando bebo, tipo… festinha infantil de aniversário.
    Beijão.

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