História de Natalia

A Natalia leciona estudos de gênero e faz PhD pelo Women’s Studies da University of Florida. Ela enviou um depoimento muito legal:

Natalia

Minha historia é a mesma de muitas outras mulheres: Uma vida de dietas restritivas, seguidas de momentos de compulsão e loucura alimentar, muita culpa, e mais dietas, num ciclo perpetuo. Fui uma criança gorda, e me lembro vividamente do sentimento de desconforto com a minha imagem. Com dietas restritivas (muita coca zero e barra de cereais light cheias de químicos), loucuras nos dias “permitidos”, malhação desenfreada por horas todo santo dia, idas e vindas a nutricionistas e endocrinologistas – que com suas tabelinhas de IMC estabeleciam que eu deveria perder mais peso – e muita sibutramina e suplementos diversos consegui me manter “magra” (ainda que eu não me visse assim) por grande parte dos meus 20 anos. 

Aquele, no entanto, não era um peso “natural” pro meu corpo. Os sacrifícios eram incontáveis: Já fui pra casamento com um sanduíche de pão integral e cottage na bolsa, só pra dai a 3 dias me entupir da primeira porcaria que visse pela frente, porque era meu “cheat day”. Ja deixei de viajar porque não teria academia, já deixei de ir ao cinema para não sentir o cheiro da pipoca, já enlouqueci muito namorado com minhas mil restrições. Enfim, já perdi muito tempo da minha vida pensando no meu peso, tempo que eu podia estar lendo, e ser uma acadêmica ou professora melhor, tempo em que eu poderia estar me divertindo, e sendo uma pessoa mais feliz. Eu tinha medo de comida, pavor de ficar sem malhar, e uma gordofobia doentia entranhada em mim. Por fora, tudo parecia muito bem. Comprar roupas era ótimo, as relações amorosas eram mais fáceis, meu lugar na sociedade parecia garantido. Por dentro, era pura ansiedade e insegurança. Se ganhava poucos quilos, me sentia a ultima das mulheres, ficava infeliz e insegura, não queria sair, não queria tirar fotos, não queria viver.

Ironicamente (ou compreensivamente) uma das minhas principais áreas de pesquisa são estudos de gênero, e tenho especial predileção por assuntos relacionados a auto-imagem e imagem corporal feminina. Sabia, pelo meu próprio trabalho, de todas as feministas acadêmicas e criticas que já haviam descortinado os motivos capitalistas por trás da industria da beleza e das pressões estéticas sobre as mulheres (basicamente: você se sente feia —> você compra suplementos, cremes, etc.) e como a pressão pelo corpo perfeito é nada mais que uma nova opressão, em que as mulheres passam a reproduzir sua própria submissão, colocando sua tece conquistada renda em futilidades relacionadas a beleza (que por fim a impedem de serem 100% independentes financeiramente) e de conquistarem objetivos mais profundos e duradouros. Mas por mais que eu soubesse do discurso, continuava presa na realidade: e o ciclo dieta – compulsao ficava cada vez mais insustentável, e tomava cada vez mais minha vida.

Ha dois anos atrás, em uma época de muito trabalho, crise familiar, desastre amoroso – aquelas épocas em que saturno encontra com sei lá o quê e tudo dá errado como uma Tsunami, as dietas passaram a não dar mais conta dos episódios de compulsão. Eu ganhava peso e me desesperava cada vez mais. Nesse momento, senti que precisava mudar. Busquei uma terapeuta cognitiva comportamental e pela primeira vez ouvi que não deveria mais fazer dietas, mas procurar ter uma alimentação equilibrada, malhar moderadamente, e que eu poderia, por exemplo, comer de vez em quando os alimentos ditos por mim “proibidos” sem precisar compensar no dia seguinte fazendo uma aula de spinning por cada “infração”. Ninguém vai morrer por isso, ela me explicou, VAI FICAR TUDO BEM. Oi?! Eu não sabia o que era não estar de dieta. Os momentos de compulsão eram os “furos da dieta”. Meus níveis de ansiedade foram a mil; passou pela minha cabeça  que eu estava colocando meu dinheiro em uma profissional irresponsável .

Mas resolvi tentar. Risquei a palavra dieta da minha vida, com a certeza de que iria atingir os 100 quilos. Qual não foi minha surpresa de em só pelo fato de não estar de dieta, todos os desejos proibidos foram-se em poucos dias . 

Mas nem tudo foram flores. Uma das coisas mais difíceis pra mim foi entender e aceitar o conceito de peso natural do corpo, e não o peso que eu imagino nos meus devaneios estéticos, ou o peso que a Boa Forma ou a tabelinha do IMC acham que eu devo ter. Ainda olhava para as fotos de anos atras, magra e bronzeada, e não conseguia aceitar que não teria mais aquele peso. Minha terapeuta dizia que o corpo muda com a idade, mas eu me sentia fracassada; achava que a idade era somente uma desculpa pra falta de disciplina. Afinal, quantas trintonas no Instagram ou na TV não tem o corpo perfeito? Guardava as roupas antigas na esperançaa de um dia caber nelas novamente, ao invés de comprar roupas novas que coubessem em mim hoje. Tinha vergonha de tirar fotos, de encontrar pessoas que não me vissem ha muito tempo. Eu não engordava, mas sentia como se houvesse fracassado, me acostumado com a derrota.

Somente esse ano, quando minhas primeiras rugas de expressão começaram a ficar mais claras, quando comecei a ver a mudança no corpo das minhas amigas (ate nas mais disciplinadas), quando os 30 chegaram pra ficar, eu finalmente consegui começar a entender que o peso que eu tinha era um peso que podia me agradar, mas que NUNCA poderia ser mantido, mesmo que eu mantivesse todos os loucos sacrifícios que eu fazia. O corpo humano tem mecanismos fisiológicos que te levam pra um certo patamar. E acho que essa eh a parte mais dificil de aceitar: vejo muitas campanha que dizem: só quando consegui me amar, e parar de fazer dieta, que emagreci. Mas a verdade eh que pra quem fazia dietas muito restritivas, ao comer saudável e equilibradamente você provavelmente vai engordar. E isso é ok! Pq o peso que se tem com dietas loucas não eh um peso normal, é um peso que sera interpretado como uma ameaça pelo corpo. É doido demais abrir mão do controle, dessa ideologia de que  a mente manda no corpo, e qualquer coisa diferente disso é falta de vergonha na cara e de auto-disciplina.

Sim, deixar o corpo te levar: O ideal, pra mim, é comer saudavelmente, fazer exercícios de forma benéfica e deixar que o corpo se estabilize. Não existe essa diferenciação entre corpo/mente. Somos todos uma só maquina, que acredite: é mais inteligente que seu Mac. 

Dias atras estava vendo as fotos da Copa passada. Vi uma menina magra que se achava gorda, com uma segurança absolutamente instável, num relacionamento infeliz. Num primeiro momento, pensei: quero meu corpo de volta! para logo depois lembrar que aquele corpo vinha com todo um pacote de coisas ruins; e que hoje em dia, com meus quilos a mais, com minhas primeiras orgulhosas linhas de expressão (rugas, né, gente? pra que nome bonito?) eu sou uma mulher muito mais serena, segura, e por que não? bonita e feliz. 

Não é fácil.Se não ta fácil pra mim, que não moro no Brasil, e vivo 90% do tempo na minha bolha acadêmica em que preocupações estéticas definitivamente não são a prioridade, imagina pra todas as outras mulheres, bombardeadas por pressões por todos os lados. É uma batalha quase diária, com muitos diálogos internos em que a gente se põe no colo mentalmente e diz:

‘Não, bonitinha, a gente não precisa disso’. 

Imagina, só imagina, um mundo em que todas as mulheres que estão nesse momento pensando no seu peso, no que comeu ou vai comer, em que horas vai malhar, se remoendo de culpa e de promessas de um novo mundo, estivessem lendo um livro, indo ao cinema, estudando, amando, dormindo, pensando em como resolver os mil problemas do mundo, acabar com guerra na Síria ou descobrir a cura do câncer…A gente ia dominar o mundo!! Não ia ter Nobel pra homem nenhum. 

Não sei vocês, mas eu não quero aquela vida de volta. Tá mais que na hora de pararmos de reproduzir nossa própria opressão.”

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Natália,  seu depoimento é fantástico. Você é linda e talentosa de qualquer jeito. Merece paz e todo o amor do mundo. Todas nós merecemos ❤

 

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