História de Raquel

A leitora Raquel enviou um texto belíssimo sobre sua relação com seu corpo e com a comida, como tudo isso causou sofrimento e como ela superou suas dificuldades. Tenho certeza que muitas pessoas se identificarão com a história dela:

 “A Menina (que já foi a) mais feia do mundo:

Vou começar este texto revelando um segredo: essa menina do título fui eu. Fui que eu pensei ser por muitos anos. Tinha uns sete anos quando um menino me disse: “você e a fulana são as meninas mais feias da sala”. Logo a fulana? Aquela que sofria tanto bullying? Realmente eu era horrível.

E foi assim que vivi até os 19 anos, sendo a menina mais feia do mundo. Não tinha namorados, afinal quem iria se interessar pela menina mais feia do mundo? E aqueles que se interessavam com certeza tinham algum problema, deviam estar “sobrando” como aquela menina…

Apesar de ser algo escancarado, eu vivi anos tentando esconder que eu era esse monstro. Escondia dos outros e escondia de mim mesma. Na adolescência o principal sintoma da feiúra escondida foi a relação com o meu corpo. Foram anos de dietas e de um ciclo tortuoso de compulsão alimentar (afinal uma garota tão feia merecia ser punida…), ganho de peso, culpa… Fiz todos os tipos de dieta: dieta dos pontos, dietas com nutricionistas e endocrinologistas, dieta do carboidrato, dieta da sopa, dietas de revista e todas as quais tive acesso durante esse tempo.

Algumas vezes emagrecia muito, algumas vezes emagrecia pouco, algumas vezes engordava, mas o sentimento continuava o mesmo. Os quilos a mais ou a menos não sumiam com o sentimento forte de rejeição e feiúra que estavam escondidos e enterrados lá no fundo. Nunca conseguia me manter por muito tempo magra, pois além de estar acima do peso eu ainda não tinha FORÇA DE VONTADE, acreditam? Ou pelo menos era isso que eu ouvia de nutricionistas (hoje sei como essa fala é uma atitude irresponsável desses profissionais, apesar de muito comum) e de pessoas leigas (quero dizer, atualmente todo mundo é especialista, né?).

Na minha casa sempre fui muito amada e muito cuidada. Entretanto, infelizmente, minha mãe, que ficava arrasada por me ver sofrendo quando eu ganhava uns quilinhos, também não sabia exatamente como me ajudar. Ela tentou que eu fizesse terapia algumas vezes, porque ela enxergava meu sofrimento. Entretanto, assim como eu, acho que ela também acreditava que se eu emagrecesse um pouquinho (nunca fui obesa – então parecia ser fácil) eu seria mais feliz. Era um sofrimento enorme que ninguém percebia, pois era silencioso. Eu não era obesa, tinha vários amigos, era excelente aluna e tinha a famosa “força de vontade” para tudo, menos para perder peso.

Essa história começou a mudar quando eu estava na faculdade. Era uma segunda-feira e, com em quase todas as segundas-feiras, eu estava determinada a começar uma nova dieta. Comentei com uma amiga o fato e ela disse: “vou te dar um contato ótimo!”. Eu me animei prontamente com a indicação, mesmo sem saber qual era a linha desse profissional. Eu adorava novos métodos, novos contatos, novas esperanças.

O que eu não ainda sabia naquela segunda-feira era que pela primeira vez eu tinha em mãos um contato que me transformaria por completo. O nome dela é Dra Márcia Parizzi. Uma médica pediatra e nutróloga. Um ser humano sensível,que assim, como a autora deste blog, luta diariamente contra os conceitos equivocados que são ampla e massivamente espalhados por aí quando o assunto é emagrecimento.

Essa médica nunca me passou dieta. Foi um processo longo e árduo, afinal era preciso desconstruir conceitos que estavam há anos enraizados e que infelizmente são senso comum no mundo em que vivemos.  Entretanto, posso garantir, foi um processo LIBERTADOR.

Comecei a tratar o problema como SINTOMA e não como CAUSA. Fui aos poucos entendendo o que estava por trás daquela vontade enorme de ser magra. E foi só quando parei de fazer dieta que emagreci – mesmo “sem força de vontade”, pasmem! Emagreci de verdade, emagreci com o coração e não somente com a mente que controla como uma polícia as nossas vontades e nossa necessidade tão instintiva que é a fome.

O que eu deveria comer, o tamanho das porções, os intervalos entre refeições, enfim, as MINHAS necessidades, não estavam em um livro, uma revista ou nas orientações de alguém. Estavam dentro de mim. O eu precisava era resgatar, com muita paciência, essas noções que estavam adormecidas dentro de mim, asfixiadas por tantos equívocos.

Tive recaídas? Claro, algumas vezes quase caí na tentação de fazer dieta 🙂 . Mas uma vez liberta, sempre enxerguei que esse não era o caminho.

Um fato curioso é que antes de todo esse processo eu acreditava que para ser feliz era necessário emagrecer, ter um namorado, dentre outras coisas… O que aconteceu foi: quando eu fui feliz eu emagreci e comecei a namorar (agora tenho um marido maravilhoso que ama cada pedacinho de mim J). A ordem era inversa e ninguém nunca tinha me contado. Eu precisava primeiro me acolher, me amar, e ser feliz como eu era, era preciso tratar as causas para erradicar os sintomas.

Para finalizar deixo alguns ensinamentos da Dra-anjo que me marcaram e me ajudaram na transformação:

1) Ninguém emagrece por ter conhecimento de como se emagrece, emagrecemos com nossos sentimentos

2) Dieta é uma das melhores práticas para quem quer se punir. Quem consegue seguir uma dieta sem falhas?

3) A obesidade/sobrepeso e anorexia não são as causas e sim sintomas de problemas. É preciso tratar as causas. Infelizmente, os profissionais gostam de colocar as pessoas em caixinhas (é mais fácil), mas nesse caso as pessoas não cabem nessas caixinhas e é bem aí que está o perigo

4) Para tratar tais problemas as pessoas precisam se sentir acolhidas e confiar no profissional. Amedrontá-las e dizer que elas não possuem força de vontade só irá agravar o quadro a longo prazo

Com carinho de alguém que não é exposição. “

Raquel

Querida leitora Raquel: você é uma pessoa linda. Por dentro e por fora. Você merece: paz, muito carinho do seu marido e dos seus entes queridos, uma boa relação com os alimentos e acima de tudo, você merece muito amor de você para você mesma. Você não merece ser punida… Você merece viver em plenitude ❤

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5 ideias sobre “História de Raquel

  1. Amanda Marques

    “Os quilos a mais ou a menos não sumiam com o sentimento forte de rejeição e feiura que estavam escondidos e enterrados lá no fundo.”
    É, eu precisava ler isso.

  2. Pricila Gonzalez

    Cresci ouvindo dos meu pai que eu não precisava de roupa nova, já que era gorda e feia, e não fazia diferença mesmo. Minha irmã, linda, ganhava roupas, eu ganhava livros, pq precisaria ser inteligente e bem sucedida, já que não iria casar mesmo, néam. Para vestir, as roupas de meus pais, das tias, enfim… qualquer coisa ajustada e recosturada. Aos 5 anos pesava 60 kg!!!
    Cheguei aos 18 anos com 115 kg, mas inteligente pra ca**lho, passei em 1º lugar num concurso público super difícil e concorrido. Passei a comprar minha comida e comprei também uma guerra, pq se eu fizesse dieta ficaria burra… daí acabou-se a vida.
    Aos 30 anos, pela primeira vez, me olhei no espelho e me vi bonita!
    Mas sabe o que mais me dói? O que mais me fez e faz chorar profundamente (inclusive agora) é ver minhas fotos de criança e adolescente e constatar que eu era MUITO bonita. Não esse bonita que a gente fala pras pessoas se sentirem melhores, mas muito mesmo… E só me pergunto pq é que me mantiveram tão infeliz e atormentada por tantos anos e talvez para a vida inteira…
    Desculpe se tenho usado seu blog e a pag do face como muro de lamentações, mas é que tem muita coisa vindo à tona…

  3. Ana Paula Coelho

    Quantas verdades num texto. Meu desespero com dieta começou com 21 anos, e até aí eu não era gorda. QUANTO MAIS DIETA EU FIZ, MAIS ENGORDEI. Estou começando o processo de aprender a não fazer dieta e me aceitar. Mas esse é um processo lento e eu ainda não me achei completamente. Estou começando a me aceitar, a me amar, a mandar os outros introduzirem as suas opiniões e achismos a meu respeito em seus respectivos orifícios. Mas ó, não é fácil. O que tem de gente pra falar merda nesse mundo não tá no gibi, e são pessoas próximas, seus amigos, seus pais, gente que gosta da gente mas que não sabe quando ficar calada. Muito ajuda quem não atrapalha, já dizia o ditado, mas tem gente que ainda não aprendeu.

  4. Ciça

    Nossa… com certeza muitos irão se identificar. Eu me identifiquei. Sempre tive meu namorado me dizendo como sou linda, como meu corpo é bonito do jeito que é. Mas o problema tá dentro de mim, a insatisfação é extremamente pessoal… preciso achar uma profissional assim, que não estabeleça uma dieta que mude da noite pro dia minha rotina e me mande voltar em 40 dias dizendo “se não der certo, vou ter que pegar mais pesado com você, hein?”. Infelizmente, quando vc não segue a dieta, você não tem vergonha na cara e começa a sofrer ainda mais com as consequências disso no seu corpo. Lindo depoimento!

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