“O que é autoestima?”

Recebi um vídeo de um leitor que me perguntava “O que você acha disso”?

Era o depoimento de um rapaz musculoso que explicava as suas motivações para ter decidido “treinar pesado”. Ele se identifica como um ex-gordo.

Não quero expor sua imagem aqui, não é o intuito, mas estas foram algumas alegações:

– “Eu queria poder usar uma sunga sem passar vergonha na praia.”
– “Não há felicidade em ir a uma festa e as meninas nem repararem em você.”
– “Não há felicidade em ir num restaurante e as pessoas olharem para você como se você fosse comer tudo que tem ali.”
– “Quando você é gordo, você sempre tem que provar para os outros que você é melhor em qualquer coisa. Porque as pessoas te julgam pela tua aparência.”

Eu entendo. É uma barra tremenda. O cenário social que montamos para a pessoa acima do peso é preconceituoso, cruel, dilacerante. Não é fácil mesmo ser gordo. Ninguém gosta de ser discriminado.

 

No entanto, o rapaz completa:

– “Não tem coisa melhor, depois que você consegue teu ‘resultado’, do que estar andando na rua e encontrar aquela pessoa que debochava de você. E passar de cabeça erguida. E ELA atravessar a rua.”

Anteriormente questionei “O que é saudável”, e dessa vez me pergunto: O que é autoestima?

Digo isso porque tenho a audácia de afirmar que o gordo tem o direito de caminhar na rua de cabeça erguida. E ele não precisa emagrecer para que isso seja possível.

Toda a fala do rapaz tem a figura do OUTRO em altíssima conta. E será que vale a pena darmos tanto crédito aos outros?

Entendo autoestima como: o conceito que você faz sobre você mesmo, sem consultar ninguém mais. Ninguém. Autoestima é o que você acredita sobre você mesmo.

Mas tudo indica que da mesma maneira que “saúde” significa “status”, na sociedade contemporânea, “autoestima” significa “vingança”.

Exemplos:

ELESSS

(Eles. Eles. Eles.)

O motivo pelo qual estas pessoas estão treinando é: mostrar ao outro quais são as suas capacidades. É rir de quem um dia riu deles.

E assim um ex-gordo passa a ser o algoz que o torturou ao longo da vida, chamando os outros de “frangos” e “fracassados”. Um constante ciclo de raiva contida e devolvida.

Sinto informar, mas aquela pessoa que te acha “um bosta” já fez a decisão de te achar “um bosta”. Não interessa se você passa por ela:

a) gordo;
b) magro;
c) de ferrari;
d) de ultraleve;
e) acompanhado por uma fanfarra do exército;
f) nu com uma melancia na cabeça.

A pessoa em questão continuará não gostando de você.

Posso falar por mim. Recebo CHUVAS de críticas neste Blog, inúmeras acusações de ser uma “gorda fracassada” e de fazer “apologia à obesidade” de ser “conformista” e mais várias outras coisas muito loucas.

Também não sou exatamente um sucesso na vida cotidiana. Não sou uma criatura popular e bacana nos moldes que a sociedade determinou. Muita gente me acha: estranha, excêntrica, arrogante, chata, exagerada, xarope e blablablablabla.

Mas eu não quero (e não posso) mudar o caminho que eu escolhi, meu perfil, nem minhas convicções só para PROVAR PARA O MUNDO que eu não sou “uma fracassada”. Ou que eu posso ser como eles.

A minha citação favorita é do Artur da Távola, um pensador brasileiro muito legal que entendia muito de música clássica (eu gosto de música clássica. Não me pergunte sobre os recentes lançamentos nas paradas de sucesso):

 

Vida interior

 

Siginifica que: quando você tem um suporte interno, quando você sabe ser boa companhia para você mesmo, quando você conhece o seu valor… Você não precisa viver em função do que O GRANDE OUTRO espera de você.

Claro que: é muito legal aprender novas habilidades, treinar, modificar a alimentação. Tudo isso contribui para a nossa autoestima. Mas que as mudanças sejam por nós e para o nosso orgulho,  não em nome da opinião de terceiros.

 

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4 ideias sobre ““O que é autoestima?”

  1. Josiane

    As mensagens que são passadas sobre saúde e imagem corporal não são libertadoras, mas enredam as pessoas em modismos de dietas e exercícios para serem consumidos sem critérios, além desse de ficar/estar agradável/invejável aos olhos do outro.
    A fala do rapaz me lembrou uma frase do Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor”

  2. Amanda Marques

    Concordo que se queremos mudar algo em nossa aparência, que seja para nosso agrado e não para ou outros. Porem, as nossas mentes já foram tão bombardeadas pelos atual conceito de “belo”, que muitas vezes achamos que queremos mudar algo por nós quando na verdade estamos apenas reproduzindo inconscientemente toda a informação de que não somos o suficiente como somos. Entende? (sorry, eu não sei se fui muito clara, é difícil p/ mim tentar explicar essas coisas).

  3. Flávia

    Adorei! Talvez toda essa onda (espero, ainda que seja excesso de otimismo meu, que seja só isso: uma onda) de fitness-maromba-“vida saudável” (sic) seja fruto disso mesmo: absoluta falta de vida interior…

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