“O que é saudável?”

Hoje a nutricionista Sophie Deram fez um questionamento que me deixou pensando por vários momentos:

“O que é saudável?Esta palavra agora virou moda e é usada à toa!”

Está para nascer uma palavra mais over-utilizada e mal empregada do que… “saúde”. O combo “saúde & bem estar” é mais abrangente, profanado e VAGO ainda.

Saúde é ferramenta de status, é uma maneira de “vencedores” prevalecerem sobre “fracassados”, é um excelente mecanismo para vender milhares que quinquilharias como revistas, remédios, suplementos, alimentos, aparelhos eletrônicos, livros  e até “estilos de vida”. SIM: estilos de vida estão à venda. Vivemos num mundo mercantilizado.

“Saúde” não é a simples ausência de doença. Saúde é um direito social e uma gama de circunstâncias muito complexas. Existe a saúde física? Claro. Mas existe: saúde mental, psicológica, emocional, afetiva e até social.

Se eu quero ser uma profissional da saúde, preciso ter noção dos elementos que compõem a saúde dos cidadãos. E não é nada SIMPLES como: escolhas, dieta & atividade física, disciplina, força de vontade ou mesmo “vergonha na cara”.

(Pois é. Tem profissional por aí dizendo que os pacientes não melhoram suas vidas porque “não têm vergonha na cara”)

vergonha

(Porque é sempre uma questão de falta de vergonha nessa sua cara…)

Embora o processo de adoecimento possa ser entendido como uma mera falta de cuidados individuais, em questões de higiene, alimentação e comportamentos, não pode ser descartado o fato de que algumas doenças são fortemente determinadas pela condição social-ambiental do grupo que ela atinge (exemplo: você já viu malária em metrópoles?).

A atual prevalência das doenças não-transmissíveis (obesidade, cardiopatias, hipertensão, diabetes…) nos convida a pensar que o processo de adoecimento tem causas primordialmente comportamentais e sociais, diretamente relacionadas com os hábitos de vida e possibilidade de acesso à informação e tratamento. Portanto, adoecer é também um fenômeno social.

Se uma boa saúde não depende unicamente do querer do indivíduo, mas de seus meios de acesso a um padrão de vida saudável, aonde iremos chegar com a abordagem simplista do “no pain no gain”?

 

sem desculpas

(Cara nutricionista do Instagram: eu sei uma boa “desculpa”. Estes alimentos são caríssimos!!)

– Suponha que seu paciente não tenha dinheiro para comprar frutas, que dirá o “goji berry”.

– Suponha que seu paciente tenha um supermercado longe e com difícil acesso, então para ele é muito complicado conseguir os alimentos frescos.

– Suponha que seu paciente está imerso numa cultura alimentar obesogênica. E este ambiente familiar obesogênico é fruto de desinformação e dificuldades financeiras.

– Talvez as dificuldades nem sejam financeiras, mas sim emocionais. Talvez o paciente tenha problemas afetivos que se manifestam em seu comportamento alimentar.

São problemas muito complexos. Eu não sei as respostas. A garantia da segurança alimentar, dos BONS alimentos e de uma vida saudável para toda a população é um desafio enorme, principalmente num país desigual como o Brasil.

No entanto, sei que este BICHO DE SETE CABEÇAS de interesses financeiros não está ajudando ninguém:

“…Não dá pé
Não tem pé nem cabeça;
Não tem ninguém que mereça…”

Temos uma população: assustada, confusa, desnorteada, deprimida, ansiosa, insegura, infeliz e com MEDO de alimentos.

As coisas já estão difíceis demais, portanto não coloque o dedo na cara das pessoas para dizer “A CULPA É SUA”.

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15 ideias sobre ““O que é saudável?”

  1. Pingback: Buscando saúde | Forever Petit

  2. Bárbara Paiva

    Olá!!
    Conheci o blog hoje! Não encontrei seu nome em lugar algum, então pretendo te chamar de nutricionista dos sonhos! hahahaha.
    Já fui em tantas e já fiz tantas besteiras orientada pro profissionais da “saúde” que perdi as contas e quase a fé no emagrecimento saudável.
    Há alguns meses estou numa trajetória só do “saudável” o emagrecimento será consequência.
    Estou amando seus textos e reflexões! Há algum tempo certas coisas me incomodam, mas parece que eu sou a diferente. Mas cada dia que passa descubro mais pessoas que pensamentos semelhantes, o que me deixa animada a mudar ainda mais meus padrões e percepções. Ser tolerante, saudável e equilibrada… Isso que quero! E seu blog vai ajudar muito com isso.
    Parabéns pela formatura!!
    Caso você pretenda atender em BH, me avise que serei sua paciente número 1! hehehe.
    Beijos e continue com os textos sempre!

  3. Marta Martins

    D: Eu não to sozinha! Sempre fui gorda, desde a minha adolescência (não, não é gordinha, é gorda mesmo 😛 ) então já viu, né? A deliciosa adolescência dos excluídos por serem diferentes, a neurose familiar porque “você vai acabar tendo um treco” mesmo que eu não tenha nada clinicamente, a dificuldade para comprar roupas…

    E então, vem o bombardeio infinito de como a gordura é má e feia e não saudável e de como eu sou completamente incompetente por não conseguir emagrecer, porque é só falta de vergonha na cara, comer menos, fazer exercício… se tanta gente consegue, porque não eu? Sem contar nas dúzias de “profissionais de saúde” que colocam as dietas dos pontos, do carboidrato, da proteína, pílulas. e nada.

    Hoje eu me aceito, ponho um biquini pra ir a praia e que o mundo esteja pronto para me ver. Estou tentando me reeducar, o que é abusivamente difícil, com tanta coisa gostosa no mercado. Emagrecer, pra mim, virou uma palavra tabu, que envolve dor e sacrifícios terríveis, que significa restrições malignas e produtos caros. Estou indo do meu jeito, aos trancos e barrancos, ainda tentando por na cabeça das pessoas que magreza nem sempre é saúde, mas ó, é difícil.

  4. Marília Bohnen

    Primeiramente: adoro essa música! rsrs

    Segundamente, hehe…Vc já fez seu estágio rural? Eu tô voltando do meu agora. Estava em uma cidade onde a população não tem acesso a verduras, pois estas só chegam uma vez na semana e custam caro. E esse, obviamente, é só UM dos problemas que eles encaram.
    É muito fácil falar que é falta de vergonha na cara…
    Pra mim falta vergonha na cara de muitos profissionais de saúde e nessas blogueiras que adoram dar “dicas amigas” ¬¬ E do poder público eu nem vou falar, senão vou escrever um livro.

    Que bom que seu blog, sua página no face e seu instagram estão crescendo, acho muito importante que este pensamento chegue no maior número de pessoas possível. Isso aqui é a prova de que a internet não tem só porcaria, rsrs.

    Beijos e sucesso!

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