Menosprezo não motiva pacientes.

(ESCLARECIMENTO: Ao longo deste texto eu NÃO irei negar os benefícios da atividade física para o ser humano. NÃO irei negar que todos nós temos plenas condições de superar as nossas limitações. NÃO vou negar que uma boa saúde requer manutenção e cuidado. Também NÃO vou sugerir que os obesos se mantenham obesos.)

Iniciemos.

Basta passar alguns momentos na internet e transitar por páginas sobre “saúde” e “bem estar”… E você verá isto:

 

DESCULPAS

 

É uma “mensagem motivacional” que eu já vi 37.768 vezes e em cada uma dessas vezes eu virei os olhos pra cima e suspirei em busca de paciência.

Porque dizer para as pessoas que os problemas que elas têm para fazer atividade física é uma “desculpa”, significa que o argumento delas não é importante e isso é desmerecer as dificuldades delas.

Falando especificamente aos profissionais de saúde:

Os pacientes vêm até nós porque precisam da nossa ajuda. Não da nossa AJUDA SIMPLISTA. Da nossa ajuda. Plena.

Muitos fatores podem fazer uma pessoa ficar relutante em começar um programa de atividade física. Você já parou para pensar em como uma pessoa obesa se sente envergonhada se ela for frequentar uma academia repleta de gente magra & perfeita? Você já parou para pensar que esta pessoa passou uma boa parcela da sua vida escutando de todos os lados (parentes, televisão, revistas, novelas, filmes, propagandas e a amiga da vizinha…) que o corpo dela não é socialmente aceitável?

Se você é marginalizado e tratado como um: feioso, preguiçoso, fracassado, fanfarrão… É natural o desconforto no momento de fazer atividade física em público.

E a subjetividade das pessoas é uma coisa muito importante.

desculpa 2

 (Só que NÃO, pessoas: não é tão simples!!)

“Faça atividade física. Suma da minha frente. Dê um jeito. Não quero ouvir suas desculpas” NÃO É uma forma de ajudar o paciente que inicialmente solicitou a sua ajuda!!

Se a região onde a pessoa vive é perigosa e ela não pode sair para se exercitar sem correr riscos… Isso não é uma “desculpa”.

-Se a pessoa em questão for idosa, vive sozinha e precisa de ajuda para fazer atividade física… Isso não é uma “desculpa”.

– Se a pessoa NÃO GOSTA de atividade física e precisa encontrar uma modalidade que lhe agrade, ou que não a faça se sentir envergonhada… Isso não é uma “desculpa”.

– Se a pessoa resolve seus problemas afetivos através da comida e a relação dela com os alimentos precisa ser reestabelecida… Isso não é uma “desculpa”.

– Se a pessoa sofre de depressão e tem, SIM, dificuldade para deixar a própria cama e não se vê capaz de fazer atividade física… Isso não é uma “desculpa”.

Podemos ter o maior dos conhecimentos em bioquímica, metabolismo, gasto energético, fisiologia humana. Podemos ter títulos de honra e tratados publicados: Isso tudo de nada vale se o fator humano for desconsiderado.

Não estamos lidando com livros-texto, nem fazendo um estudo de caso da faculdade.

Dizer ao paciente que ele “está dando desculpas” é desmerecer os seus sentimentos e isso é desumano. E não vai ajudar.

O que podemos fazer?

NÃO MENOSPREZE o que o paciente está alegando. Talvez soluções interessantes possam ser encontradas através de um bom diálogo. Quem sabe será necessária a ajuda de um educador físico ou um psicólogo? Quem sabe o paciente apenas precisa de alguém que: não o julgue, o aceite e entenda?

Temos o dever de valorizar os sentimentos dos nossos pacientes.

Sem mais.

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10 ideias sobre “Menosprezo não motiva pacientes.

  1. Lígia Santos Barreto da Costa

    Nossa, falo isso desde o meu primeiro ano de faculdade quando tive psicologia. Quando me formei e trabalhei numa clínica só tive mais certeza ainda disso.

  2. Humberto

    Parabéns pelo texto. Só acrescento uma coisa: não serve apenas para pensar nos pacientes, serve para os/as alunos/as também. Sou professor de Educação Física e o que mais vejo por aí são colegas tratando as pessoas desta forma. É preciso entender que existe uma pessoa e não apenas um organismo buscando cuidados com alimentação, práticas corporais e afins.

  3. Raquel Rocha

    ótimo texto… outra questão (falo em causa própria) é que muitas pessoas com transtornos alimentares ou dificuldades em emagrecer relacionam a atividade física com o problema (e com uma possível solução), o que faz com que a atividade seja uma fonte de tortura em vez de ser um momento de prazer… Hoje corro com prazer, mas isso só foi possível depois que consegui entender que o emagrecimento não estava associado a isso e sim a entender e respeitar minha fome, minhas vontades e meu prazer. A atividade física deve vir como uma forma de se sentir melhor, de relaxar ou até de superar seus limites (o que não quer dizer a mesma coisa que se diminuir) e não como forma de cobrança de alguém que se julga melhor…me dá arrepios ouvir “você precisa ter força de vontade” de um profissional ou de uma pessoa com dificuldades “o meu problema é que eu não tenho disciplina”… se o ser humano fosse tão simples assim…

  4. Lucia Freitas

    AEEE
    belíssimo texto. Como paciente sempre escuto essa joça e me enche o saco, só do médico falar…
    oras, ok, eu já caminho muito (amo) mas preciso de mais que isso. E cadê $$? E cadê lugares bacanas perto de casa (pq, né, tô podre de saber que se for longe, não rola). E cadê algo além das academias que odeio? (mesmo, não suporto a sensação de que vou virar mais um robô pasteurizado lá dentro).
    Me senti representada, porque não é só na hora do exercício que os sentimentos e emoções são absolutamente desconsiderados. É sempre que tem saúde na parada… affff

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