O Paradoxo do Bom Resultado

Nesta semana, eu li uma notícia que me deixou muito chateada.

A ginasta romena Sandra Izbasa, de 23 anos, comentava que perdeu uma prova de solo que lhe garantiria o ouro por estar “má nutrida”.

A atleta estava sem comer há dias, apenas tomando água e isotônicos.

No texto, Sandra comenta que se pudesse apagar um dia de sua vida, seria o dia da sua final de solo em Londres.

“Até hoje, quando assisto o replay, choro muito porque eu sei que eu perdi por estar desnutrida.”

sandra_izbasa_2_17e9dc31c7libertatea(Sandra Izbasa, uma atleta que passou fome)

Infelizmente, casos assim não são incomuns. É reconhecidamente alto o percentual de transtornos alimentares entre bailarinas e ginastas.

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“Treinadores e professores devem estar atentos.”

Ok. Concordo.

Mas o que acontece quando o problema é ESTIMULADO pelos treinadores, ensaiadores, professores e demais envolvidos?

Conheço muita gente que argumenta que “é a maneira Russa, é assim que deve ser, toda performance demanda sacrifício etc etc etc.

Mas será que as coisas devem ser assim??

Observemos o vídeo A)

 

Observemos o vídeo B)

 

As duas bailarinas têm altíssimo nível técnico, e atualmente são profissionais. Mas existe uma gritante diferença no tratamento que receberam.

É notório, é de comum conhecimento que a escola de Ballet de Perm, na Rússia, afoga suas alunas em abuso físico, psicológico, emocional e verbal.

Este fenômeno é chamado “A Beautiful Tragedy” (uma linda tragédia): O resultado final é lindo, mas não deixa de estar acontecendo uma tragédia nos bastidores.

O que pensar de tantas histórias de privação e sacrífico no mundo das finas artes?

Meu lado amante do Ballet Clássico, da Opera e das Sinfonias diz: SIM.

Meu lado amante da Nutrição, da Saúde, da saúde emocional das pessoas, da cortesia e da gentileza diz: NÃO.

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(Charlton Heston interpreta Michelangelo em “Agonia e Êxtase”, de 1965)

A arte  está sempre relacionada com a dualidade “Agonia e Êxtase”:
A situação: um senhor que ficou cego de tanta tinta que lhe pingou no olho, problemas severos de coluna por ter permanecido deitado num andaime por décadas e a pior qualidade de vida imaginável.

O resultado: O teto da Capela Sistina.

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 (Este é o “paradoxo do bom resultado” )

 

Mas eu tenho a audácia de sugerir que: corrigir não é a mesma coisa que humilhar, explicar não é a mesma coisa que xingar, liderar não é a mesma coisa que mandar e respeito não é a mesma coisa que medo.

Será que não teríamos melhores resultados se tivéssemos mais atletas e bailarinas nutridas, emocionalmente equilibradas e tratadas com respeito?

Qual é o resultado positivo de gritar, xingar, maltratar, punir e fazer garotas passarem fome?

Arrisco dizer que: resultado positivo NENHUM, apenas uma bagagem de lixo emocional difícil de abandonar ao longo da vida

Estamos em 2014. Não estamos em 1914… e muito menos em 1814.

Por esta razão, que tal reinventarmos a nossa maneira de compreender as artes e os esportes?

ATUALMENTE nós temos conhecimentos de:  nutrição, ortopedia, fisioterapia, PEDAGOGIA, psicologia, fisiologia… E a partir de 1948 temos uma coisinha bem legal que se chama DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS.

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(A bailarina russa Oksana Skorik e sua miserável infância: Será que precisamos disso?)

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No pain…NO PAIN. Não parece simples?

Acredito muito que bons resultados podem ser encontrados quando compreendemos nossos limites físicos e mentais, os respeitamos e aprendemos a LIDAR com eles.

Performance segura não é sinônimo de má performance!

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3 ideias sobre “O Paradoxo do Bom Resultado

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Concordo!

    Muito obrigada pelo comentário. Definitivamente, seu sofrimento não é “mimimi”… Não acredito na pedagogia do terror e nem que um “bom rendimento” justifique todos os sacrifícios. Já temos muitos recursos físicos, psicológicos, pedagógicos para ensinar as pessoas sem TORTURÁ-LAS.

    Beijos!

  2. Ana

    Olá. Há dois anos, passei em um concurso público para me tornar policial e o texto me fez lembrar de tudo o que eu vivi durante o curso de formação. Há colegas policiais que vão afirmar que isso é tudo mimimi. Que seja. Os professores nos humilhavam, diziam que éramos fracos, perdedores, nada do que fazíamos era bom, diziam que sempre perderiamos para os bandidos. Eu realmente não estava convicta se queria ser policial ou não e aquele tratamento “pseudo-militar” me estressava demais e jogava minha autoestima no lixo. Além disso, o ambiente era muito, muito competitivo. Estimulava-se pouco a cooperação e eu me sentia só e sempre devendo algo a alguém lá dentro. Era terrível. Poderia ter aprendido mais, curtido mais, se não tivessem atiçado tanto o nosso medo. Creio que não aconteceu isso só comigo. Resultado: fiquei somente 2 meses na polícia e pedi exoneração. Mas o pior é que levei uns 6 meses ou mais para tirar da cabeça as palavras de um delegado que disse: “vc largar a polícia é falta de fibra, é coisas de perdedor.” Fiquei um tempão com essa síndrome de incapaz, de perdedora, de fraca, de falha. Mas quer saber? Em qualquer situação eu estaria melhor do que nesse terror psicológico. E com o tempo eu fui entendendo isso e agora estou bem. Mas essa psicologia do “vc não presta” gera resultados imediatos sob pressão, mas destróem o emocional da pessoa, em curto, ou longo prazo. O meu emocional se foi rapidinho com essa brincadeira. Estímulo duradouro nunca vem com a humilhação.

  3. Amanda Marques

    Eu faço ballet a anos e sem bem como é isso. E sinceramente? Pelo menos aqui pelo sudeste parece que é um espécie de prêmio entre os professores ver quem tem a bailarina mais doente, a mais fragilizada… claro que, isso de fato não acontece as claras. Entendo que a todo um contexto de melhor execução de passos se a pessoa é mais magra e tals, mas tudo tem um limite. Ou deveria ter. Eu não sou magra e admito que morro todo o dia um pouco tentando ser, mesmo sabendo que nem vale a pena.

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