Aparencite.

Recentemente eu conheci um rapaz que foi portador de anorexia nervosa e conversei com ele (a anorexia é mais rara entre os homens, configurando cerca de 10% dos portadores ).

Ele relatou que foi uma “criança gordinha”… Sofreu discriminação por isso até que em determinado momento da sua adolescência ele decidiu modificar seu corpo fazendo restrição alimentar e musculação. Diferentemente de outros homens que praticam musculação, este rapaz queria muito ser magro (“seco”, nas palavras dele)… Cada vez mais magro.

Quando foi alertado por um médico e encaminhado a um psiquiatra, ele já se encontrava 10 quilos abaixo do desejável. Hoje ele já ganhou peso, mas ainda se sente desconfortável em relação à comida. Tem medo de engordar. Reduziu bastante as horas que passava na academia, mas ainda não se vê capaz de deixar de treinar todos os dias.

Eu já estava pensando em escrever sobre os problemas do comportamento alimentar entre os homens, então me alertaram que havia alguém na internet se queixando que eu estaria atribuindo a pressão para termos uma “boa aparência” somente às mulheres.

Gente, não.

Eu estabeleci o público alvo do meu Blog como o feminino porque: eu sou uma mulher também, eu tenho mais experiência com questões relacionadas à feminilidade e porque os problemas de comportamento alimentar/imagem corporal são mais prevalentes entre o sexo feminino.

Mas isso jamais significou que a obsessão com a tríade magreza, beleza & juventude seja uma exclusividade das mulheres!

Eu costumo dizer que considero a preocupação com a “beleza” como um severo problema de saúde mental coletiva. E este problema tem consequências.

O gênero humano no século XXI está vivendo em função da aparência de maneira muito pronunciada. E eu já testemunhei mulheres, homens, adolescentes, crianças e idosos sofrerem consequências desse mal.

Eu chamo este problema de APARENCITE. É grave e altamente contagioso. Há exemplos dessa febre em todos os lugares.

Aparencite montagem

Quantas mensagens dessas recebemos por dia? Por mês? Honestamente não sei dizer. Eu tenho a sensação de estar me afogando.

(AAAAH, parem!!)

Em locais públicos, esperando o ônibus, no local de trabalho, na grande mídia, em cartazes e anúncios, nas revistas no consultório médico, na fila do supermercado… EM TODOS OS CANTOS.

Não podemos passar um só dia sem sermos alvos do imperativo: “Emagreça!! Tenha uma boa aparência! Seja sexy! Mantenha-se jovem!!”… Seja você quem for.

Eu não sei se a loucura das pessoas alimenta o discurso midiático ou se o discurso midiático alimenta a loucura das pessoas. Eu desconfio que chegamos em uma delicada situação “ovo-galinha” que é cíclica e incontrolável.

(Socorro!! Salvem suas vidas!!)

A Aparencite tem vítimas de todos os sexos e de todas as idades. Ela é uma doença muito democrática e é muito difícil sobrevivermos à sua influência.

São todos casos de aparencite:

Jovem moça, NEM UM POUCO acima do peso, que faz dieta sem precisar e fica fraca e de mal humor.

– Senhora de mais de 70 anos, que quis porque quis realizar uma lipoaspiração. Procurou um médico que não quis fazer. Procurou outro e mais outro. Até conseguir alguém que a operasse. Depois teve um pós-operatório dramático.

– Rapaz que se olha no espelho e detesta o que vê, decide aumentar sua carga de treinos na academia.

– Rapaz que recebeu de um colega a dica de um remédio para “crescer rápido” e acabou na UTI por 5 dias.

– Moça que acorda de madrugada, come escondido até não poder mais e depois vomita.

– Pessoas de todos os sexos que sentem vergonha de comer na frente dos amigos.

– Pessoas de todos os sexos que têm medo de engordar.

– Garota de 14 anos que não sai de casa sem rímel. Mesmo que seja às 6 da manhã.

– Idosos que acham que “precisam emagrecer”, mas não entendem porque.

– Colegas de trabalho que trocam receitas de água de berinjela, shake emagrecedor, suco detox.

– Senhora que aplica botox, detesta suas rugas, sente saudades de seus “belos dias” de juventude.

– Moça que nunca acordou da anestesia da lipoaspiração.

– Rapaz que sofre por causa de uma rinoplastia que deu errado.

– Rapaz que usou substâncias estimulantes para treinar. Não sabia que tinha problemas cardíacos.

– Modelo que ouve que tem “boas chances” de um novo trabalho, se emagrecer uns 3 quilos.

– Amigas que sofreram queimaduras graves por causa de um produto bronzeador caseiro.

– Mãe de primeira viagem que mal se relaciona com seu filho, pois deseja emagrecer.

– Adolescente que  detesta tanto o seu corpo que se auto mutila com um estilete.

– Universitária que controla o peso com uso de laxantes.

Eu poderia escrever casos assim por horas. Por dias. No momento estou de coração partido porque ontem eu fiz um trabalho de educação nutricional com um grupo de crianças e uma garotinha de cinco anos me cutucou e veio me dizer o seguinte:

– Tia, eu vou crescer magrinha, tá? Eu não vou ser igual à minha mãe, que é gorda.

Olha gente: Estamos vivendo um problema sério. É profundo e coletivo. Colocar a beleza e a aparência como valor central de nossas vidas está causando apenas sofrimento e ansiedade. Para todas as pessoas.

Nós somos de uma geração que não apenas julga o livro pela capa, mas que nem lê o livro!!

Não nos importamos com NADA MAIS além dos atributos físicos.

Se eu pudesse ser ouvida, eu diria que fôssemos mais gentis uns com uns outros. Que soubéssemos buscar, admirar e identificar outros tipos de qualidades. Que não fôssemos tão preconceituosos e excludentes. E nem tão exigentes. O “corpo perfeito” não só não existe, como não vai levar ninguém a lugar nenhum.

AMEM-SE, por favor. Porque este é o único modo de construirmos coisas boas para nós e para as pessoas que amamos.

mirror love

Anúncios

Uma ideia sobre “Aparencite.

Os comentários estão desativados.