História de Keila

A Keila é uma amiga muito especial da autora deste Bloguinho (que sou eu)… Ela foi muito corajosa e me pediu para compartilhar sua experiência com a compulsão alimentar.

A história da Keila é semelhante à história de MUITAS outras mulheres que padecem do mesmo sofrimento.

Mas ela é a prova (sou testemunha disso) que com uma atitude positiva e a ajuda de pessoas queridas ao nosso redor, esse quadro pode mudar:

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“Oi, sou a Keila. E sou gorda. Desde que me conheço por gente, eu brigo com a balança. Cresci fazendo dieta, indo para academia. Mas continuei gorda.

Nem sempre foi assim, sabe? Teve um período que fui magra, muito magra na verdade. Nossa, que alegria, né? Todo mundo falando “nossa, como vc emagreceu..está linda!” Só que no fundo eu não estava assim feliz, como eu achei que estaria se finalmente conseguisse ser magra e entrar numa calça 38. Por alguns motivos:

1) Ninguém, NINGUÉM mesmo, sabe EXATAMENTE o que eu fiz para ficar magra.

2) Eu não me enxergava magra.

3) Todo mundo deixava bem claro que eu estava bonita porque tinha emagrecido, apenas por isso. Quando estava gorda, era feia.

            Pois bem, o tempo passou e eu já não consegui mais me manter magra, não conseguia mais fazer o que fazia, a necessidade de comer era maior. Daí foi que cheguei ao outro extremo: comer comer comer…descontroladamente, muitas vezes. E isso gerou um ciclo. Comer, purgar, comer, purgar. Não é fácil, viu? E o pensamento sobre “corpo, magreza, comida, calorias, jejum” dominava minha mente, O TEMPO TODO.

 E a cobrança diária, minha e de quem vive ao meu redor “Já emagreceu um pouco? Está conseguindo ‘maneirar a boca’?”…respostas curtas e grossas…sim, não, mais ou menos. Quando a minha vontade era/é dizer “Por favor, me deixe em paz. Eu só quero fazer as pazes com a comida e me aceitar”. Mas a cobrança persiste e não é apenas verbal. Eu sou a ovelha negra da família. Todos “se cuidam”, todos são magros, todos vão para a academia para ficar com o corpo bonito. Eu até fui um período e me descontrolei nisso também. Ficava cerca de 3h na academia todo santo dia, também para compensar todo meu descontrole em casa. Mas acabei abandonando isso e passei por um novo período de sedentarismo. Juntamente ao meu problema alimentar, isso me rendeu 15 Kg a mais em um período de 4 meses.

 Isso, porém, porque não tenho força de vontade: essa é a explicação que todo mundo dá para a minha compulsão alimentar. “Compulsão alimentar? Pfff…isso é desculpinha!”

Ok…deixa eu explicar uma coisa para você, que eu sei que possui um mínimo de inteligência para compreender isso: não é desculpinha, tá? Definitivamente, perder o controle, comer exorbitantemente e continuar comendo mesmo quando você já não aguenta mais, mas não consegue parar, não é uma desculpinha e não é agradável. Se sentir culpada por isso, tomar remédios para por tudo isso pra fora, morrer de dor no dia seguinte, chorar porque tá fazendo isso de novo, REALMENTE, não é uma desculpinha.

            Estar acima do peso, obesa na verdade, não é algo que me deixa feliz…não mesmo! Ainda mais quando o assunto principal em reuniões familiares é emagrecimento, treino e suplementação. Isso me corrói, ninguém imagina o quanto, porque eu sou a “fora do padrão” da família. E tudo o que falar a esse respeito sempre vai ser visto como argumentação de uma gorda recalcada.

            Mas daí vc consegue ver uma luz no fim do túnel quando encontra um blog que trata desses assuntos e quando a dona do blog é sua amiga e já perdeu muitas horas te ajudando com isso. Sem dúvidas, teve papel importantíssimo para me ajudar a entender meu problema, procurar ajuda. Não vou dizer que hoje sou feliz comigo mesma, que me aceito como sou, isso infelizmente ainda não seria verdade. Fica mais difícil ainda quando vc percebe que o blog é amplamente criticado pelas pessoas que não compreendem essa realidade, a pressão da sociedade e tratam disso com chacotas, mais uma vez deixando claro que nós, os gordos, somos tudo aquilo de “ruim” que todo mundo já sabe. Ou que transtorno alimentar é só falta de vontade/disciplina. Porém, eu estou progredindo. Estou aos poucos tentando pacificar minha relação com a comida, para que o ato de se alimentar não seja mais sinônimo de descontrole, culpa, sofrimento.

Estou tentando compreender que tenho qualidades que vão além da minha forma corporal e que tem pessoas de minha convivência que não ligam para o meu tamanho 46 (devo dizer que não é nada fácil dizer isso publicamente, mas aí está). Feito isso, aí sim poderei cuidar da minha SAÚDE de forma satisfatória, sem compulsões, sem jejuns, sem laxantes, sem me maltratar, sem me punir.”

 

Keila, querida: eu jamais “perdi horas” te ajudando com isso. Seu relato é uma comprovação de que eu apenas GANHEI. Ganhei uma sensação imensa de orgulho, gratidão, admiração e satisfação. E acima de tudo, uma imensa alegria por ter uma pessoa tão especial como amiga.

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(Coloque isso, fica lindo em você…Bem melhor!)

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3 ideias sobre “História de Keila

  1. Amanda Marques

    Esse depoimento me lembrou a este post da Lia Camargo. http://www.justlia.com.br/2013/07/do-meu-corpo-cuido-eu/

    Me incomoda o fato das pessoas não se perguntarem o que tem por trás da nossa aparência. Porque uma pessoa que emagrece não é necessariamente porque ela está sendo saudável, ela pode estar sofrendo de um transtorno alimentar ou alguma outra doença que a levou a isso. Da mesma forma a que engorda. E aquela que repetiu o look nas fotos do facebook/instagram, pode não ter grana pra comprar roupa nova porque a mãe perdeu o emprego, ela não tem pai e agora tem que sustentar a casa com a grana dela. Ou aquela que tem acne por causa dos hormônios e não tem grana pra bancar o tratamento dermatológico e vive com a pele manchada. Enfim, isso são só hipóteses de problemas reais que pessoas tem mania de chamar de “desculpas”.

    Keila, sorte sua ter uma amiga como a dona deste blog e sorte minha ter encontrado esse blog! Porque a jornada em busca da aceitação e da quebra de padrões não é nada fácil, mas, um dia venceremos!

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