Eu e a Nutrição.

Recentemente um comentário enviado aqui no Blog me deixou muito feliz:

” (…) Eu aprendi a gostar de mim mesma, com o corpo que eu tinha… Mas o medo de engordar assombra. Então descobri que posso sim comer de tudo e ser saudável. Posso comer pão francês com manteiga e leite com nescau de manhã porque é bom e tem gosto de infância. Posso comer o almoço mineiro do meu pai, ou o pudim da minha avó. Engordar não é a pior coisa do mundo. Não usar 38 não é a pior coisa do mundo. A pior coisa do mundo é perder momentos da sua vida, momentos felizes e gostosos, se odiando ou tentando fazer dieta.

Parabéns pelo blog!”

Eu fiquei feliz porque existe uma pessoa não não está com “medo” de comida. Que entendeu que a alimentação também tem grande significado emocional e afetivo. Que entendeu que ela não é um robô para “abastecer com nutrientes.”

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Serei Nutricionista. E eu AMO o que eu escolhi.

Vou me formar este ano (Yay!) e posso afirmar que como toda escolha profissional, a Nutrição pode causar muita satisfação, mas também muita decepção e frustração.

Eu fico triste quando, no imaginário popular, eu sou vista como a mulher que dá dietas.

Não é tão simples.

Nutricionistas são necessários em restaurantes, hospitais, Unidades Básicas de Saúde, refeitórios, escolas (PNAE – Programa Nacional da Alimentação Escolar… sabe?). Nutricionistas precisam entender de economia, política, sazonalidade (a comida não “brota” no supermercado. Existe um processo de produção e distribuição que precisamos conhecer). Precisamos saber sobre a diferença entre agricultura familiar e agronegócio, e dos riscos dos agrotóxicos para a saúde. Além disso, a alimentação tem significados sociais, antropológicos, históricos e afetivos profundos.

COMER é complexo. COMER é democrático. COMER é misterioso. COMER é necessário. COMER incorpora a matéria à nossa volta ao nosso corpo e nos transforma em novas criaturas. COMER evoca corporeidade, energia, saúde, tradição, história, crenças, preferências e personalidade.

Por todas essas razões, eu não fiz 5 anos de Universidade para descobrir “qual comidinha funcional que vai deixar as pessoas bonitinhas”.

Dieta da proteína, Dieta de South Beach, Dieta de Beverly Hills, Dieta zero carbo, Dieta dos pontos, Dieta da Lua, Dieta do tipo sanguíneo, Dieta da sopa, Dieta do Suco, Dieta do Leite, Dieta Funcional, Dieta Termogênica, Dieta do Vinagre, Dieta do Limão, Dieta Paleolítica (uuuuuff!!!), Dieta do Bilu, Dieta da Tetéia…

Quando foi que mediocridade virou a norma?!

Quando foi que o ALIMENTO perdeu seu valor e foi substituído por suplementos bobos produzidos na fábrica?

Quando foi que potes cintilantes de Whey Protein viraram ferramenta de status?

Quando foi que NUTRICIONISTAS graduados começaram a buscar, aceitar e perpetuar “dicas de bem estar” de pessoas leigas?!

Quando foi que começamos a fazer questão de importar alimentos CARÍSSIMOS (“super” frutas e sementes não sei daonde) que não são oriundos da nossa região geográfica, sendo que o que nós produzimos aqui fomenta a agricultura local e é tão nutritivo quanto?!

Quando foi que inventamos que entupir a cara de frutas, verduras e sucos verdes cheios de agrotóxicos (AH, você não sabia disso?) irá “desintoxicar” o organismo de alguém?

“Orgânico para todos então!” AHAM.

Vivemos num país repleto de desigualdades, com altos índices de doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, cardiopatias). Tem gente que não tem dinheiro para comprar comida (É! Tem!). Existem mães que alimentam suas crianças com leite diluído e sopa de papelão…

…E tem nutricionista se preocupando com “barriguinha do verão”, “suco detox” e fotinha no Instagram?! Em diminuir o percentual de gordura corporal de 16 para 12%… Porque sim? Porque é modinha? Porque é legal? Porque deu na telha?

Deu dessa bobagem, né? Se somos profissionais deveríamos agir com seriedade.

COMER NÃO É NENHUM MISTÉRIO. A comida não é nossa inimiga, não precisamos ter medo dela. Não precisamos criar engenhosidades incríveis e sacrifícios sangrentos só para nos alimentarmos.

O que foi que a aconteceu com a harmonia, a naturalidade das coisas? Arroz, feijão e uma fruta depois do almoço? Um eventual pudim na casa da avó? Um consumo coerente de todos os nutrientes, bastante água, atividade física, amor próprio e pelos outros?

Perdemos o contato com a textura e o sabor dos alimentos. Perdemos o contato com nossas sensações corporais de fome e saciedade. Comer não tem mais graça! Ficamos preocupados apenas com “o que este alimento fará com a aparência do meu corpinho”.

“MEU CORPINHO. MEU CORPINHO. MEU CORPINHO……”

Cheeega disso, gente! Que Egocentrismo!

Falo mesmo! Porque estou triste.

Se eu quisesse escolher o caminho fácil, se eu quisesse a solução mais cômoda para a minha formação profissional, este seria um Blog de DICAS DE BEM ESTAR PARA SEDUZIR NO VERÃO.

Não é o caso.

PS: NÃO estou fazendo apologia à obesidade. NÃO estou discursando contra a prática de atividades físicas. NÃO estou negando que “o ser humano precisa ter saúde”. NÃO estou mandando ninguém parar de “se cuidar”.

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