Questão de ângulo.

No romance “O Senhor das Moscas”, de William Golding, vários garotos entre 6 e 12 anos sofrem um acidente de avião e acabam perdidos numa ilha isolada no meio do oceano.

Aos poucos perde-se o que foi talhado no comportamento dos meninos pelos pais, pela vida urbana, pela escola, pela religião… Eles criam as próprias leis, muitas delas baseadas em suas fantasias infantis. Pouco a pouco os garotos se entregam à bestialidade, e o autor questiona a essência da natureza humana.

Existe um momento em que um dos garotos, Ralph, questiona a solidez da realidade que conhece quando contempla os rostos dos colegas à luz do crepúsculo:

“… Nunca haviam tido uma reunião em hora tão avançada assim. Por isso, o lugar parecia tão diferente. Normalmente, a parte inferior do telhado verde era iluminada por uma massa confusa de reflexos dourados e os rostos eram clareados de modo invertido, como – pensou Ralph – quando se tem nas mãos uma lanterna elétrica. Mas agora a luz do sol chegava obliquamente, de modo que as sombras eram o que deveriam ser.
Sentiu outra vez aquela estranha inclinação de especular, que lhe parecia tão estranha. Se os rostos eram diferentes quando iluminados de cima ou de baixo, o que era um rosto? O que era qualquer coisa?”

Quando li esse trecho do livro, pensei nesse vídeo que uma vez eu vi, mostrando justamente as diferentes impressões que podemos ter de um rosto, unicamente por causa da iluminação:

Por quê nos permitimos viver em função de IMAGENS, sendo que imagens são simplesmente uma mistura de sensações?

Determinamos os nossos conceitos de bonito/feio, desejável/indesejável, harmônico/desarmônico à partir do nosso espectro de cores humano (que se resume a quatro cores primárias…)

Me pergunto o que o camarão mantis, que é um bichinho legal, que pode enxergar cores que nós nem conhecemos, teria a dizer sobre isso.

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