A Vela de Sebo

Hoje eu vou postar uma história. É o meu conto preferido, e é a primeira publicação de Hans Christian Andersen. Não se sabe ao certo o ano em que foi escrito. O manuscrito foi descoberto por um historiador.

Eu gosto dessa história porque ela nos faz voltar às nossas origens. Àquilo que é verdade para nós, e para ninguém mais.

“O mundo não quer saber de velas de sebo”, o autor diz. E o problema não está na vela, está no mau uso que foi feito dela. Da falta de delicadeza e respeito daqueles que a manusearam.

O mundo adora nos dizer o que fazer, quando fazer, como fazer, onde estar, onde ir, com quem ir, o que comer, o que vestir, quanto pesar, do que gostar, o que consumir, o que assistir…O mundo determina quem vale e quem “não vale”…

Mas nada disso é para o nosso bem.

Seremos felizes quando descobrirmos, genuinamente, qual é o nosso lugar. Mesmo que o resto do mundo não goste. Mesmo que o resto do mundo não entenda. Assim como aconteceu com a velinha de sebo.

 

A VELA DE SEBO

“Aquilo chiava e fervia enquanto o fogo dançava debaixo do caldeirão; era o berço da vela de sebo –e do interior do berço cálido surgiu a vela perfeita, elegante, brilhando branca e esguia. A julgar por seu aspecto, todos os que a contemplavam se convenciam de que ali estava a promessa de um futuro feliz e radioso –uma promessa que, como todos viam muito bem, ela não deixaria de cumprir.

A ovelha –uma linda ovelhinha– era a mãe da vela, enquanto o caldeirão onde se derretia o sebo era seu pai. Da mãe ela herdara o admirável corpo branco e uma certa noção da vida; mas do pai recebera o desejo de ter uma chama ardente, capaz de penetrar medula e ossos –e de “brilhar” vida afora.

Contudo, acreditava demais no mundo; e o mundo só se interessa por si mesmo, não quer saber de velas de sebo… Porque, incapaz de entender qual era a finalidade da vela, o mundo tratou de usá-la em proveito próprio e manuseou-a de forma errada, sem cuidado; seus dedos sujos foram manchando cada vez mais a cor imaculada da inocência, que acabou desaparecendo por completo, coberta pela imundície do mundo inteiro, com o qual a vela mantivera um contato próximo demais, ela que nunca soubera a diferença entre o sujo e o limpo… mas que mesmo assim, por dentro, continuava inocente e pura.Sim, essa era sua feição, assim ela se formara: entregara-se à vida impregnada das melhores e mais luminosas esperanças. E nela encontrara um número incrivelmente vasto de outras estranhas criaturas às quais se misturara, desejosa de aprender a conhecer a vida e, quem sabe, dessa maneira encontrar o lugar que melhor lhe correspondia.

Os falsos amigos perceberam que eram incapazes de atingir o que havia por dentro da vela e, furiosos, descartaram-na como uma coisa inútil.

Mas a superfície externa, negra de sujeira, não deixou que os bons entrassem –os bons ficaram com medo de se contaminar com aquele pretume, não quiseram ficar manchados– e por isso guardaram distância.

E a pobre vela de sebo ficou sozinha e abandonada, sem saber o que fazer. Sentia-se desprezada pelos bons; agora entendia que não passara de um instrumento para que os maus fossem mais fundo em sua maldade; sentiu-se, com isso, tremendamente infeliz, vendo que não dedicara a vida a nada de útil, talvez até tivesse conspurcado o que havia de melhor ao seu redor –era incapaz de compreender para que ou para onde afinal se dirigia, ou por que razão vivia neste mundo– e estragado a si mesma e aos outros.

Cada vez mais e com maior profundidade ela refletia, mas quanto mais pensava, maior era seu abatimento, pois era incapaz de encontrar alguma coisa boa, algum sentido autêntico para sua existência –ou de divisar a meta que lhe fora destinada ao nascer. –Era como se aquela camada negra também tivesse coberto seus olhos.

Foi então que ela encontrou uma chamazinha, um pavio; ele conhecia a vela de sebo melhor do que ela própria; aquele pavio percebia as coisas com enorme clareza –inclusive através da camada externa– e, lá dentro, encontrou uma grande bondade; sendo assim, aproximou-se dela; luminosas esperanças despertaram na vela; que se acendeu –e o coração, dentro dela, derreteu-se.

A chama explodiu, como uma tocha de júbilo num matrimônio abençoado, e tudo ao redor se iluminou e ficou claro; desvendando os caminhos para os que a levavam, seus amigos de verdade –que agora também buscavam a verdade guiados pelo clarão da vela.

Contudo, o vigor do corpo também era suficiente para nutrir e carregar a chama ardente. –Gotas e mais gotas, como sementes de uma nova vida, escorreram ao longo da vela e recobriram com sua substância –a sujeira passada.

Elas não eram apenas a matéria daquele matrimônio mas também seu enlace espiritual.

Agora a vela de sebo encontrara o lugar que lhe cabia na vida –mostrando que era uma vela de verdade, que brilhou durante muito tempo para sua própria alegria e a das outras criaturas…”

candle

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