NÃO SOU porca gorda!!!

Já falei sobre isso anteriormente aqui no Blog (minha carta teve uma repercussão que eu honestamente não esperava…)

Mas acho fundamental ceder o meu espaço ao Coletivo Antigordofobia para uma nova carta à Thais Neves, dona da hashtag #souporcagorda, porque o preconceito e as noções errôneas sobre saúde e beleza ultrapassaram todos os limites.

Não existe nada de inocente, saudável ou engraçado no ato de se humilhar nas redes sociais. Demonstração de carência, intolerância e baixa autoestima, a nova hashtag que está na moda é a epítome da autopunição da mulher contemporânea.

Não caia nessa. Não se deprecie. Não se ridicularize.

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Carta aberta a Thais Neves

Prezada Thais,

Querer emagrecer não é errado, levar um estilo de vida saudável é ótimo, mas sabe o que não é legal? Agredir todo um grupo de pessoas por causa disso.

Começando pela sua contrariedade a moda plus size. A despeito de todas as problematizações a respeito do termo PLUS, que como todo termo, de certa forma categoriza pessoas, é muito válido que o mundo da moda englobe corpos gordos, corpos que não se encaixem no padrão, pois todo corpo é único e possui SIM sua beleza. Além disso, saudáveis ou não, todos nós devemos ter o acesso a roupas e o direito a se ver representada.

Além disso, temos que problematizar o uso do termo “obesa”. Existem pessoas mais ou menos gordas, e esse termo é excludente e preconceituoso, pois coloca um determinado grupo de pessoas como sendo indesejáveis,  errados ou ruins. É como houvesse um certo limite e passado desse limite, as pessoas estariam sujeitas a todo tipo de intervenção social. Simplesmente existem pessoas GORDAS, termo esse sim correto e inclusivo, pois diz respeito a pessoas que possuem determinada condição estética, podem ter ou não problemas de saúde, amam,  trabalham, choram, riem, enfim, que vivem. Ou seja, que são seres humanos como você e qualquer outra pessoa magra.

Queremos contar uma “novidade”: pessoas gordas podem sim ser saudáveis e ativas! Inclusive, muitas são. Muitas delas praticam exercícios físicos, vão a academia, dançam,  caminham, correm, ou seja, praticam as mais diversas atividades. Muitas praticam pilates, ioga, pole dance e atividades que exigem flexibilidade e habilidades corporais. Uma condição estética não limita o que um corpo pode fazer.

Sim, há pessoas gordas sedentárias, que não estão bem de saúde ou que não se alimentam de forma tão saudável quanto se gostaria, porém essas atitudes não são exclusivas entre as pessoas gordas. Pessoas magras e não-gordas também podem ser  sedentárias, não ter saúde boa ou não têm uma alimentação saudável. Aliás, nem todo gordo é doente e nem todo magro é saudável. A questão de cuidados com a saúde atinge a todas as pessoas, gordas ou magras. Entendemos que a saúde publica possa se preocupar com a saúde coletiva, mas não se deve esquecer que cada pessoa possui sua individualidade e o modo como ela lida com sua vida diz respeito somente à ela. Não dá para presumir que alguém é saudável ou não apenas observando sua aparência.

Existem diversos fatores que levam uma pessoa a se tornar gorda. Sim, eventualmente a alimentação pode ser um deles. Mas nem de longe é o único. Um problema hormonal pode causar isso; o efeito colateral de algum remédio, algumas doenças, enfim, são diversas as razões de alguém se tornar gordo. Sugerimos que busque mais informações, de modo mais profundo e crítico, antes de propagandear conhecimento superficial ou incorreto e incitar mais preconceito e discriminação. A ciência não é um discurso inocente ou ingênuo, ele contém ideologias e também pode divulgar informações falsas, erradas e carentes de maior aprofundamento.

Sentimos muito, mas você foi gordofóbica. E muito. Sua preocupação não é com a  saúde. Se sua preocupação fosse saúde, você não se importaria com o quanto a pessoa pesa, mas sim se ela leva um estilo de vida saudável ou não. Aliás, esse é um argumento muito batido usado para praticarem gordofobia. O fato é que você, consciente ou não, comprou o discurso gordofóbico e, pior ainda, está colaborando com ele.

Muitas pessoas gordas, principalmente mulheres , sofrem realmente, mas não pelo fato de serem gordas. Sofrem pelo fato de toda a sociedade as verem como feias, sujas, “porcas”, descuidadas, preguiçosas, por não terem sua acessibilidade reduzida, por muitas vezes serem recusadas em empregos, por serem rejeitadas algumas vezes pelas pessoas, que, enfim, sofrem toda uma opressão. Opressão essa que, infelizmente, está naturalizada no sistema,  que é estrutural.

Não há nada contra quem quer emagrecer. Sejam quais forem as razões, não se julga quem quer emagrecer. Essa é uma decisão pessoal.  Porém criar um “projeto”, incentivando mulheres a usarem a hashtag #tbsouporcagorda e #somostodasporcasgordas, não quer que as pessoas se aceitem. Aliás, é o completo oposto disso; é algo que instiga as pessoas a serem más consigo mesmas, a odiarem seus corpos e o de outras pessoas. Um “projeto” que visa atacar um grupo de pessoas não somente é um desserviço, mas é desnecessário e errado. É completamente sem noção, insensato, uma total falta de consideração e respeito pelo outro. Comparar uma mulher gorda a uma “porca” é animalizar um ser e tirar dele sua dignidade e valor.

Independente de ter saúde ou não, uma pessoa gorda não pode e não deve ser discriminada, desmerecida e oprimida. Pessoas gordas merecem respeito e serem valorizadas.

Gordofobia não passará!                                                                                                                                                                                                                                                                                                     Coletivo Anti-Gordofobia