Dr. Lipofobia (…e o artigo da Folha)

O atitude correta é ignorar. Sempre.

Às vezes ignoro, às vezes fico incomodada, mas não respondo.

Às vezes perco a temperança, a calma, as estribeiras.

Todo mundo, um dia, perde a paciência.

(Confesso: perdi o controle com um inbox que recebi ontem.)

Ninguém é de ferro.

Ontem eu recebi um print inbox mostrando um médico destilando gordofobia de uma maneira tão ácida que ardia nos olhos.

Publiquei na minha página porque eu acredito que a população tem o direito de saber com quem NÃO se consultar.

Ele apareceu hoje pedindo para retirar a postagem, claro.

Dei uma olhada no Instagram dele. O horror. O horror. O horror.

 

Caso perdido. Completamente perdido. Irrecuperável.

Alguém tem que ceder, certo?

Ok. Fui eu. Não vou ficar jogando ping pong com esse cara (tremendamente ignorante)

Embora eu tenha sido ameaçada de processo, acho que não é bem esse o caso. O que PODE ocorrer é o inverso:

CRM

A pessoa ESCREVEU.
A pessoa PUBLICOU.
A publicação está NO NOME DELA.
A pessoa configurou o Instagram como PÚBLICO.
A pessoa jogou um balde cheio de preconceito na REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES.

Vai processar alegando o que?

Mas tudo bem. É melhor ficar sempre longe do LODO espesso dos proclamadores de “””saúde””” no Instagram.

(Conselho que vale para todo mundo.)

E continuar na MINHA página falando sobre coisas que EU considero verdadeiras.

Beleza.

O que EU, no MEU espaço, no MEU Blog tenho a dizer sobre isso:

Uma das piores coisas que alguém pode enfiar na cabeça é que gordos são uns “inúteis que só comem lixo.”

(Sim, existe uma epidemia mundial:  a de abominar gordos)

– Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença, Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença, Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença. Eu sei que obesidade é fator de risco para doenças. Eu sei que a OMS classifica obesidade como doença.

Você não precisa comentar isso. Sério. Você não precisa fazer esse comentário. 

Você não precisa falar sobre quantos % da população está obesa e nem de quanto % das crianças estão obesas. Você não precisa falar de diabetes, hipertensão, cardiopatia, esteatose hepática, problema nas articulações. Você não precisa falar sobre o consumo desenfreado de junk food etc. etc. etc. etc.etc. etc. etc. etc.

Não precisa. Verdade. TODO MUNDO SABE DISSO. Fomos suficientemente informados.

A questão aqui é:

1) Os estereótipos que as pessoas (infelizmente, muitas da área da saúde) acreditam sobre os gordos.

2) O tratamento que a pessoa gorda recebe (esteja ela doente ou não)

3) A sociedade, como um todo, rechaça gordos.

MUITOS fatores estão envolvidos no processo saúde-doença e simplesmente NÃO É VERDADE que todo gordo é preguiçoso e fica comendo junk food.

…E se for verdade?

Vamos tentar ajudá-lo? Vamos investigar seus sentimentos? Vamos tentar, juntos, promover uma melhora nos seus hábitos alimentares? Vamos lidar com a questão de modo POSITIVO?

Não. Vamos chamar o gordo de perdedor, fraco e preguiçoso polegar

Cansei de falar que as pessoas gordas se sentem marginalizadas e discriminadas dentro de ambientes como a academia de ginástica, porque é um reduto de culto ao corpo.

(“diria que você é tipo ‘O’ em tudo”)

E o médico receita: vá fazer atividade física. Sem mais conversa.

Considera a subjetividade? A coragem que a pessoa terá de fazer isso? Ou se ela tem amor próprio suficiente para fazer isso? Preparo psicológico para fazer isso?

NÃO. Jamais.

O que fazem?

Coma menos. Se exercite. Saia da minha vista.

Ensinamos para o gordo que o corpo dele é indesejável, que ele é um lixo

(porque você é o que você come, e se você come lixo, é isso que você é).

 

Sabia que existem magros que são sedentários e comem junk food? Alguém vai falar alguma coisa?

Não.

O magro pode fazer o que ele quiser da vida dele (ser sedentário, comer junk food, fumar malrboro vermelho, comer a gordura aparente da carne, tomar refrigerante, encher a cara de cerveja). Pode.

Alguém vai chamar de “preguiçoso inútil?  Não.

o SEU problema, Dr. Lipofobia, não é uma genuína preocupação com a saúde das pessoas gordas. NÃO É.

Você não gosta delas porque o formato do corpo delas te incomoda. Porque te faz (erroneamente) pensar que elas “não se cuidam”, “não têm força de vontade”, “são preguiçosas”, “têm mente fraca”
Por estar com a mente recheada de estereótipos, você sente toda a REPULSA e PRECONCEITO do mundo pelos gordos.

Quando a ofensa parte de um simples hater que só quer encher o saco e ferir os sentimentos dos outros? Faz parte.

Quando a ofensa parte de um PROFISSIONAL de saúde? Complica.

Porque gordos podem ser seus pacientes! E nessa hora, qual a sua conduta? Com todo o repertório interno de rejeição, julgamento e intolerância que está FIXADO dentro da sua cabeça?

Você vai conseguir deixar isso de lado e enxergar um SER HUMANO na sua frente?

NÃO.

O que estou falando não é mentira. Nem “mimimi”. Basta ver a quantidade de relatos de pessoas que se sentiram MAL (algumas saíram chorando) do consultório do médico, do endocrinologista, do nutricionista. Recebo esses relatos. Com frequência.

Olham com nojo para o paciente.

“Você quer que teu marido te largue?”

“Você sabe o que fazer, é só fechar a boca, mas não quer”

“é só ter força de vontade”

“Você é gorda, ta cansada de saber o que tem que fazer pra emagrecer, hoje é facil querida, vai na Internet pega uma dieta e faça!”

Receitam CADEADO.

Dor de garganta? – Perca peso!

Quebrou o pé? – Perca peso!

Alergia na pele? – Perca peso!

Enxaqueca? – Perca peso!

Febre alta? – Perca peso!

Não examinam, não investigam.

GORDO: PERCA PESO!!!

Não existe UM profissional assim. Nem dois, nem três. É uma MULTIDÃO de insensíveis que não conseguem averiguar NADA sobre os SENTIMENTOS dos seus pacientes. Apenas: olhar. Constatar que é um gordo. Sentenciar.

Paciente são PESSOAS. Eles têm SENTIMENTOS. E os seus sentimentos têm SIGNIFICADOS.

Não basta dizer “siga a dieta e faça exercício.”

Sejamos francos: vocês realmente acham que essa estratégica 100% TÉCNICA e desumana está funcionando?

Se aterrorizar e envergonhar gordos nos levasse a algum resultado, não teríamos gordos no mundo. Nenhum. Nenhumzinho.

Tá dito.

Mas não acabou.

Vamos falar sobre a reportagem da Folha de São Paulo. Que eu recebi ontem. Umas 20 vezes.

Folha está preconizando a URGÊEEEEEEEENCIA de cultivarmos corpos magros

Selecionaram UM estudo (UM. estudo.) de UMA revista (Journal of Endocrinology) transformaram o conjunto esparso de resultados num mosaico de frases que compõem um manifesto da supremacia magra.

“só a prática de exercícios não é garantia de uma vida mais longeva e melhor, ou seja, com menos doenças”

Nem para os magros!!!

Aí já aproveitam para adequar o texto para propagar a mais pura gordofobia. Preguiça.

Não existe CONSENSO nem sentença final por causa da publicação de UM ESTUDO.

Vocês não estão provando NADA. Estão provando, apenas, que lhes apetece torrar o saco para que gordos emagreçam. Porque a sociedade é implacável na caça aos gordos (novas bruxas?)

(“Estou gordo demais para ir ao trabalho hoje”. Viu, gordos? Agora vocês podem pedir LICENÇA do trabalho. Seus doentes.)

“Viu só? Os gordos são doentes.”

Vi nada.

Para cada estudo que fala X, existe um outro estudo que fala Y.

Sabe o que me espanta? A ALEGRIA que a publicação dessa reportagem causou nas pessoas. Como se pensassem “OBA, agora eu posso zoar e repudiar gordos!!”

( e não foram apenas pessoas leigas que se comportaram desse modo.)

E mesmo que, mesmo que, mesmo que… MESMO QUE

– a pessoa gorda esteja/seja efetivamente doente

ISSO NÃO É CARTA BRANCA PARA PRATICAR GORDOFOBIA.

tratamento

Ladainha científica NÃO justifica preconceito.

NÃO justifica tratar o gordo mal.
NÃO justifica menosprezar o gordo.
NÃO justifica tornar o gordo a piada da roda.
NÃO justifica chamar o gordo de fracassado.
NÃO justifica apontar para uma gorda e dizer “ninguém vai te querer”
NÃO justifica fazer piadas sobre como “gordo só faz gordice”.

O fato da pessoa estar doente ou não (com base em um único estudo isolado e controverso) NÃO é uma carta branca pra gordofobia. NÃO é sinal verde para punir gordos.

O estado de saúde de uma pessoa e o tratamento que ela recebe da sociedade são coisas distintas.

gordofobia