…Um espelho que não importa mais.

O relato de hoje é da leitora Bruna Gurgel, que conviveu com um transtorno alimentar e escreveu um texto muito bonito sobre isso:

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“É dito por aí que ódio e amor podem caminhar juntos. Podemos dizer que já vivenciamos muito disso, mas acho que paixão no nosso caso, se encaixaria muito melhor que amor. Eu várias vezes te submeti a vários tipos de situações, agressões, destruições. Foram tantas coisas — algumas extremas, já outras nem tanto. Tantas oscilações. Recaídas. Idas e vindas.

A verdade que talvez por minha culpa, tanto eu quanto você nunca soubemos o que era normal ou adequado. Te fiz ser de tantas formas, tamanhos. Já te dei todas as comidas, quando depois eu te obrigava a colocar pra fora. Já te deixei dias sem alimento nenhum e você ainda assim era obrigado a dar tudo de si para me manter em pé e continuar realizando as minhas necessidades, pois as suas eu ignorava e odiava. Te maltratei tanto.

Terceiros também te maltrataram, nos maltrataram tanto, mas eu sempre fui a pior. Incrível como eu sempre quis te mudar, pois você nunca conseguia me satisfazer. Mesmo assim, teve paixão. Amor não! Amor não permite fazer nem metade do que eu fiz. Amor sempre foi muito distante pra gente. Algo que nunca conhecemos. Mas, vivenciamos paixão.

Nos apaixonamos. Infelizmente, eu passei mais tempo te odiando, transformando tudo de ruim que acontece na minha vida em comida (ou na falta dela), fazendo você pagar o preço por tudo porque eu acreditava que a culpa era sempre sua. Te deixei bem confuso por anos e ainda me sentia traída por cada reação sua. Te odiava com todas as minhas forças quando você dizia ter fome, quando eu me olhava no espelho e você me fazia chorar feito uma criança por tudo que eu via: cabelo, pele, nariz, boca, dente, barriga, pernas — você por inteiro.

Quando você não era manequim 34. Quando pesávamos 60kg e eu queria 53-50kg. Quando estávamos com 50kg e eu chorava porque você não me fazia chegar na “casinha” dos 40kg. Quando chegamos aos 42kg, mas você não resistiu e nos internaram, antes mesmo da gente chegar na “casa” dos 30. Como te odiei nesse momento. Como te julguei fraco. Imprestável. Incapaz. Mas, depois disso conseguimos fazer um acordo. Um acordo que não saberíamos mais qual é o nosso peso e que isso simplesmente não importaria mais, pois nunca mais isso seria motivo para te torturar, passar fome, não dormir, não ser feliz.

Hoje, comemos saladas e legumes felizes, assim como, mesmo que de forma cautelosa comemos um pedaço de bolo de chocolate felizes também. Sei que muitas vezes ainda te faço substituir suas vontades por uma comida mais sem gosto e sem graça. Mas, eu não te privo de alimentos mais. Sei que ainda me pego planejando e sonhando com as plásticas e intervenções que quero fazer em você. Mas, não te torturo mais como antes. Hoje em dia só me preocupo excessivamente com você e sei que é isso que em certos momentos me faz recair em relação ao nosso acordo. Mas, agora eu já te dou a voz. Eu te escuto. Eu te reconheço. Eu te peço perdão. Perdão por tudo que já te fiz passar, por todas as torturas minhas e pelas torturas dos outros, as mesmas que eu não te defendia porque simplesmente achava que a gente merecia. Perdão por nunca ter imaginado que meu perfeccionismo, vergonha e segredos formariam juntos uma combinação nociva. Perdão por todas as sequelas, sendo a ameaça de infertilidade, a pior delas. Perdão por todas as vezes que te fiz perder o equilíbrio, que não te dei valor, não te enxerguei. Eu te agradeço também. Agradeço por ser tão forte como você é, por mesmo com todos dizendo que a gente não aguentaria, você não desistiu de lutar, se recuperou e fez com que continuássemos vivos.

Obrigada pela paciência, por entender o quanto é difícil pra mim. Obrigada por ser exatamente como você é. Hoje eu entendo que a verdadeira mudança não vem de fora pra dentro, mas sim de dentro pra fora. Hoje, todos os dias que acordo faço um pacto comigo:

Reciclar meu culto ao corpo e substituir pelo culto à vida.

São sempre pequenas conquistas que me movem, como um dia mais fácil, uma risada inesperada ou um espelho que não importa mais.

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Atualmente a Bruna se encontra BEM, saudável e muito mais feliz.:)

Espero, sinceramente, que o relato dela possa ajudar muitas pessoas que neste momento estão passando pela mesma situação

(eu irei me alimentar e lutar contra esta doença. Não irei alimentar esta doença e lutar contra mim mesma)