Procurando uma trufa de chocolate na chuva

(texto de Geenen Roth)

Na primeira vez que eu parei de fazer dieta, meus amigos acharam que eu havia ficado doida. Eu estava 20 quilos acima do meu peso natural e um vestido estampado de verão era a única coisa que me servia – e eu usava diariamente, até mesmo no inverno. Uma noite, eu e a minha amiga Susan estávamos num restaurante e eu pedi um brownie com sorvete de sobremesa. Me encarando, Susan disse: “De verdade, Geneen, você não pode estar pensando que comer um brownie com sorvete é bom para você. Olhe pra você! Você tem que emagrecer! É nojento. Você deveria achar uma dieta e segui-la”

Mesmo 30 anos depois eu me lembro exatamente de onde estávamos – num restaurante em San Jose, Califórnia; o que Susan estava vestindo – um suéter laranja com manchas turquesa; e o que como eu estava me sentindo – envergonhada e gorda. (Todos sabemos o que eu estava usando). Meu rosto adquiriu mil tons de vermelho, e eu imaginei me esconder por um longo período embaixo da mesa… E dar alguns beliscões no tornozelo de Susan enquanto estivesse ali. Mas ao invés disso, eu respirei profundamente, ajeitei a postura, e disse (numa voz provavelmente mais alta do que o necessário) que eu estava fazendo algo novo em relação à comida e que, embora eu agradecesse a preocupação, os seus comentários não eram bem vindos.

Uma Susan levemente assustada balbuciou: “Bom, espero que você saiba o que está fazendo”. Eu disse que sim. E era isso. (Mais ou menos, um ano depois, depois que eu atingi o meu peso natural, Susan ligou e me perguntou se podia participar do meu programa de suporte aos comedores emocionais. Justiça Divina vem em várias formas)

Eu recebo com frequência cartas desesperadas de pessoas que querem saber o que fazer e o que dizer aos cônjuges e amigos que comentam sobre seu peso e sobre seu consumo alimentar. Nessa manhã uma mulher chamada Lizzie escreveu “por favor me diga o que posso dizer à minha melhor amiga, que está convencida de que eu estou me matando por me permitir comer o que eu quero.”

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(imagine tratar a si mesma com a gentileza que você mostra às pessoas que ama)

Minha resposta é sempre a mesma: Uma vez que somos adultos, não é o trabalho de ninguém além de seu monitorar o que entra na sua boca. Não estou dizendo que informação nutricional não é importante; é sim. Não estou dizendo que seus amados amigos e família não são necessários e úteis; eles são. Mas quando o assunto são comidas específicas que você escolhe comer num dado dia, você é a chefe.

Por que? Duas razões. A primeira é que a não ser que você comece a se reservar esse direito, você passará a vida comendo queijo cottage na frente de pessoas que pensam que você deve comer queijo cottage, e brownies e sorvetes quando você está sozinha. Você vai passar sua vida como uma criança que ou está obedecendo uma autoridade ou se rebelando contra ela, nunca assumindo o poder que tem.

A segunda razão é que por que por mais amorosa que seja a intenção de um amigo ou familiar, é equivocada. Quando alguém comenta sobre o que você come ou o quanto você deveria pesar, isso provoca vergonha, e após ter trabalhado com dezenas de milhares de pessoas ao longo dos anos, posso afirmar com absoluta certeza que vergonha nunca, sob nenhuma circunstância, leva a uma mudança sustentável. Vergonha só leva a mais vergonha, mais ocultamento, mais esgueiramento, mais compulsão.

Então o que funciona? Duas coisas: Ser clara e direta a respeito dos seus sentimentos, e lembrar a você mesma de novo e de novo de que você é a chefe do seu próprio corpo. Anos atrás eu trabalhei com uma mulher chamada Marian que estava 15 quilos acima do peso. Durante minha aula de oito semanas, Marian começou a perceber que o ciclo de restrição-compulsão que ela alimentou por 20 anos era um principal contribuidor para seu ganho de peso, então ela decidiu que ela iria parar de fazer dieta e começar a comer o que desejava. Ao invés de permitir que o marido fizesse comentários sobre seu peso e alimentação, ela tomou o touro metafórico pelos chifres.

Numa noite ela foi dizer ao seu marido que precisava dele como amigo e amante, não como inquisidor e juiz. Ela disse a ele que embora ela soubesse que ele a amava, estava ferindo, não ajudando, quando ele comentava sobre o tamanho do seu corpo ou um alimento que estivesse comendo. E ela pediu seu apoio. Quando ele perguntou o que poderia fazer, ela disse “Confie que sei o que estou fazendo. Confie que eu sei o que é melhor para o meu corpo. Confie que ouvir a mim mesma é verdadeiramente o que eu preciso fazer. E quando você puder, expresse amor, não julgamento.”

“OK”,  ele disse, “é um trato. Ele admitiu que seria difícil, mas disse que estava disposto a ajudar Marian exatamente do modo que ela pediu.

“Eu sei que isso é novo”, ela respondeu. “E eu sou que eu já pedi por conselhos muitas vezes, ou para me dizer se eu parecia gorda num vestido ou numa calça. Mas agora eu vou parar com isso. Me dê três meses. Vamos ver o que acontece.”

Durante uma noite nas primeiras semanas de sua experiência, Marian decidiu que ela queria uma trufa de chocolate de um restaurante que ficava a 20 quilômetros. Estava chovendo torrencialmente e ela não gostava de dirigir no tempo ruim, então ela pediu que o marido a levasse. (Isso é que pedir suporte.)

Ele engoliu em seco. “Você quer uma trufa? Nesse aguaceiro?”

“Sim”, ela disse. “Você me leva?”

E lá foram eles. Quando ela havia mordido dois pedaços da trufa (que tinha o tamanho de um limão – sem brincadeira), ela parou de comer e disse “OK, é o bastante”.

O marido ficou assombrado quando ela disse isso. “O bastante? Eu diriji 20 quilômetros na chuva para comprar isso!”

Ele não estava acostumado a ver sua mulher morder dois pedaços de nada. Ou a ver sua liberdade de experimentar sentimentos como um resultado de saber o que queria, pedir por isso, e receber sem sentir vergonha.

Coisas incríveis acontecem quando você recupera o seu corpo. Você pára de se desculpar por seu peso, você para de comer quando ninguém está olhando. Você começa a possuir o imenso poder que sempre foi seu; o que você come e como você se sente. Quando você não está comendo para satisfazer outras pessoas ou se escondendo pela casa/carro/escritório para comer tudo o que vê pela frente, você começa a ser o a orgulhosa dona do seu próprio corpo.

Quando você realmente souber disso, você vai saber exatamente o que fazer quando os fiscais de prato começarem a aparecer na sua vida. Seja educada; explique que você sabe que eles têm as melhores intenções no coração, mas que alguém mais capacitado tem tudo sob controle: você. A chefe é você! E se seus amigos e familiares não são tão parceiros quanto o marido da Marian (ei, acontece), lembre que, parafraseando Eleanor Roosevelt, ninguém pode te fazer sentir vergonha sem seu consentimento. Você é livre para decidir o que pensar, sentir e colocar pra dentro do corpo.

Então faça o que você sabe que é certo (mesmo se, assim como comigo, a questão envolva brownie com sorvete), e se você algum dia ansiar por uma trufa numa noite chuvosa e ninguém quiser te levar, dirija você mesma. Quando você quer algo doce, a liberdade é sempre uma boa escolha.