Restrição alimentar para crianças.

 

[TW: TRETA]

Tema de hoje: alimentação infantil

Criança pode comer “besteira”? Devemos restringir?

Disclaimer: Se você é uma mãe (ou um profissional) da patrulha anti-açúcar, não gostará nada nada deste texto e vai ficar com raiva. Poupe-se do incômodo. Desvie daqui e veja este vídeo de gato que agrada todos os públicos.

Vamos lá:

Recentemente o portal El Pais publicou uma matéria com a manchete “O pão branco é um dos problemas mais graves que temos”

(variação de: “o colesterol é um dos problemas mais graves que temos“, que foi popular nos anos 80)

Quem diria, não? Eu pensei que fosse a desigualdade social, a violência urbana, o desemprego, o efeito estufa, a maionese caseira da Rita Lobo…mas nah. É o pão.

Na verdade por meio deste texto eu não quero falar sobre a matéria, mas sim sobre o que as pessoas falaram sobre a matéria. Terrorismo é bom, todo mundo gosta, as mães batem palminhas. É BOM DEMAIS ter um único fator para culpar por todos os nossos problemas!

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(TEM CNPJ??)

Atualização: o texto original precisou ser modificado por motivos de ‘ética de rede social’, unicamente em respeito a uma colega que respeito muito. Por isso, o trecho a seguir aparece na forma de citação indireta:

As pessoas que combatem a BIG FOOD (termo hiperbólico para se referir às corporações alimentícias) normalmente propagam diretrizes alimentares que não podem ser seguidas por boa parte da população brasileira, como: azeite extra virgem de alta qualidade para todas as preparações, proibição indiscutível do pão branco, carne de peixe três vezes por semana e outros tipos de normas prestigiosas e inflexíveis.

Também costumam compreender de forma errônea o trabalho dos profissionais que trabalham na área da nutrição comportamental. Quando defendemos a importância de não submeter as crianças à restrições alimentares significativas, por alguma razão que me foge ao entendimento, pensam que estamos dizendo que “industrializado faz bem”.

Não sejamos tontos. Industrializado NÃO faz bem e todos sabemos disso. A nutrição comportamental não é um braço da BIG FOOD e muito menos um incentivo a uma anarquia alimentar.

Existem diversos profissionais que crêem que a restrição total de alimentos processados é o melhor caminho, e assim o dizem por causa de parâmetros técnicos, sem pensar nos sentimentos dos envolvidos.

Eu afirmo com todas as letras e sem pudores que a restrição alimentar para crianças não é uma boa alternativa. Porque a proibição tem severo impacto psicológico, emocional e cognitivo.

E se você é daqueles que só acredita se estiver num ESTUDO, pode verificar minhas fontes aqui, aqui e aqui

Sobre azeite, pão, peixe e outras dicas alimentares elitistas “saudáveis”:

 

1) o único e preferencial óleo a ser usado na introdução alimentar é azeite de oliva virgem manipulado pelas jovens virgens das cordilheiras virgens do noroeste da Albânia, de alta qualidade…e caro.

(O MELHOR E MAIS PURO AZEITE)

É bastante desleal colocar as mães contra a parede apresentando uma única alternativa exclusivista e pouco acessível para preparar a refeição dos seus rebentos. Boa vontade e desejo de fazer o melhor pelos filhos, TODAS têm! Recursos para tanto? Nem todas.

Bom lembrar.

2) Bebês só podem comer pão integral “de verdade”. Acho uma recomendação válida e concordo com ela. Não sou o bicho-papão que oferece terríveis bisnaguinhas aos vossos filhos. Mas é importante lembrar que muitas vezes um pão francês que foi feito HOJE, que você comprou HOJE e que você sabe que estará duro ou murcho AMANHÃ pode ser uma alternativa mais interessante do que o pão embalado “20 grãos” que dura 20 dias na sua cozinha sem que nenhuma alteração reconhecível aconteça.

(já ouço o doce som do linchamento por ter sugerido que as pessoas comam pão francês…)

Mas me parece a trupe da maternidade perfeita está falando do pão integral de trigo rústico triturado pelas jovens virgens das cordilheiras virgens do noroeste da Albânia – não de qualquer pão indistinto que pode ser encontrado no supermercado. Porque né? Alimentação saudável é privilégio.

Treta-bônus: o seu bebê não vai virar pó se a sua sogra lhe der um naco de pão numa tarde de domingo qualquer…

3) Bebês e lactantes precisam de peixe pelo menos 3x/semana, invariavelmente.

Carne de peixe é uma excelente opção. Possui, sim, gorduras boas que são fundamentais no desenvolvimento físico e mental da criança. Mas deve ser difícil honrar o compromisso de servir três vezes por semana. Comer peixe de boa qualidade doze vezes por mês não é impossível! Mas novamente: não está ao alcance de todos.

Até porque devemos lembrar que estamos falando sobre o peixe, mas nessas alturas já acumulamos a obrigatoriedade de dar ao nosso bebê hipotético O MELHOR AZEITE, O MELHOR PÃO e O MELHOR _________________ (complete o ingrediente aqui).

 

Todas as discussões sobre alimentação infantil que ressaltam a importância da escolha dos ingredientes mais frescos e nobres como se isso só dependesse de você desconsideram o contexto social e econômico. Dão a entender é que se você serve algo que não seja de qualidade aos seus filhos, a culpa é sua porque você pecou por negligência. O que se vê é um total maniqueísmo que aponta a indústria alimentícia como a razão da ˜epidemia de obesidade˜, num cenário de perversidade onde os indivíduos são reféns de “comidas viciantes“. Seria bom se fosse só isso. Um único problema é mais fácil de resolver, não? Tudo culpa dos homens malvados que produzem alimentos malvados!

Mas infelizmente a questão do aumento global da obesidade e das doenças crônicas envolve questões muito mais complexas. Muito além do metabolismo, da genética e das calorias que a pessoa ingere, a saúde (ou falta dela) dos indivíduos envolve fatores culturais, sociais, geográficos, familiares, educacionais, financeiros e até políticos. Transformar nossa relação com a comida num desenho do Scooby Doo não vai ajudar.

(Guenta firme, pãozinho! O ovo já passou por isso…)

Gostaria de fazer uma pausa para dizer que eu sou 100% favorável ao movimento de voltar para a cozinha, preferir alimentos in natura ou minimamente processados, reduzir o consumo de industrializados. Eu apoio a comida saudável, fresca, nutritiva e feita por nós! Não há BIG FOOD nenhuma me patrocinando. No entanto:

– Quando falamos por aí “temos que comer como os nossos bisavós”, vale lembrar que a alimentação dos nossos bisavós era compatível com A VIDA que levavam. Tenho certeza que os meus antepassados comiam com mais qualidade do que eu. Mas também tenho certeza que as mulheres das gerações passadas não tiveram a oportunidade de ter um trabalho! Neste momento eu estou escrevendo sobre elas sentada no consultório, entre um atendimento e outro. A minha bisavó não teve esse privilégio: passava o dia na cozinha. Lembrar: para se ter uma alimentação de bisavó, tem que ter rotina de bisavó! É possível? Nem sempre.

Problematizadores extremistas de plantão: entendam que isso não é um ODE aos alimentos processados. Estou apenas dizendo que para que seja totalmente possível comer como os seus ancestrais, é preciso reproduzir a vida deles. E tipo, não dá.

– Seria ótimo se vivêssemos num cenário totalmente desprovido da oferta de alimentos industrializados (os doces, por exemplo). Mas a realidade é que nós estamos segunda década do terceiro milênio e sim: fast food existe. Não adianta querer criar uma BOLHA DE ASCETISMO em torno da sua criança e tentar criar um universo dentro do qual as guloseimas não existem. A questão não é cortar o consumo e transformar o assunto em tabu, mas sim saber LIDAR com as circunstâncias que temos.

Tem mais:

Tem filhos? Cortou o acesso a todas as comidas “recreativas” ou tem pensado em fazê-lo?

**por favor lembrem que eu não estou me referindo a condições clínicas específicas que justifiquem a proibição

Tô ouvindo os gritos daqui, mas me dê uma chance!

Quando você restringe a alimentação de uma criança, você cria:

– Uma criança com trauma de privação;

– Um adolescente rebelde;

– Um adulto compulsivo.

Quando os adultos (com a melhor das intenções!) criam regras rígidas de consumo dos alimentos “ruins”, eles estão CRIANDO uma aura de maravilhosidade (com coro angelical, mesmo!) em torno do alimento que não querem que a criança coma.

Se você determina que a criança só poderá comer o alimento X (que ela adora) no sábado…todos os dias da semana se transformam num obstáculo para chegar no prêmio.

Se você diz que a criança só vai comer o doce quando terminar a refeição principal…a comida caseira (“saudável”) se transforma no sacrifício que deve ser feito em nome da recompensa.

Quanto mais você insiste que a criança NÃO COMA tal coisa, mais o fascínio vai se acumulando. Além de todo, chamar coisas que você gosta de “porcaria” pode ser um processo mental muito confuso.

Quanto mais você tenta obrigar seu filho a gostar de verduras, mais ele vai torcer o nariz.

Crianças que aprendem que é errado comer coisas gostosas porque “mamãe não deixa” aproveitam a todas as chances que têm para comer do fruto proibido. Vira um processo de despedida. Crianças que têm pais restritivos costumam comer ao ponto de passar mal nas festinhas ou nas visitas à casa dos coleguinhas. Porque a comida se torna simplesmente irrecusável.

Chocolate não é tudo isso, e a criança sabe. Somos nós, os adultos, que o transformamos em TUDO ISSO na tentativa de que a criança não se interesse.

É como dizer: “tá vendo esse brinquedo novo que você estava me pedindo há meses? Aqui está ele, mas deixe-o onde está. NÃO PODE BRINCAR.”

(A mente adulta mal aguenta as proibições… Os baixinhos toleram menos ainda!!)

Após a infância, a criança que você privou vai se tornar um adolescente com muita, MUITA mágoa de você

 Problematizadores extremistas de plantão: eu não estou argumentando que precisamos dar tudo o que a criança quer. Obrigada, de nada.

Ter o prato fiscalizado durante toda a infância é uma experiência frustrante e traumática… e esses sentimentos negativos se transformam em comer como forma de protesto.

Todos os sorvetes que você proibiu na história aparecerão rapidinho na mão de qualquer adolescente com um pouquinho de autonomia, acesso ao shopping, alguns amigos e dinheiro na mão.

Você não será a mão que alimenta o seu filho por toda a vida. Portanto é importante pensar que ele precisa estar mentalmente saudável quando tiver autonomia – coisa que não vai acontecer se você for a mãe louca da proibição.

O adolescente que passa pelo drama da proibição se transforma num rebelde alimentar.

Mas o pior vem depois, quando este jovem atinge a idade adulta.

A criança gordinha que foi privada e censurada pelo pediatra, pelas nutricionistas, pelos professores, pelos coleguinhas, pelos irmãos, pelos tios, pelos primos e pelos pais NUNCA se sentirá à vontade diante da comida, a não ser que faça tratamento.

“Mamãe não deixa”
“mamãe vai me flagrar”
“mamãe vai me tirar isso”
“preciso comer antes que acabe”
“preciso aproveitar enquanto estou sozinho”

São pensamentos persecutórios que a pessoa vai levar dentro da cabeça pelo resto da vida, mesmo que ela já esteja bem grandinha! E as atitudes compulsivas acontecem em resposta a esses pensamentos.

Adultos compulsivos têm uma fome do tamanho do mundo, uma fome que não tem fim. Comem escondido, fazem malabarismo para se livrar das embalagens. Passam por situações constrangedoras, se envergonham, se arrependem. Precisam comer. Não é fome de comida, é fome de afeto, de amor, de segurança, de validação.

Cortar tudo “de vez” da vida dos seus filhos é uma péssima ideia, pode acreditar.

Mas Paco, você especialista em alimentação infantil?

– Não?

E você atende crianças?

– Não. Muito raramente. Mas pode ter certeza que atendo os adultos que um dia foram podados durante a infância e lido com as sequelas das feridas do passado. Talvez você pense que no futuro, irão te agradecer por ter feito tantas proibições… mas olha…dificilmente.

Entre propostas do tipo “8 ou 80” e a moderação, sempre prefira a segunda opção.

Você pode acreditar nisso…

Ou você pode acreditar que eu estou construindo um império gordo financiado pela BIG FOOD.

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Este texto foi escrito enquanto eu consumia este PIRULITO terrível que forneceu glicose para o meu cérebro degenerado.

Ps: este post não significa “comam fast food como se não houvesse amanhã”…grata.