Não existe veneno sem DOSE.

Já escrevi anteriormente sobre os problemas decorrentes de falar mal da comida.

Hoje eu quero falar sobre: não só falar mal da comida, mas acreditar que ela é tóxica.

Me conta uma coisa…

Você já reparou na proliferação de “versões saudáveis” de alimentos que têm má fama?

Como a coxinha funcional:

coxinha

O brigadeiro de batata doce:

O panetone multi-grãos:

panetone

Ou o “bolo saudável”?

bolo-saudavel

A ideia é que: se você consumir versões saudáveis/FIT/DoBEM dos seus alimentos favoritos, será eximido da culpa.

Acontece que quando o assunto é alimentação, nós não precisamos buscar versões “menos pecaminosas” daquilo que gostamos de comer. O que verdadeiramente precisamos entender é que:

A culpa não deveria existir.

Dividir alimentos entre “benignos” e “malignos” cria a possibilidade de erro. Quando cometemos um erro, nos sentimos culpados. E a culpa é o motor-propulsor dos relacionamentos turbulentos com a comida.

O terrorismo nutricional, também chamado de “nutricionismo” é uma expressão que engloba os radicalismos “em nome da saúde”, o sensacionalismo das conclusões científicas hiperbólicas, o maniqueísmo e a famosa tática [ineficaz] de educar através do terror.

A população é POR DEMAIS exposta a esse tipo de abordagem. Por isso, o pensamento polarizado sobre a comida é comum. Tão comum que: equiparar bolo de chocolate com veneno parece um padrão de pensamento totalmente razoável (digo isso porque um comentário afirmando que “bolo de chocolate é veneno” foi feito na minha página recentemente e suscitou um debate voraz)

beatrix

(Aproveito para reproduzir a coisa mais coerente que foi dita…)

Demonizar alimentos não somente faz com que o indivíduo se sinta uma pior pessoa por ter comido algo que “não deveria” – mas também deixa as pessoas apavoradas porque um simples pedaço de bolo [supostamente] poderá deixá-las gordas e doentes.

bolo-cordeiro

(Não me surpreenderia se não tivesse sido um erro de digitação…)

Toda vez que alguém me escreve que “bolo é veneno” (e creiam: não são poucas), eu me lembro de “Astérix e Cleópatra” – você já leu ou viu o desenho?

Na história, o arquiteto egípcio Amonbofis conspira contra a rainha Cleópatra, frustrado por não ter sido escolhido para construir um novo palácio.

E aí ele prepara um BOLO DE ARSÊNICO:

(Estricnina, cicuta, parafina, opio, sanguessuga, ovos de rã e, claro, arsênico, são alguns dos ingredientes)

Estou falando disso para pontuar o óbvio: normalmente entende-se que VENENO é uma substância empregada para provocar [deliberadamente] um colapso nas funções vitais de um organismo.

veneno-google

(a ideia não é matar baratas e ratos POR ACASO)

Portanto, a não ser que você tenha feito um bolo de arsênico para matar a Cleópatra, chamar comida de veneno é um palavreado meio OVER.

Ok, mas e quando o assunto são substâncias que fazem mal ou intoxicam sem a gente querer? Os famosos [e terríveis] ALIMENTOS QUE TE MATAM SILENCIOSAMENTE?

dieta-mente

(um nítido exemplo de terrorismo)

Neste caso, repito o que está no título: Não existe veneno sem dose.

Mesmo que seja para matar um rato com chumbinho, você precisa estabelecer a dose necessária para isso.

O bolo de chocolate tem gordura saturada, açúcar, ~GLÚTEN~ e blablabla?

R: Tem.

Isso faz mal?

R: Depende!

O bolo de chocolate como fator isolado não significa NADA.

Para saber se o bolo vai fazer mal, é necessário fazer uma análise de contexto:

Quanto bolo a pessoa está comendo?

Quantas vezes ela come essa quantidade de bolo?

Qual é a ocasião em que este bolo está sendo ingerido?
(uma paciente certa vez me disse que comeu bolo no aniversário de um amigo, pensando ao mesmo tempo que deveria estar comendo uma maçã – teria sido razoável?)

Uma pessoa que come HORRORES DE BOLO, numa frequência considerável, terá problemas. Mesmo que seja bolo “do bem”.

As receitas ~~saudáveis~~ podem fazer mal e engordar de igual maneira!

Além de tudo existe um agravante: já que a pessoa acha que é um bolo FITNESS, enxerga uma aura de maravilhosidade em torno dele e se sente encorajada a comer sem parcimônia porque é um alimento que [teoricamente]: faz bem, não engorda e se duvidar até emagrece!!

bolo-low

(A solução para os problemas não é recorrer às “receitas ZERO CULPA” – é lidar com a comida de um modo equilibrado)

NÃO EXISTE alimento que engorda. NÃO EXISTE alimento “ruim”. Existe relação desarmônica com a comida. A questão não é só o que você come. Mas sim quanto, quando e como você come.

Não está convencido?

Então vou deixar de lado o horrendo bolo e vou falar sobre uma substância que faz bem para absolutamente todas as pessoas, e que ninguém tem motivos clínicos, religiosos nem ideológicos para não consumi-la: a água.

ÁGUA é tudo de bom, certo? É a necessidade humana mais primordial, ficando atrás apenas do oxigênio. Beber água promove inúmeros benefícios.

A água é uma substância DO BEM, saudável e inocente.

Acontece que existe envenenamento por água.

agua-morte

Saiba mais sobre porque isso acontece AQUI.

Conclusão: uma pessoa pode comer bolo de chocolate numa festa de criança [sem sofrer absolutamente nenhuma consequência grave de saúde]… mas se intoxicar com água tentando dissipar aquilo que crê ser veneno.

Agora só me resta terminar citando Paracelso (1493 – 1541):

paracelso

Paola Altheia – Nutricionista comportamental.