“Espelho, Espelho meu”

Fui agraciada com este texto da leitora Amanda Sadalla, do 4º semestre de Administração Pública da FGV.

Ela montou um grupo de discussão sobre imagem corporal com as colegas de curso e escreveu um texto sobre a experiência.:

Sempre me vi sozinha nessa. Há um tempo, escrevi um texto que se chamava “Deixe as gordas em paz”; era isso mesmo, eu dizia: deixem as gordas em paz! Nele, contei um pouco sobre aquela voz que vivia dentro de mim criticando meu corpo a cada segundo. Contei sobre minhas tentativas diárias de arrancá-la de dentro de mim. Eu disse: “Uma pessoa não precisa necessariamente ter sido gorda ou ser gorda para sentir-se como tal. O sentimento de “ser gorda”, para muitas, não é o sobrepeso, é a ideia de não estar boa o suficiente.”

Depois que publiquei o texto, recebi algumas mensagens de mulheres, jovens e adultas, e de alguns meninos também, falando como elas se identificaram com o que foi dito naquele texto. Se me senti menos sozinha com aquelas mensagens? Talvez, um pouco. Mas muito pouco. O sentimento de solidão que acompanha qualquer pessoa com distúrbios alimentares é muito mais forte do que se pensa. Você pode estar cercada de pessoas que te fazem bem, pode estar sorrindo, até rindo, mas a insatisfação consigo mesma e com o que você apresenta ao mundo – sua imagem – faz sentir-se sozinha.

Outro dia, li um artigo que falava sobre como a comida se transformou em uma grande inimiga. Quantas vezes você olhou para um doce na vitrine de uma loja e pensou somente no quão gostoso ele deveria ser, sem nem por um segundo pensar em como ele te forneceria milhares de calorias e como isso lhe faria um mal tremendo? Qual foi a última vez que você comeu um doce sem se sentir culpada? A culpa se tornou uma grande companheira no ato de comer. A culpa por sentir prazer ao comer. A culpa por querer comer. A culpa por querer sentir prazer. E, por fim, a grande culpa dos distúrbios alimentares: a culpa por não se sentir suficiente – não para você – mas para os outros.

Naquele texto também escrevi que “a grande questão em torno da bulimia, da anorexia, e de tantos outros distúrbios alimentares que atormentam as pessoas diariamente é a necessidade que temos, em nossa sociedade, de agradar o outro. Passei a vomitar como um escape, como a forma que encontrei de colocar para fora a insatisfação comigo mesma.” O pensamento é “estar gorda faz os outros estarem insatisfeitos comigo; estar gorda ocupa um espaço ruim na vida das pessoas”, e por aí vai. Uma vez me perguntaram “mas o que você vê no espelho? É outra imagem?”; o que mais veria no espelho, senão eu mesma? Vejo a mim, e não gosto do que vejo. Sim, às vezes gosto, outras vezes não, e há momentos em que detesto.


Pois bem, desde que escrevi esse texto, essa tal culpa continuou convivendo comigo. Em alguns dias elas se aquietava, já em outros teimava em reaparecer. Sempre bem escondida para os outros, mas bem presente para mim. E aquela pergunta “será que estou sozinha nessa?” começou a me inquietar cada vez mais. Faça um experimento. Fique na fila de uma sorveteria, ou de uma doceria, bem quieta, ouvindo os diálogos ao seu redor. É um tal de “mas isso engorda tanto”, “ok, hoje vou me permitir”, “depois me mato na academia”, “mas estou de dieta”… Quantas vezes por dia repetimos a palavra dieta? Algumas mais, outras menos… Outras não repetem, não falam, só sentem; e como sentem! Pensando nisso, neste ano, montei um questionário com algumas perguntas sobre satisfação corporal entre meninas da Minha faculdade e enviei no grupo do Face de alunos da FGV.

Todas as 220 respostas me surpreenderam.

Não estava sozinha. Não estou, e não estamos sozinhas nessa.

– Das 220 mulheres que responderam ao questionário, 15% responderam “não, não me sinto satisfeita de maneira alguma com meu corpo”.

– “Se você faz algum tipo de dieta atualmente: você tem algum tipo de acompanhamento médico?” , 76% das respostas a essa pergunta foram: “não tenho nenhum tipo de acompanhamento médico”.

24% das mulheres responderam já terem tido ou terem algum distúrbio alimentar (bulimia, anorexia, compulsão alimentar).

– Para a pergunta “se você se sente insatisfeita com seu corpo: você considera que essa insatisfação já te prejudicou ou prejudica em diferentes aspectos na sua vida? Se sim, quais?” 42% afirmaram “amoroso” e 43% “social”.

– A pergunta “se você se sente insatisfeita com seu corpo: sua insatisfação já te impediu de usar uma roupa que gostaria?” teve como 60% das respostas “sim, mais de 3 vezes.”

– “Se você se sente insatisfeita com seu corpo: sua insatisfação já te deu ou dá insegurança em relações sexuais?” obteve 73% das respostas como “sim”.

– A última pergunta “se você gostaria de ver esse assunto sendo abordado com mais frequência na Faculdade, como?” teve como 75% das respostas “através de ações das próprias alunas” e 25% “pela própria instituição”.

Ao fim do questionário, deixei um espaço em aberto para que as meninas dissessem, se quisessem, como se sentiram ao responderem o questionário e se gostariam de deixar depoimentos. Foram muitas as mensagens deixadas, mas, dentre elas, algumas como “me senti bem em saber que alguém se importa”; “o questionário foi como um desabafo para mim” e “agradecido porque alguém está tocando no tema”. Talvez realmente não estivesse sozinha nessa. Talvez tantas outras meninas também estivessem se sentindo apenas sozinhas.

(Libertem as mulheres do ódio ao corpo)

Foi então que nasceu o grupo “Espelho, espelho meu.” Rodas de conversa, espaço para desabafos, reflexões e o mais importante: desconstruções. Em tão pouco tempo me enxerguei em tantas outras meninas. Vi como a frase “meu espelho acabou se tornando o olhar do outro” – que sempre expressou tão bem o que sentia – também fazia sentido para muitas meninas. Algumas trajetórias diferentes, outras mais parecidas, mas todas com um elo em comum: a presença avassaladora da aparência em nossas vidas, para cada uma de uma forma e intensidade mas, para todas, presente.

Na nossa primeira roda de conversa nos surpreendemos com as diferenças entre nossas insatisfações e ao mesmo tempo, com suas semelhanças: “como assim você sonha com coxas que encostem uma na outra? Coxas mais grossas? Eu passei a vida toda tentando afinar as minhas!”.

Chegamos a um ponto importante: o ideal não existe. Pronto. O corpo ideal não existe e por isso não chegaremos nele. Podemos até chegar em padrões – talvez essa seja a parte mais fácil – mas e daí? O que adianta chegar nesse padrão se dentro de nós a coisa toda não está boa? Se não nos sentimos bem com nós mesmas? Na nossa segunda roda de conversa, sugeri uma dinâmica: cada dupla – de meninas que não se conheciam muito bem – tinham como desafio desenhar em uma cartolina o corpo que gostariam de ter: rosto, pernas, até a verruga do pé. A minha dupla na dinâmica me contou sobre como suas pintas no rosto a incomodavam, eu fiquei indignada: “Mas são tão delicadas! Te fazem tão única! Sempre quis ter!”. Ela também ficou surpresa quando contei que não gostava do tamanho da minha boca: “mas é tão delicada! Como queria uma boca pequena desse jeito!”. Quando chegamos na parte de desenhar o bumbum desejado (esse causa horrores!) comecei a falar sobre a maldita celulite que tanto me incomodava. De repente, escuto de uma menina do meu lado: “nossa, tinha me esquecido de que não gosto da minha celulite!” Curioso como antes de me ouvir falar sobre a celulite, ela nem tinha pensado nisso. Foi só eu tocar no assunto e normatizar aqueles “afundadinhos no nosso bumbum” como algo ruim, que surgiu a frase “nossa, tinha me esquecido das celulites!”.

Com a criação do “Espelho, espelho meu”, comecei a conversar mais com algumas meninas sobre o assunto. Sabe aquelas conversas em que ficamos bobas com o quanto nos identificamos com o que ouvimos da outra pessoa? Realmente: não estou sozinha nessa. Pelo contrário: estou muito (e bem) acompanhada nessa luta. Não vou dizer que encontramos alguma solução mágica para me sentir melhor conosco mesmas. Mas descobri algo incrível: a sororidade. E como ela pode nos unir nessa luta pela nossa satisfação com nós mesmas.

Nós, mulheres, vivemos em uma disputa constante, mesmo que não percebamos isso na maioria do tempo. Quantas vezes você já não disse para uma amiga o quanto você estava gorda, o quanto estava feia, ou qualquer tipo de comentário negativo com medo de que alguém, até mesmo sua amiga, te dissesse isso? Sabe quando a blusa está marcando aquela gordura um pouco abaixo da cintura? Temos tanta certeza de que todos a nossa volta – principalmente as mulheres – estão olhando para aquela gordura e julgando o quanto fomos desleixadas por termos permitido que ela se estabelecesse ali. A aflição é tanta, que soltamos um deliberado “essa blusa está marcando muito minhas gorduras!”, antes mesmo que qualquer um tivesse tempo de olhar para a gordura e pensar qualquer coisa sobre ela! Nós mesmas nos agredimos! E se enquanto estávamos pensando o quão absurdo era aquela gordura, alguém do nosso lado estivesse pensando no quão linda estávamos? Não, isso não é mania de perseguição. Todas nós nos deparamos com esses pensamentos. Acabamos criando negativas sobre nós dentro de nossa própria cabeça. Pensamos o ruim de uma forma tão intensa que muitas vezes não damos espaço para o bom. E que solidão isso nos traz, não é mesmo? Tornamos os olhares dos outros nosso espelho. Tornamos os olhares dos outros negativos. E aí não sobra espaço para vermos nossa própria beleza. E se começássemos a nos unir mais? E se fôssemos mais cúmplices umas das outras? Outro dia, resolvi confessar para uma amiga que estava super insegura sobre usar biquíni em uma viagem que faríamos. Como foi bom! Não, a resposta dela não me deu a solução para me sentir segura para usar o biquíni. Mas somente o ato de falar sobre a minha insegurança me deu a maior segurança do mundo! Não precisaria me fazer de forte dali para frente, não precisaria inventar uma desculpa para não tirar minha blusa, e quando todas estivessem de biquíni, simplesmente diria “estou insegura” e ponto. Admitir minha fraqueza talvez tenha me tornado, naquele momento, mais forte!

É essa união umas com as outras, esse perdão umas com as outras e com nós mesmas que, quem sabe, podem nos deixar um pouco mais leves! Leves de padrões, leves de ideais, leves de inseguranças. Admitir nossas fraquezas e inseguranças umas para as outras pode nos fazer um grande bem! Afinal, estamos juntas nessas, talvez só não saibamos disso!

Vamos desconstruir esses padrões; cada uma a sua maneira, cada uma no seu caminhar, e quando pudermos – e que delícia seria – faremos isso juntas!

11058575_1617185018562421_7196832079871984839_n

As rodas de conversa do “Espelho, espelho meu” acontecem periodicamente.

Fique de olho na página para saber mais: Espelho, espelho meu

Embora alguns resultados da pesquisa da Amanda sejam alarmantes, eu fico feliz em observar que as mulheres estão encontrando o caminho da sororidade e também o caminho para a descoberta de que Não Somos Exposição… Somos pessoas com talentos, potencialidades e beleza únicos e não existimos para sermos observadas pelos outros.

Liberdade para o corpo, para a mente e também para o nosso apetite. Eu acredito e sonho com cada vez mais mulheres livres e seguras, sem medo da felicidade, do prazer e da sua real natureza.

Vamos fazer a união acontecer? Que tal na sua faculdade? Na sua escola? Na igreja? Na associação de moradores?

Mulheres têm maior poder quando estão unidas! <3

“O Arquétipo da Mulher Selvagem, bem como tudo o que está por trás dele, é o benfeitor de todas as pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras, de todas as que procuram e as que encontram, pois elas todas se dedicam a inventar, e essa é a principal ocupação da Mulher Selvagem. Como toda arte, ela é visceral, não cerebral. Ela sabe rastrear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial à saúde mental e espiritual da mulher.”

(Mulheres que Correm com os Lobos – Clarissa Pinkola Estés)